Por Ruy Dantas, Presidente da ABAP Paraíba e CEO do Ilha Tech
Se fosse um país, o Nordeste teria 57,4 milhões de habitantes, mais gente que a Espanha. Seus nove estados ocupam 151 das 513 cadeiras da Câmara dos Deputados. E quem ainda imagina uma economia estagnada deveria olhar os números: segundo o Banco do Nordeste, a atividade regional cresceu 2,5% nos 12 meses até julho de 2026, contra 1,5% do Brasil.
Mesmo assim, ainda há quem enxergue o Nordeste pelas lentes do cinema e da televisão. Seca, pobreza, folclore. Não que essa realidade tenha desaparecido. O problema é imaginar que ela resume uma região inteira. Aliás, de qual Nordeste estamos falando?
O Recôncavo baiano é muito diferente de Imperatriz, no interior do Maranhão. O Matopiba, que atravessa quatro estados, produz e exporta grãos em escala impressionante. Parece outro Brasil, e é.
Engana-se quem pensa que o Ceará se resume a Fortaleza, Pernambuco a Recife ou que Salvador representa toda a diversidade de seu estado. Basta olhar para Petrolina, no sertão pernambucano, onde a fruticultura irrigada e a produção de vinhos desafiam a imagem tradicional do semiárido. São economias distintas. Pessoas com hábitos, referências, renda e aspirações diferentes. E isso muda tudo para quem pretende vender, comunicar ou construir uma marca.
As grandes empresas começam a perceber essa transformação. Mas algumas ainda chegam ao Nordeste com campanhas concebidas em São Paulo, trocam o sotaque, acrescentam uma expressão regional e acreditam ter resolvido o problema. Não resolveram.
É justamente aí que vejo uma oportunidade extraordinária para as agências regionais. O conhecimento do território, quando combinado com dados, pesquisa e inteligência artificial, pode se transformar em soluções de mercado mais inteligentes. E em negócios maiores. Mas precisamos ir além da execução local. Conhecer a região não basta. É preciso transformar esse conhecimento em estratégia, inovação e resultados mensuráveis.
Talvez a próxima grande inovação da publicidade brasileira não esteja em uma nova ferramenta tecnológica, mas na capacidade de compreender mercados que insistimos em tratar como iguais. O Nordeste não precisa caber no planejamento nacional. É o planejamento nacional que precisa aprender a enxergar os muitos Nordestes.
