A trajetória de Casimiro Miguel, a estratégia por trás da LiveMode e a mudança no jeito de consumir futebol mostram uma nova disputa pela audiência esportiva
Antes de se tornar um dos maiores fenômenos da mídia esportiva digital brasileira, Casimiro Miguel construiu sua audiência em um ambiente onde a relação entre criador e público era mais próxima. O jornalista, que começou sua trajetória como estagiário no Esporte Interativo, passou a ganhar destaque ao levar para a internet uma forma diferente de conversar sobre futebol, misturando análise, humor e interação com os torcedores.
Durante a pandemia, esse movimento ganhou ainda mais força. Com os consumidores mais presentes nas plataformas digitais, as transmissões e conteúdos de Casimiro começaram a alcançar um público que já acompanhava futebol pelas redes sociais, compartilhava cortes, comentava trechos das lives e transformava momentos das transmissões em novos conteúdos no Twitter, Instagram, TikTok e outras plataformas.
O crescimento mostrou uma mudança importante no comportamento da audiência: existia uma geração de torcedores que não queria apenas acompanhar o jogo, mas também fazer parte da conversa em torno dele. A partida passou a ser acompanhada pelos comentários, pelas reações e pela comunidade formada ao redor de quem transmitia.
Foi nesse cenário que a LiveMode enxergou uma oportunidade. Fundada por Edgar Diniz e Sérgio Lopes, executivos que também estiveram à frente do Esporte Interativo, a empresa já carregava uma trajetória ligada à inovação no mercado esportivo. Antes da CazéTV, a companhia atuava principalmente na construção de negócios envolvendo direitos de transmissão, conteúdo e novas formas de distribuição.
A aproximação entre a experiência da LiveMode no mercado esportivo e a audiência construída por Casimiro deu origem a um modelo que unia duas frentes que até então caminhavam separadas: a negociação dos direitos esportivos e a criação de uma comunidade digital em torno dessas transmissões.

Um dos primeiros testes dessa estratégia aconteceu em 2020, quando a LiveMode viabilizou a transmissão de Athletico Paranaense x Vasco pelo Campeonato Brasileiro em um formato digital com participação de Casimiro. A experiência ajudou a mostrar que havia espaço para uma nova maneira de acompanhar futebol, mais conectada ao comportamento das plataformas online.
O projeto ganhou escala com a Copa do Mundo de 2022. Naquele momento, a LiveMode atuava como representante da FIFA no Brasil e passou a negociar os direitos digitais do torneio. Com a mudança no mercado de streaming esportivo, a empresa adquiriu um pacote de transmissões e encontrou na CazéTV o caminho para transformar esse conteúdo em uma nova experiência para o público.
A estreia do canal no Mundial marcou uma virada para a mídia esportiva. A CazéTV não buscou reproduzir o modelo tradicional de televisão dentro do YouTube. A proposta era outra: aproximar a transmissão da linguagem da internet, com comentários mais informais, interação em tempo real, participação do público e uma atmosfera mais próxima de assistir ao jogo junto com amigos.
O sucesso da operação mostrou que a disputa por audiência esportiva estava mudando. O diferencial não era apenas ter acesso ao conteúdo, mas criar um ambiente capaz de manter o público conectado antes, durante e depois da partida.
Essa transformação acompanha uma mudança maior no consumo de esportes. Segundo dados da Kantar, apesar da televisão aberta ainda liderar a audiência esportiva no Brasil, os torcedores passaram a dividir sua atenção entre diferentes formatos, como TV por assinatura, streaming e redes sociais. A experiência de assistir futebol deixou de estar concentrada em uma única tela.
A LiveMode se posicionou justamente nesse novo cenário. A empresa passou a operar em uma lógica mais integrada, unindo negociação de direitos, produção de conteúdo e distribuição digital. Diferentemente do modelo tradicional, em que cada etapa costumava ficar sob responsabilidade de empresas diferentes, a companhia passou a controlar diferentes partes da cadeia.
Em novembro de 2026, a LiveMode assumiu 100% da operação da CazéTV. Casimiro deixou de ser sócio direto do canal, mas passou a integrar a estrutura da holding internacional da empresa, mantendo sua participação no grupo responsável pelo desenvolvimento dos negócios da companhia.
O movimento consolidou a CazéTV como mais do que um canal de transmissão. A plataforma passou a funcionar como uma comunidade, em que o torcedor acompanha não apenas o jogo, mas também bastidores, reações, conteúdos exclusivos e conversas que continuam depois do apito final.

Para a Copa do Mundo de 2026, a operação chegou a uma nova dimensão. A CazéTV se tornou a única plataforma brasileira com os direitos de transmissão dos 104 jogos do Mundial, estruturando uma cobertura com equipes presenciais nas cidades-sede, narradores, comentaristas, apresentadores e criadores de conteúdo.
A estratégia também ganhou uma extensão física com a criação da Casa CazéTV, espaço pensado para receber marcas, fãs e criadores durante o torneio. A proposta reforça uma característica que ajudou a construir o sucesso da plataforma: transformar audiência em participação.
Os números refletem esse crescimento. As dez maiores lives da história do YouTube pertencem à CazéTV, e a transmissão de Brasil x Japão pela Copa de 2026 alcançou 21 milhões de aparelhos conectados simultaneamente, renovando o recorde mundial da plataforma.

Imagem: CazeTV
Mais do que uma nova forma de transmitir futebol, a trajetória da CazéTV representa uma mudança na própria lógica da mídia esportiva. A LiveMode mostrou que, no cenário atual, disputar atenção não depende apenas de possuir os direitos de um evento, mas de construir uma experiência capaz de transformar espectadores em comunidade.
