A Petrobras anunciou R$ 60 bilhões em investimentos no litoral de Sergipe com um objetivo claro: ampliar a produção de gás natural e reposicionar o Nordeste no mapa energético do país. A participação da região na oferta nacional deve saltar dos atuais 16% para 31% até 2035. É, na prática, quase o dobro do que existe hoje.
No centro do projeto está o SEAP, o Sergipe Águas Profundas. Serão duas plataformas em águas profundas, cada uma com capacidade de produzir 120 mil barris de petróleo por dia, conectadas à costa por um gasoduto de 134 quilômetros. A produção de óleo começa em 2030. O gás chega à terra a partir de 2031.
As duas plataformas juntas produzirão 22 milhões de metros cúbicos de gás por dia. Um volume que, segundo a própria Petrobras, muda a equação de oferta para toda a região. A presidente da estatal, Magda Chambriard, foi direta sobre a estratégia de preços: “O que abaixa o preço do gás natural não é trocar de mãos, mas investir com seriedade, aumentar o esforço de produção, para que ele realmente siga a lei da oferta e da procura.”
A lógica faz sentido quando se olha para os números. Em 2023, o preço médio do gás nos países da OCDE foi de US$ 12,56 por MMBtu. No Brasil, chegou a US$ 20,95, diferença que corrói diretamente a competitividade da indústria nacional. Para o Nordeste, o impacto é ainda maior: parte do abastecimento regional ainda depende de transporte de outras regiões ou de gás liquefeito importado.
O projeto não se limita a Sergipe. Com maior oferta regional, projetos industriais em Pernambuco, Bahia, Alagoas e Ceará podem ganhar competitividade, principalmente os ligados à indústria química e aos polos de hidrogênio verde em desenvolvimento na região. Em termos de emprego, a FGV projeta impacto de R$ 75,5 bilhões no PIB sergipano ao longo de 30 anos e a criação de cerca de 397 mil empregos, sendo mais de 151 mil diretos.
O que ainda falta, porém, é a parte mais difícil. A infraestrutura de distribuição regional não acompanha o potencial de oferta que se anuncia. A regulamentação da Nova Lei do Gás, aprovada em 2021, segue incompleta em pontos críticos. E a distância entre uma plataforma no litoral sergipano e uma fábrica no interior do Ceará envolve gasodutos, distribuidoras estaduais, tributação e marcos regulatórios que nenhum investimento isolado resolve.
O SEAP é a condição necessária para uma nova equação de competitividade no Nordeste. Se houver política industrial articulada e abertura de mercado que funcione na prática, os próximos dez anos podem redesenhar o mapa industrial da região. A janela está aberta. O que se faz com ela ainda está por ser escrito.
