Autor brasileiro ficou conhecido pelas obras que retratavam o interior brasileiro, com personagens carismáticos, de caráter forte e esperança de um amanhã melhor
Faleceu na manhã desta terça-feira (7), em São Paulo, o escritor, dramaturgo, jornalista e publicitário Benedito Ruy Barbosa, aos 95 anos. A informação foi confirmada pelo Hospital do Coração (HCor), onde o autor estava internado. Segundo o boletim médico, a morte foi causada por complicações de insuficiência renal crônica, doença que Benedito enfrentava há três anos e que, em janeiro deste ano, já o havia internado por um período de quase vinte dias no HCor.
O corpo será velado ainda neste terça-feira, das 15h às 21h, no Funeral Home, na Bela Vista, Centro de SP. A cerimônia será aberta ao público entre as 15h e as 16h.
Filho mais velho de Otávio Barbosa e Aurora Medeiros Barbosa, Benedito nasceu no dia 17 de abril de 1931, na cidade de Gália, em São Paulo. Sua infância foi em Vera Cruz, cidade vizinha, habitada por imigrantes japoneses e italianos que trabalhavam nos cafezais da região. Com a morte precoce do pai, quando tinha onze anos, Benedito precisou trabalhar para ajudar a mãe no sustento da família.
Durante a juventudade, trabalhou em diferentes profissões, de auxiliar de escritório a vendedor de verduras, bancário, revisor e repórter esportivo no jornal Estado de São Paulo. Na época de jornalista, acompanhou os primeiros anos da carreira de Pelé, sendo um dos responsáveis pela primeira biografia do jogador, intitulada de “Eu sou Pelé”.

A paixão pela escrita fez Benedito também escrever ficção. Benedito publicou o romance “Fogo Frio”, que foi adaptado para o palco do Teatro Arena, em 1959, sob a direção de Augusto Boal. A peça foi sucesso de público e de crítica, sendo premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Com isso, na década de 1960, Benedito iniciou o seu caminho nas radionovelas e posteriormente na teledramaturgia.
Sua estreia na televisão ocorreu em 1966, com a estreia de “Somos Todos Irmãos”, na TV Tupi, onde também viria a escrever as obras “O Anjo e o Vagabundo”, “Meu Filho, Minha Vida”, “O Décimo Mandamento” e “Simplesmente Maria”. Na mesma década, escreveu “O Morro dos Ventos Uivantes” e “O Tempo e o Vento” para a TV Excelsior, e “A Última Testemunha” e “Algemas de Ouro” para a Record.

Na década de 1970, iniciou a sua trajetória na Globo com “Meu Pedacinho de Chão”, marcando o horário das 18h junto de outras obras como “O Feijão e o Sonho”, “À Sombra dos Laranjais”, “Cabocla”, “Paraíso”, “Voltei para Você”, “Sinhá Moça” e “Vida Nova”. Benedito também foi o principal autor da primeira versão do “Sítio do Pica-Paulo Amarelo” produzida pela emissora, escrevendo mais de duzentos capítulos entre os anos de 1977 e 1980.
Em um país que se urbanizava mais com o passar dos anos, Benedito Ruy Barbosa ia na contramão com as suas obras, concentrando as narrativas nos interiores do Brasil. Antes de iniciar um projeto, costumava viajar para as regiões que serviam de cenário para as suas histórias, buscando referências regionais de sotaques, costumes e personagens reais que serviriam como base para os seus personagens fictícios, movidos por uma moral inabalável e pela crença de um amanhã melhor e mais esperançoso. Apesar da nobreza de valores, seus protagonistas eram pessoas simples, como peões, boias-frias, agricultores e imigrantes do começo do século XX.
Na década de 1990, Benedito Ruy Barbosa consolidou sua assinatura narrativa. As tramas, desenvolvidas em formato de saga, acompanhavam conflitos entre famílias, explorando suas origens num passado não muito distantes e as consequências dramáticas que elevavam as tensões no presente. Escrita para a extinta Rede Manchete, a primeira versão de “Pantanal” foi a primeira obra neste formato, elevando a audiência da emissora diariamente até alcançar o primeiro lugar do Ibope.
A novela também foi a responsável por elevar o padrão estético da teledramaturgia, com o uso de locações externas que exploravam os biomas nacionais de maneira cinematográfica, aproximando ainda mais as linguagens estéticas utilizadas no cinema para o formato televiso em obras posteriores como “Renascer”, “O Rei do Gado”, “Terra Nostra” e “Velho Chico”.
Nas décadas de 2000 e 2010, Benedito Ruy Barbosa revisitou suas obras clássicas, participando ativamente da autoria dos remakes de “Cabocla”, “Sinhá Moça”, “Paraíso” e “Meu Pedacinho de Chão”, na conhecida faixa das 18h. As atualizações se mantiveram fiéis ao esqueleto narrativo das versões originais, mas com novas propostas de ritmo e resoluções de conflitos para dialogar com o público noveleiro da época em que foram exibidos. O formato foi mantido com os remakes de “Pantanal” e “Renascer”, escritos por Bruno Luperi, neto do autor.
A partida de Benedito Ruy Barbosa deixa uma lacuna imensurável, mas seu legado como o grande cronista do Brasil rural permanece vivo na galeria de personagens imortais que moldaram o imaginário nacional. Mais do que contar histórias, ele transformou a lida do campo em poesia e deu rosto às nossas raízes através da pureza de Zuca, da coragem abolicionista de Sinhá Moça e da força selvagem e mística de Juma Marruá. Seu domínio sobre os épicos familiares e históricos nos presenteou com patriarcas icônicos, como José Inocêncio aos pés do jequitibá-rei e o imponente Bruno Mezenga, além de capturar a epopeia da imigração italiana pelo amor sofrido de Matteo e Giuliana.
Ao se despedir, o mestre da nossa teledramaturgia deixa plantadas raízes profundas sobre a nossa identidade, provando na prática aquilo em que sempre acreditou: “Antes de mais nada, uma novela precisa ter uma grande história de amor”.
