Análise

Um estado, uma marca: nove marcas nordestinas que romperam as fronteiras do Brasil

Por Lucas Abreu

08/10/2026 09h54

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O Nordeste não é apenas um mercado consumidor relevante para grandes marcas nacionais. A região também é origem de empresas que cresceram a partir de operações locais e, ao longo das décadas, ganharam escala em diferentes partes do país. No Dia do Nordestino, o Nosso Meio reúne nove marcas que nasceram nos estados da região e transformaram suas raízes locais em negócios de alcance nacional.

A seleção reúne empresas de diferentes segmentos e momentos de trajetória. Algumas chegaram a outros mercados por meio de redes físicas; outras ampliaram sua presença pela distribuição, pela indústria ou pela construção de cadeias produtivas. Em comum, estão histórias que começaram no Nordeste e encontraram caminhos para crescer para além de seus mercados de origem.

Sococo (Alagoas)

A história da Sococo começou em 1966, em Maceió, quando a empresa entrou no mercado com a industrialização de coco ralado e leite de coco. A partir da matéria-prima, a marca passou a desenvolver outros derivados da fruta e encontrou no processamento industrial uma forma de transformar um produto regional em uma operação de maior escala.

A diversificação ganhou força com a entrada em novas categorias, como doces e água de coco. Em 1994, a água de coco da Sococo recebeu o prêmio Sial D’Or, em Paris, reconhecimento que ajudou a ampliar a distribuição internacional do produto. Ao longo da trajetória, a empresa também estruturou uma cadeia que combina produção agrícola, processamento e distribuição.

Atualmente, a Sococo mantém operações industriais em Alagoas e no Pará,  atuando com um portfólio que inclui coco ralado, leite de coco, água de coco e outros derivados. A companhia também trabalha com produção agrícola própria e mantém distribuição no Brasil e no exterior. Em 2025, a empresa informou administrar cerca de 1,5 milhão de coqueiros e empregar aproximadamente 5 mil pessoas em suas operações.

Le Biscuit (Bahia)

Em 1968, Aristóteles Martins Santana abriu um pequeno armarinho no centro de Feira de Santana. O negócio começou com itens como botões, zíperes, linhas e miçangas, atendendo às necessidades cotidianas da cidade. Décadas depois, aquela operação daria origem à Le Biscuit, que ampliaria o conceito de variedade para diferentes categorias do varejo.

O primeiro movimento mais consistente de expansão aconteceu em 1992, com a abertura de uma unidade em Salvador. A partir dos anos 2000, a rede acelerou a abertura de lojas e passou a avançar para outros estados. O negócio também ampliou o mix de produtos, aproximando-se do modelo de loja de departamentos e incorporando categorias como casa, organização, papelaria, brinquedos e produtos sazonais.

Atualmente, a Le Biscuit possui mais de 110 lojas distribuídas pelas regiões Nordeste, Norte e Sudeste, além de site, aplicativo, e-commerce e marketplace. A marca atende mais de 15 milhões de clientes por ano e integra o Grupo CVLB, que reúne também a Casa&Video. O grupo soma mais de 300 lojas físicas em 15 estados, dois centros de distribuição e mais de 5 mil colaboradores.

Pague Menos (Ceará)

A Pague Menos nasceu em Fortaleza, em 1981, criada pelo empresário Deusmar Queirós. A proposta inicial era levar medicamentos e produtos de saúde a preços mais acessíveis, modelo que ajudou a rede a crescer a partir do Ceará e posteriormente avançar para outros mercados brasileiros.

A expansão transformou a empresa em uma das maiores redes de farmácias do país. Ao longo das décadas, a companhia ampliou o portfólio para além da venda de medicamentos, incorporando serviços de saúde, produtos de higiene e beleza, marcas próprias e canais digitais. A aquisição da Extrafarma, concluída em 2022, também ampliou a presença geográfica da companhia.

No segundo trimestre de 2026, a Pague Menos chegou a 1.695 lojas, alta de 2,3% em 12 meses, e alcançou 22,6 milhões de clientes ativos. A rede registrou R$4,3 bilhões de receita bruta no trimestre e R$16,9 bilhões acumulados em 12 meses. As vendas digitais chegaram a R$1 bilhão, crescimento de 40,6% em relação ao mesmo período de 2025, enquanto a companhia reunia 28.534 funcionários e 1.180 consultórios farmacêuticos.

Demodê (Maranhão)

Criada em São Luís, a Demodê nasceu com uma proposta de aproximar moda, produção artesanal e matérias-primas nordestinas. A marca trabalha principalmente com algodão orgânico e técnicas manuais, incorporando elementos da cultura regional às criações de moda e construindo sua identidade a partir da relação com artesãs e produtoras.

A trajetória, no entanto, deixou de estar concentrada apenas na capital maranhense. Depois de sete anos em São Luís, a marca abriu uma loja em Atins e passou a participar de eventos em São Paulo e Milão. A expansão também levou a produção para outros estados, conectando a marca a novas redes de fornecimento e produção.

Em 2026, a Demodê mantém sua produção distribuída por cinco localidades: São Luís e Raposa, no Maranhão; Piracanga, na Bahia; e Mauá e Campinas, em São Paulo. A cadeia produtiva envolve cerca de 56 mulheres da Associação Bilro de Ouro, em Raposa, além de aproximadamente 30 crocheteiras e costureiras de São Luís.

São Braz (Paraíba)

A história da São Braz começou em 1951, quando José Carlos da Silva Júnior e seu pai constituíram a empresa José Carlos & Filho. O negócio, instalado na Paraíba, tinha inicialmente o café e o fubá de milho entre seus principais produtos e fazia as entregas em carrinhos azuis, uma imagem que ajudou a construir a identidade da marca.

A pequena operação se transformou em uma indústria de alimentos diversificada. Ao longo das décadas, a São Braz ampliou seu portfólio para cafés, cereais, snacks, misturas para bolos, farinhas e outros produtos, além de investir em novas estruturas industriais. A expansão chegou também ao Sudeste, com uma unidade em Itatiba, São Paulo, e mais recentemente à Bahia.

Hoje, a São Braz possui mais de 200 produtos distribuídos em 12 linhas industriais e está entre as maiores torrefações de café do país. A unidade de Cabedelo emprega mais de mil funcionários, enquanto a empresa mantém uma segunda fábrica em Itatiba e uma rede de 11 distribuidores. Em 2025, a companhia registrou lucro líquido de R$162,2 milhões, crescimento de 19% em relação ao ano anterior, e avançou na expansão industrial com a nova unidade na Bahia.

Baterias Moura (Pernambuco)

A Baterias Moura começou em 1957, em Belo Jardim, no Agreste de Pernambuco. O negócio foi criado por Edson Mororó Moura e Conceição Moura, inicialmente voltado ao segmento automotivo, em uma região distante dos principais centros industriais brasileiros. A produção de baterias seria o ponto de partida para uma empresa que posteriormente ampliaria sua atuação em soluções de armazenamento de energia.

Com o passar das décadas, a Moura diversificou suas aplicações para além dos automóveis, passando a atender motocicletas, barcos, empilhadeiras, sistemas de telecomunicações, trens, metrôs e outras operações que dependem de armazenamento de energia. A expansão também levou a companhia para fora do Brasil, transformando uma operação originalmente pernambucana em uma empresa de atuação internacional.

Mais de seis décadas depois da fundação, a Moura opera com sete plantas industriais, mais de 80 distribuidores e presença em mais de 20 países. A companhia comercializa mais de 10 milhões de baterias por ano e mantém operações voltadas a diferentes segmentos de armazenamento de energia. A escala internacional convive com a permanência de Belo Jardim como um dos principais pólos da operação.

Houston Bikes (Piauí)

A Houston começou sua trajetória no final dos anos 1990 e estabeleceu sua operação industrial em Teresina (PI). Em um mercado ainda concentrado em fabricantes de maior tradição, a empresa apostou na produção nacional de bicicletas para diferentes perfis de consumidores, incluindo modelos para lazer, transporte, aventura e uso infantil.

A escala veio acompanhada da ampliação da estrutura industrial. A fabricante passou a operar em um parque de 42 mil metros quadrados de área construída, que recebeu mais de R$60 milhões em investimentos em instalações, tecnologia e formação de colaboradores. Ao longo da trajetória, a empresa ultrapassou a marca de 10 milhões de bicicletas produzidas.

Em 2026, quando completa 25 anos, a Houston ainda mantém sua estrutura em Teresina e uma linha diversificada de bicicletas. Os produtos chegam a lojas de todo o Brasil, enquanto a marca amplia sua presença no varejo por meio de feiras e eventos em diferentes estados. A marca também mantém operações voltadas ao relacionamento direto com consumidores, conectando a fabricação piauiense ao mercado nacional.

Riachuelo (Rio Grande do Norte)

A história que levaria à Riachuelo começou em Natal, em 1947, quando Nevaldo e Newton Rocha abriram a loja de tecidos A Capital. A empresa posteriormente avançou para a confecção e, em 1956, a família formalizou a Guararapes, mantendo a matriz em Natal. Em 1979, o grupo adquiriu as cadeias Riachuelo e Wolens, entrando de forma mais definitiva no varejo de moda.

A partir daí, o negócio passou a operar de forma cada vez mais integrada, conectando indústria, varejo e serviços financeiros. A estratégia verticalizada permitiu à companhia controlar diferentes etapas da cadeia, da produção das peças à comercialização e ao relacionamento financeiro com o consumidor.

Em 2025, o Grupo Guararapes encerrou o ano com 445 lojas físicas, sendo 342 da Riachuelo, além de unidades das marcas Carter’s, Casa Riachuelo e FANLAB. A operação de lojas gerou R$10,5 bilhões em receita, enquanto o grupo mantinha mais de 33 mil colaboradores. A estrutura também inclui três centros de distribuição, em Guarulhos, Natal e Manaus, e capacidade para produzir cerca de 38 milhões de peças por ano.

Maratá (Sergipe)

A trajetória da Maratá começou em Sergipe há mais de cinco décadas, sob a liderança do empresário sergipano José Augusto Vieira. O grupo iniciou sua expansão a partir do mercado de alimentos e, ao longo do tempo, incorporou novas frentes de negócio, transformando uma operação regional em um conglomerado com atuação diversificada.

A empresa ampliou o portfólio para categorias como cafés, refrescos, chás, temperos, molhos, conservas e derivados de milho. Paralelamente, o grupo passou a atuar em agronegócio, embalagens plásticas, descartáveis, construção civil e exportação. Essa diversificação criou uma estrutura que combina marcas voltadas ao consumidor final com negócios industriais e de fornecimento.

Hoje, o Grupo Maratá mantém oito unidades industriais em Sergipe, além de estruturas em outros estados, e trabalha com um portfólio de cerca de 150 produtos. A empresa exporta para diferentes mercados internacionais e mantém distribuição da marca Maratá em todo o Brasil. Em uma operação que vai além dos alimentos, o grupo também atua com café, embalagens, descartáveis, agronegócio e construção, ampliando as fontes de receita construídas a partir da operação sergipana.