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A experiência social do futebol na era do streaming e das comunidades digitais

Por Redação

13/08/2026 10h14

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Por José Lucas Silva, fundador e CEO da IMO Insights

Durante décadas, o futebol brasileiro teve endereço certo. Era o estádio, o radinho de pilha, a televisão da sala ou o bar da esquina. Nesta época, a experiência coletiva dependia da presença física e o templo do futebol era feito de concreto. Hoje, ele cabe na palma da mão e essa transformação foi mapeada no estudo “Eu Vi o Brasil: O País do Futebol?”, ao mostrar que a paixão continua exatamente onde sempre esteve, nas pessoas. O que mudou foi o espaço onde elas se encontram.

O estádio não desapareceu, muito menos a televisão também, porém ambos deixaram de ser o centro da experiência. O novo templo do futebol acontece simultaneamente no streaming, nos grupos de WhatsApp, nas lives, nos chats, nas redes sociais e nas transmissões alternativas. A partida continua sendo o motivo da reunião, mas a conversa virou parte inseparável do espetáculo e talvez seja justamente aí que muita gente esteja interpretando errado a transformação do futebol.

Existe uma narrativa recorrente de que o streaming fragmentou a audiência e esfriou o interesse do público. Os dados sugerem outra leitura, a audiência pode até estar distribuída entre diferentes plataformas, mas o engajamento nunca foi tão intenso. O torcedor deixou de ser apenas espectador para assumir também o papel de comentarista, editor, produtor de memes e criador de conteúdo. Hoje, assistir é apenas uma parte da experiência.

Isso acontece em um contexto social importante. Nunca estivemos tão conectados tecnologicamente e, ao mesmo tempo, tão carentes de experiências coletivas genuínas. É justamente por isso que as comunidades digitais ganharam um papel que vai muito além do entretenimento e se tornaram espaços de pertencimento. Não por acaso, o Brasil segue entre os países que mais passam tempo nas redes sociais do mundo. 

E o futebol encontrou nesse ecossistema um terreno fértil e o torcedor moderno não aceita mais consumir uma transmissão de forma passiva. Ele escolhe qual narrador ouvir, acompanha estatísticas em outra tela, comenta cada lance em tempo real, compartilha vídeos segundos após o gol e, muitas vezes, participa mais da conversa do que da própria transmissão.

  A experiência deixou de ser linear e se tornou simultânea, personalizada e coletiva ao mesmo tempo. Essa mudança representa um desafio enorme para empresas de mídia, patrocinadores e detentores de direitos esportivos. Durante décadas, o modelo era relativamente simples: poucos canais distribuíam conteúdo para milhões de pessoas. Hoje, o fluxo é inverso. São milhões de pessoas produzindo conversas que redefinem, ampliam e até contestam a narrativa oficial da transmissão e isso exige algo que muitos negócios ainda resistem em fazer: abrir mão do controle.

O novo templo do futebol não possui bilheteria, catracas ou horário de funcionamento. Também não aceita que apenas um emissor determine como a experiência deve acontecer. É um ambiente distribuído, imprevisível e permanentemente conectado. Quem insiste em medir apenas audiência corre o risco de ignorar o que realmente gera valor, a capacidade de mobilizar comunidades.

O futebol continua sendo um dos maiores fenômenos culturais do Brasil, mas seu principal ativo já não é apenas o jogo, é a conversa que acontece antes, durante e depois dele. No fim das contas, o campo continua com as mesmas dimensões. O que mudou foi a arquibancada. Ela deixou de ocupar um estádio para ocupar toda a internet.