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De pet a membro da família: como os animais estão transformando a estratégia das marcas

Por Redação

05/08/2026 14h45

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Com um mercado pet que movimenta bilhões no Brasil, cães e gatos deixaram de ser apenas consumidores de produtos especializados e passaram a influenciar decisões de empresas de segmentos diversos

Durante décadas, a imagem tradicional de família esteve associada a pais, filhos e uma rotina doméstica construída em torno de pessoas. Nos últimos anos, porém, um novo personagem passou a ocupar espaço central nessa narrativa: o animal de estimação.

Cães e gatos passaram a assumir um papel cada vez mais próximo ao de filhos dentro de muitos lares brasileiros. Esse movimento criou novas demandas de consumo, como planos de saúde, alimentação premium, roupas, festas de aniversário, creches, hotéis, serviços de entretenimento e produtos de bem-estar.

Segundo dados do Instituto Pet Brasil (IPB), o mercado pet brasileiro movimenta dezenas de bilhões de reais anualmente e se consolidou como um dos maiores do mundo. A projeção para 2025 apontava faturamento superior a R$ 77 bilhões, considerando produtos, serviços e comércio especializado.

Porém, o impacto dessa transformação vai além das empresas dedicadas exclusivamente ao setor. Os pets passaram a ocupar um espaço estratégico na comunicação de marcas que, até pouco tempo atrás, sequer tinham relação direta com esse universo.

A ascensão da família multiespécie

Com novas configurações familiares, muitos consumidores passaram a incorporar os animais como integrantes efetivos da rotina doméstica. A expressão “família multiespécie” ganhou força justamente para definir lares em que humanos e animais compartilham vínculos afetivos e decisões de consumo.

Esse comportamento alterou a forma como marcas enxergam esse público. O chamado “pai de pet” deixou de ser um consumidor de produtos veterinários e passou a representar uma oportunidade para diferentes categorias. Afinal, a relação emocional criada com os animais influencia desde escolhas simples, como alimentação, até decisões maiores, como compra de imóveis, viagens e veículos.

O fator emocional virou estratégia de atenção

Em um ambiente digital marcado pela disputa constante por atenção, os pets geram conexão imediata, e isso é uma vantagem competitiva. Segundo levantamento da Buzzmonitor, conteúdos com animais de estimação apresentam aumento de aproximadamente 16% no engajamento nas redes sociais.

Isso acontece porque os animais ativam emoções rapidamente, aumentam a retenção do público e estimulam comportamentos como curtidas, comentários e compartilhamentos, algo bem conhecido pelos profissionais de marketing. Mas o uso dos pets pelas marcas não acontece só pela fofura, mas por uma mudança cultural. Quando uma empresa coloca um animal em uma campanha, ela está dialogando com uma nova percepção de família, cuidado e pertencimento.

Marcas começam a criar produtos para uma família que inclui pets

O movimento já aparece em diferentes segmentos. O Grupo Boticário, tradicionalmente associado à perfumaria e cuidados pessoais, expandiu sua atuação para o universo pet com produtos voltados ao cuidado e bem-estar de cães e gatos, levando sua expertise em fragrâncias para uma categoria que cresce junto com essa nova relação entre consumidores e animais.

A Stanley, conhecida por seus produtos térmicos, lançou o Pet Bowl, uma tigela desenvolvida com materiais semelhantes aos utilizados em seus produtos tradicionais, com foco em manter a água dos animais em temperatura adequada. No mercado de luxo, a Rimowa ampliou seu portfólio com a Pet Carrier, bolsa de transporte para animais de pequeno porte que segue a identidade de design da marca.

Até empresas de alimentação e entretenimento começaram a explorar essa conexão. O McDonald’s lançou em Singapura a Happy Meow Bag, uma embalagem transformada em brinquedo para gatos inspirada nos tradicionais elementos visuais da rede. Isso segue a lógica de que, quando o pet passa a fazer parte da experiência familiar, ele também passa a fazer parte da experiência de marca.

O carro da família agora também precisa transportar o cachorro

Durante anos, campanhas de SUVs foram construídas com uma narrativa bastante conhecida, com famílias viajando, crianças no banco traseiro e espaço para malas. Hoje, essa representação começa a mudar e o animal de estimação passou a ocupar esse imaginário.

No ano passado, a Chevrolet utilizou um vira-lata caramelo como protagonista de uma campanha do Tracker, aproveitando também o interesse gerado pelo filme Caramelo, da Netflix, para ampliar a conversa nas redes sociais. Mais recentemente, a Peugeot apresentou o E-5008 Dog Edition, versão criada com acessórios e funcionalidades voltadas ao transporte e conforto dos animais.

O movimento mostra que a indústria automobilística começou a interpretar os pets não apenas como passageiros, mas como parte da decisão de compra.

De público-alvo a influenciadores de marca

Essa transformação também altera a maneira como empresas pensam seus consumidores. Os pets não compram produtos, mas influenciam decisões. Eles determinam escolhas de alimentos, destinos de viagem, tipos de residência e até modelos de veículos. Em muitos casos, são protagonistas de comunidades digitais altamente engajadas.

Por isso, marcas passaram a tratá-los como elementos estratégicos de comunicação. Alguns aparecem como protagonistas de campanhas, outros são associados a causas relacionadas ao bem-estar animal. Há ainda aqueles que funcionam como símbolos emocionais capazes de aproximar empresas de consumidores.

A próxima fronteira do branding é multiespécie

O crescimento do mercado pet criou uma indústria própria. Agora, o comportamento que impulsionou esse setor começa a transformar marcas de outras categorias. A presença dos animais em campanhas de beleza, automóveis, alimentos, varejo e luxo revela uma mudança mais profunda: a definição de família está sendo ampliada e as marcas precisam acompanhar essa transformação.

No passado, empresas precisavam entender onde as pessoas moravam, o que consumiam e quais eram seus hábitos. Hoje, uma nova pergunta entrou no planejamento estratégico: quem mais faz parte dessa família? Para uma parcela crescente dos consumidores, a resposta inclui quatro patas e nenhuma marca que disputa atenção pode ignorar isso.