Pesquisa nacional da Aerah House mostra que o brasileiro passou a administrar cada etapa do consumo, ajustando não apenas o quanto compra, mas também onde, quando, como e de quem compra
Durante décadas, a capacidade de consumo do brasileiro esteve diretamente associada ao poder de compra. Em períodos de maior renda, o consumo aumentava; em momentos de restrição financeira, diminuía. Uma pesquisa nacional realizada pelo Instituto de Pesquisa Aerah House, no entanto, indica que essa lógica já não explica sozinha o comportamento do consumidor.
O levantamento O Brasil de Agora, realizado com 2.000 brasileiros de todas as regiões do país, identificou um novo padrão de consumo, batizado de “Consumo em Modo Gestão”. O conceito descreve um consumidor que, mais do que simplesmente reduzir gastos, passou a reorganizar continuamente a forma de consumir, avaliando fatores como promoções, canais de compra, marcas, quantidade de produtos, momento da aquisição e formas de pagamento antes de tomar uma decisão.
Segundo a pesquisa, apenas 9% dos brasileiros afirmam ter segurança financeira suficiente para planejar a vida com tranquilidade. Outros 25% conseguem manter as contas em dia e fazer algum planejamento, enquanto 32% mantêm o orçamento sob controle, mas convivem com preocupação constante. Já 20% enfrentam dificuldades frequentes para pagar as despesas e 12% conseguem apenas cobrir os gastos básicos, sem margem para qualquer planejamento.
Esse cenário se reflete diretamente nas escolhas de consumo. Nos últimos três meses, 41% dos entrevistados reduziram a quantidade ou a frequência das compras, 33% passaram a aproveitar mais promoções, 26% adiaram aquisições de maior valor, 21% trocaram marcas por opções mais econômicas e 8% mudaram de loja, canal ou forma de pagamento para economizar.
Os dados mostram que o consumidor brasileiro passou a administrar diferentes dimensões da compra. O ajuste deixou de acontecer apenas na quantidade consumida e passou a envolver uma análise mais ampla sobre como, onde e quando consumir.
Para Fernanda Faria, sócia-fundadora do Instituto de Pesquisa Aerah House, a principal transformação observada não está na redução do consumo em si, mas na mudança da lógica por trás das decisões. “Consumir passou a exigir uma gestão muito mais ativa. Hoje uma compra envolve comparar canais, esperar uma promoção, ajustar quantidades, avaliar marcas e decidir se aquele é realmente o melhor momento para comprar. O consumidor continua comprando, mas a lógica da decisão mudou. Comprar deixou de ser um ato quase automático para se tornar uma sequência de escolhas.”
Prioridades passaram a disputar espaço no orçamento
O estudo também aponta uma mudança importante para empresas e marcas. Se antes a concorrência acontecia principalmente entre produtos semelhantes, agora cada compra disputa espaço dentro do orçamento e das prioridades do consumidor.
Na prática, uma categoria de produtos pode ser mantida, reduzida, adiada ou substituída dependendo do contexto financeiro e das necessidades daquele momento. Isso faz com que as empresas precisem demonstrar de forma mais clara o valor que oferecem ao consumidor.
“Durante muito tempo, entender o consumidor era entender sua renda. Hoje é entender como ele estabelece prioridades. O consumo entrou em modo gestão, e isso muda a forma como as marcas precisam construir valor, comunicar ofertas e disputar relevância“, afirma Fernanda.
Na avaliação da pesquisadora, trata-se de uma mudança estrutural no comportamento do consumidor, que tende a permanecer mesmo diante de cenários econômicos mais favoráveis. Mais do que uma resposta momentânea às restrições financeiras, o levantamento aponta que os brasileiros incorporaram uma postura mais estratégica diante das compras, transformando o consumo em um processo contínuo de gestão e priorização.
