Durante o keynote, o diretor abordou sua trajetória, o impacto das novas tecnologias na narrativa audiovisual e a importância de preservar a experiência coletiva proporcionada por uma boa história no cinema.
No SXSW, o diretor Steven Spielberg participou da sessão The Big Picture with Steven Spielberg, em conversa com Sean Fennessey, host do podcast The Big Picture. Ao longo do encontro, o cineasta revisitou sua trajetória de mais de seis décadas no cinema e refletiu sobre criatividade, tecnologia e o futuro da experiência coletiva de assistir a filmes.

Spielberg começou lembrando que sua relação com as histórias nasceu ainda na infância. Fascinado por filmes de fantasia e ficção científica, ele desenvolveu desde cedo o hábito de imaginar além do que via na tela. Segundo o diretor, muitas das narrativas que criou ao longo da carreira têm origem nesse impulso de extrapolar a realidade e transformar medos, curiosidades e perguntas em histórias.
Ele contou que seus pais o levavam para assistir a filmes que nem sempre eram pensados para crianças. Em vez de evitar esses sentimentos, o jovem Spielberg aprendeu a transformá-los em matéria criativa. Projetar esses medos em histórias foi, segundo ele, um dos primeiros passos para se tornar um contador de histórias.
Ao falar de sua própria filmografia, o diretor destacou o papel emocional de E.T. – O Extraterrestre em sua vida. Segundo ele, o processo de criação do filme despertou sentimentos profundos sobre família e pertencimento, influenciando inclusive seu desejo de se tornar pai.
A conversa também abordou um dos temas recorrentes de sua obra: a possibilidade de vida extraterrestre. Spielberg comentou que, apesar de ter dirigido diversos filmes sobre o assunto, nunca teve uma experiência pessoal com fenômenos inexplicáveis. Ainda assim, admite que a pergunta continua aberta para ele.
“Não tenho informações conclusivas sobre a existência de OVNIs. Não sei mais do que qualquer outra pessoa. Mas tenho uma grande suspeita de que talvez não estejamos sozinhos nesse momento, inclusive, o novo filme é sobre isso”, brincou o diretor, lembrando que esse mistério continua sendo um terreno fértil para a imaginação e para novas histórias.
Parte da conversa também se voltou para as transformações tecnológicas que impactam a linguagem audiovisual. Spielberg observou que o ritmo de montagem de filmes, comerciais e conteúdos audiovisuais mudou significativamente nas últimas décadas. Segundo ele, cortes mais rápidos e narrativas aceleradas se tornaram comuns, influenciadas por novas plataformas e pela forma como o público consome conteúdo em ambientes digitais como redes sociais.
Mesmo diante dessas mudanças, o diretor destacou que a essência do cinema continua sendo a mesma: contar histórias que conectem pessoas.
Sobre seu processo criativo, Spielberg explicou que cada projeto exige uma abordagem diferente. Em muitos casos, o trabalho é cuidadosamente planejado, com uso intensivo de storyboards (esboços ou fotos organizados quadro a quadro para planejar filmes), efeitos visuais e preparação detalhada de cada cena. Em outros momentos, porém, a criação acontece de forma mais espontânea. Ele citou O Resgate do Soldado Ryan como exemplo de um filme em que grande parte das cenas foi filmada de maneira mais contínua, sem um planejamento rígido de cada movimento.
Independentemente do método, ele afirma que uma coisa permanece constante: a clareza sobre qual história deseja contar. Nesse processo, a colaboração também tem papel central. Para Spielberg, trabalhar com uma equipe confiável e alinhada com o projeto permite que as ideias fluam de maneira mais natural.
Mesmo após décadas de carreira, Spielberg afirma continuar motivado pelo mesmo impulso inicial: contar histórias. Ele diz não conseguir imaginar uma vida sem o cinema.
“Você morre um pouco toda vez que um filme acaba, porque você presenciou toda uma vida”, comentou. Ao mesmo tempo, defendeu a importância de explorar projetos diferentes, evitando repetir fórmulas ou depender apenas de sequências.
Ao final da conversa, Spielberg voltou sua atenção para a experiência coletiva do cinema. Para ele, uma sala cheia de pessoas desconhecidas assistindo a uma história ainda representa algo único.
“Estamos em um auditório cheio de pessoas que não se conhecem e que têm pensamentos diferentes. Uma boa história toca cada um de forma particular, mas quando ela é realmente boa, conecta todos ao mesmo tempo”, afirmou.
Segundo o diretor, é justamente essa capacidade de reunir pessoas em torno de uma narrativa compartilhada que mantém o cinema relevante.
“A verdadeira experiência acontece quando conseguimos reunir uma comunidade para assistir a um filme. Estranhos entram juntos em uma sala e saem conectados por uma mesma história. Precisamos manter isso vivo, sustentável e eterno.”

