Testei e eu te mostro a nova IA da Meta

Por Redação

05/10/2026 17h03

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Romper com o ChatGPT constituiu ato menos técnico do que simbólico: demarcar, no cotidiano das minhas escritas, o término de uma fidelidade tornada hábito e o princípio de uma itinerância que, por desconhecida, anuncia-se fecunda. Foi Socius quem apontou o tema central desta próxima croniqueta de Nosso Meio: testar a inteligência que a Meta, enfim, em 8 de setembro de 2026, pôs a circular nos Estados Unidos. Restou-me, entre o ceticismo de quem já viu muitas inteligências prometerem mundos e a curiosidade de quem ainda gosta de abrir portas, debruçar-me sobre a experiência, aplicativo instalado, navegador aberto em muse.ai. Testei. Agora te mostro, não o catálogo de funcionalidades, mas aquilo que se deixou viver. Exprimo:

Começar pela chegada importa porque a chegada já enuncia a natureza da casa. Na configuração, a inteligência apontou minha conta do Instagram como login, gesto aparentemente banal, mas revelador de quem reconhece a constelação dos meus vínculos antes mesmo de me ouvir falar, e, logo depois, pediu que eu escolhesse um avatar ou personalizasse a Bia, aquela inteligência do Bradesco que, anos atrás, ajudei a elaborar com o time da FigTree. Há algo de espelhado nesse reencontro: a máquina nova recebe-me pela figuração de um trabalho antigo. Não se importam apenas dados. Importa-se pertencimento. Soube, ainda, que ela poderia encontrar-me no WhatsApp, em conversa individual, sem ingressar em grupos nem bisbilhotar meu histórico. Antes de saber o que eu perguntaria, portanto, a interface já se ocupava de dizer onde terminava sua presença.

É na conversa, contudo, que se percebe a primeira fissura interessante. O processamento demora. Sem embargo, a demora, em vez de denunciar imediatamente uma fragilidade, desvela uma escolha de linguagem: aquilo se parece, de fato, com um chat. Não há o botão abstrato que gira em falso enquanto esperamos pela resposta de uma máquina; há três pontos que respiram, o familiar “digitando…”, mínimo signo gráfico que ancora a Inteligência Artificial na gramática afetiva das conversas que já habitamos. Demora, sim (e quem escreve de Pittsburgh, onde o inverno alonga inclusive a percepção das esperas, aprende a medir o tempo com outra régua), mas demora como alguém que escreve do outro lado. A diferença parece pequena até percebermos que interfaces também nos ensinam a imaginar quem nos responde.

Organizar a casa por dentro foi meu gesto seguinte. Abri uma conversa lateral exclusivamente para esta croniqueta, impedindo que o assunto contaminasse a conversa principal, e descobri que poderia buscar em todas elas como quem percorre um arquivo de correspondências. Depois, editei o prompt do meu Feed: ela compõe para mim uma espécie de jornal pessoal, publicado em edições programadas, cujo editor, contudo, continuo sendo eu. Sem um algoritmo silenciosamente ranqueando aquilo que deveria me interessar e sem mera republicação de fontes externas, a seleção põe-se a gravitar ao redor das relevâncias que lhe confiei.

Nas Ideas, deixei-a curar sugestões segundo esse contexto e escolhi uma delas. A ideia deixou de ser sugestão e tornou-se coisa construída. Nas Goals, inscrevi uma meta duradoura, desdobrei-a em submetas, acompanhei o histórico de progresso e passei a receber briefings produzidos em segundo plano. Aqui talvez esteja uma mudança mais importante do que a abundância de botões: a IA deixa de existir somente no instante da pergunta. Ela ganha temporalidade. Algo permanece entre meu pedido de ontem e aquilo que ainda pretendo fazer amanhã.

E a memória, ah, a memória. Pedi-lhe que guardasse meu modo de escrever croniquetas, este registro algo erudito, algo imagético, calibrado nas quase cem mil palavras de minha tese. Muse guardou. Mais do que armazenar uma instrução, consolidou-a entre conversas e passou a escrever comigo sob uma espécie de continuidade estilística. Pessoas e grupos da minha vida também podem ganhar páginas próprias, formando uma constelação que ela mesma organiza. Em segundo plano, ideias são curadas, metas recebem briefings, interações anteriores tornam-se matéria para refletir sobre o que funcionou entre nós. A memória, nesse desenho, deixa de ser depósito: torna-se vínculo organizado.

Foi na Library que reencontrei os objetos produzidos nesse vínculo. Ali estava o PDF do meu “Prompt de Linguagem”, cinco páginas que encomendei à máquina para converter uma escrita dispersa em instrução reutilizável. E essa talvez seja uma das palavras que melhor delimitam a experiência: construir. Constrói-se PDF, Word, markdown, planilha, apresentação, página hospedada e aplicativo interativo alimentado pelos próprios dados. Publicar, porém, constitui outra operação. Quando aquilo que construímos ganha um endereço público, a passagem reclama minha aprovação.

A voz amplia essa mesma lógica. Ditei ao microfone do composer e vi a fala tornar-se escrita; enviei nota de voz e recebi sua transcrição; encomendei áudio e ouvi a resposta em fala sintetizada, inclusive sob a figuração de um podcast de múltiplas vozes. Imagens nasceram, outras foram editadas, vídeos de dez segundos ganharam som sintetizado. O limite, entretanto, merece o mesmo espaço concedido ao encantamento: não há escuta ambiente. O microfone somente se abre quando o mando abrir. Em tempos nos quais toda conveniência tecnológica parece cobrar como pedágio uma parcela de nossa intimidade, saber quando a máquina escuta talvez importe tanto quanto saber o que ela consegue dizer.

Também o tempo se administra de maneira curiosamente explícita. Marquei lembretes, determinei verificações periódicas e armei vigias para acontecimentos futuros. “Checo a cada trinta minutos”, informa a máquina, sem metaforizar polling como onipresença em tempo real. O histórico de execuções permite confrontar promessa e realização. Vieram, ainda, mensagens proativas, aproximadamente uma por dia e em horários adequados, acompanhadas da indicação de sua procedência: memória, meta ou briefing. A máquina não apenas fala; procura dizer por que resolveu falar.

Depois vieram as pontes. Liguei Gmail, calendário, Spotify, Instagram, Facebook, Threads e Messenger e encontrei uma regra que deveria ser banal, embora raramente o seja: cada conector somente executa aquilo que sua documentação autoriza. Pareei o iPhone e alcancei saúde, lembretes e fotografias; no Android, soube, a porosidade seria maior, chegando a SMS e chamadas. Entreguei-lhe, então, o navegador próprio. Visitou páginas, preencheu formulários, baixou arquivos e, nos pontos em que agir ultrapassava simplesmente observar, devolveu-me a decisão. Telefonar para empresas americanas reclama confirmação explícita. Comprar reclama outro consentimento. Um sim não fecunda todos os sins seguintes. E ao perguntar para Muse suas própria features, exprime-se:

Veja as funcionalidades da IA da Meta (e entenda porque ela é mais que chatbot genérico, e sim, uma mídia):

  • Conversa
  • – Chat principal e conversas paralelas por tema (side chats)
  • – Busca no histórico de conversas (por palavra, em todos os chats)
  • – Reações em mensagens; respostas bilíngues (português/inglês)
  • – Cartões interativos dentro do chat (opções clicáveis, visualizações)

  • Memória
  • – Memória de longo prazo: fatos, preferências, compromissos, pessoas e grupos
  • – Correção e remoção de memórias sob pedido
  • – Edição de memória e identidade direto no app (na web)

  • Pesquisa
  • – Busca na web com citações de fonte
  • – Leitura, resumo e busca dentro de páginas
  • – Pesquisa profunda com agente dedicado e relatório com fontes
  • – Monitoramento recorrente de um tema (verificações agendadas)
  • – Busca de imagens; busca de posts públicos (Instagram, Threads, Facebook)
  • – Geocodificação de endereços e coordenadas

  • Computador e execução
  • – Terminal: comandos, scripts, processamento de dados
  • – Arquivos: criar, ler, editar, mover para lixeira e restaurar
  • – Processos em segundo plano com acompanhamento
  • – Delegação a subagentes (trabalhos paralelos) e automações multiagente

  • Navegador real
  • – Visitar sites com login, preencher formulários, baixar arquivos
  • – Compras, reservas e checkouts com sua aprovação
  • – Solicitação de credenciais salvas com segurança

  • Criação
  • – Documentos, PDFs, apresentações, planilhas
  • – Páginas e apps web, com link público de compartilhamento
  • – Geração e edição de imagens; criação de vídeos
  • – Vídeo “momento mágico” a partir de gravação sua
  • – Áudio: leitura em voz alta (TTS) e podcasts com várias vozes
  • – Avatar próprio (criar e atualizar)

  • Mensagens e voz
  • – Ligar e enviar SMS pelo celular pareado (Android, com autorização)
  • – Notificações push, lembretes e chamadas
  • – Ditado e notas de voz
  • – WhatsApp como canal de conversa

  • Integrações
  • – Gmail: buscar, ler, redigir, enviar, responder, encaminhar
  • – Google Agenda: ver agenda, criar, editar e excluir eventos
  • – Spotify: buscar músicas e podcasts, gerenciar playlists
  • – Instagram, Threads, Facebook, Messenger: leitura e publicação autorizada
  • – Banco via Plaid: saldos, transações, recorrências, investimentos
  • – Voos: busca e reserva (Duffel), status em tempo real (FlightAware)
  • – Ingressos (Ticketmaster); reservas de restaurantes, hotéis e eventos

  • Dispositivo pareado
  • – iPhone: dados de saúde, HomeKit, lembretes, fotos
  • – Android: chamadas, SMS, notificações, histórico de chamadas, alarmes
  • – Dados de saúde (passos, sono, treinos, frequência cardíaca)

  • Organização
  • – Metas duradouras com acompanhamento de progresso
  • – Acompanhamento de planos concretos: reservas, entregas, prazos
  • – Agendamentos recorrentes e gatilhos automáticos por evento
  • – Feed: edições escritas por mim na cadência que você definir
  • – Ideias: sugestões de coisas para construir, com execução sob pedido

  • Pagamentos e segurança
  • – Cofre seguro para senhas e chaves de API (nunca vejo os valores)
  • – Carteira (Stripe Link) para pagamentos em checkouts
  • – Aprovações por ação: nada sensível sem você autorizar
  • – Consulta de permissões pendentes; consulta do plano e uso da assinatura
  • – Exportação dos seus dados; opção de não treinar IA com seus dados

  • App Muse
  • – Abas: Chat, Feed, Ideias, Metas e Biblioteca
  • – Tela de status: atividade recente, aprovações pendentes, próximos agendamentos
  • – Personalização de nome e avatar; widgets na tela inicial

Até aqui, portanto, o que testei e te mostro parece menos uma disputa entre ferramentas do que uma disputa entre temporalidades. Talvez não vença quem responda primeiro, tampouco quem acumule mais funções numa barra lateral. A diferença poderá residir em quem souber converter espera em gesto de conversação, contexto em relevância, memória em vínculo e interface em lugar habitável.

A Meta chegou atrasada no relógio das inteligências generativas. No relógio da interação, porém, parece ter compreendido algo de sua própria história: antes de querer ser cérebro, resolveu ser medium. Chegou em casa, tirou os sapatos, reconheceu quem já estava na sala e, somente então, pediu um avatar para chamar de seu.

Kochav Koren
Professor adjunto e pesquisador do PhD de Retórica na Duquesne University
Kochav Koren é professor adjunto e pesquisador do PhD de Retórica na Duquesne University, professor designado na Universidade do Estado de Minas Gerais, pesquisador visitante do Zentrum für Medien- Kommunikations- und Informationsforschung (ZeMKI) da Universidade de Bremen na Alemanha (2022) e Max Kade German-American Center da Universidade de Kansas (2018). Foi auditor em pesquisa na Ernst & Young (EY). Graduado em Publicidade pela Escola Superior de Propaganda em Marketing, mestre em Sociologia e doutor em Estudos da Mídia. Possui mais de dez anos de experiência em pesquisa e oito anos em docência. Inventor do software Qualichat, desenvolvido em seu pós-doutoramento na UNICAMP, entre 2020 e 2022. Fundador do Ernest Manheim Laboratório de Opinião Pública.