20ª edição

Nosso Café com Mkt | Saber e sentir, o ser humano no centro da percepção de valor

Por Redação

27/10/2026 11h20

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As pessoas são o princípio e o fim de toda a jornada econômica e comercial

“Nada sem alma perdura”, já tinha escrito isto em outro texto. E, para mim, ainda vale como premissa básica do que acredito como construção de valor real. 

Em um mundo onde a tecnologia e a inteligência artificial geram conteúdo ilimitado em instantes, e onde a enxurrada de informações e estímulos diários roubam nosso tempo e nos impõe à superficialidade, a atenção verdadeira converteu-se no bem mais escasso do mundo. E tudo o que é escasso tem maior valor.

Mas afinal, o que é real? Seria apenas aquilo que tocamos, cheiramos, provamos, vemos e ouvimos, ou uma simples ideia também pode ser real?

Como observa o historiador Yuval Noah Harari, não vivemos apenas em realidades concretas; habitamos, sobretudo, realidades imaginadas. Fronteiras geográficas, dinheiro, casamento e instituições religiosas são exemplos de conceitos criados e compartilhados que moldam o mundo, existem e funcionam porque escolhemos acreditar neles. O que a mente constrói torna-se real; sentimos aquilo que pensamos.

As percepções, as memórias, as emoções e a consciência desenham a arquitetura da nossa realidade. Dados e inputs informacionais estão apenas no início do processo, mas só ganham relevância genuína quando atravessados pelas emoções e sentimentos. Portanto, saber não basta, é preciso sentir. É precisamente essa capacidade que nos torna únicos e especiais diante de qualquer IA ou avanço tecnológico.

Nossa estrutura de inteligência não se limita a trabalhar dados absorvidos apenas de forma consciente, ela processa sobretudo emoções e estímulos de forma inconsciente e involuntária. Não somos seres puramente racionais, o que significa que não usamos somente a razão em nossas escolhas e decisões e é desta aparente fragilidade que imaginamos e criamos o mundo. 

Como bem disse o prêmio Nobel Daniel Kahneman, ao expor a dualidade entre o nosso Sistema 1 (rápido, intuitivo e emocional) e o nosso Sistema 2 (lento, deliberativo e analítico), visão, audição, tato, olfato, paladar, propriocepção e interocepção funcionam apenas como as portas de entrada dos sentidos. É no cérebro que a mágica efetivamente ocorre: repertório, emoção e consciência se fundem. Nós literalmente sentimos o mundo e, a partir desse sentir, articulamos o nosso pensar. A vivência prática evidencia essa distinção com clareza:

  • Curtir um show ao vivo em vez de assisti-lo pela tela da televisão;
  • Ter um encontro presencial com quem gostamos em vez de bater papo pelas redes sociais;
  • Experimentar uma roupa na loja física em vez de apenas clicar no e-commerce;
  • Vivenciar a atmosfera de um restaurante em vez de pedir comida no delivery.

Em todas essas situações, a assimilação da realidade é exponencialmente amplificada pela presença física. Nossa inteligência é integrada: compreendemos o mundo com o corpo inteiro, e não apenas por meio de um ou dois canais sensoriais isolados.

A tecnologia é indiscutivelmente fundamental, e a inteligência artificial consolida-se como uma ferramenta extraordinária para compilar dados, sintetizar relatórios e otimizar processos. Contudo, a tecnologia é incapaz de sentir e de contextualizar. A presença e o sentir permanecem como os únicos vetores capazes de transformar decisões, negócios e relacionamentos em experiências verdadeiramente extraordinárias.

Declaro-me entusiasta e adepto da tecnologia, mas reconheço que a presença e o contato com a realidade concreta nos conferem uma vantagem singular neste turbilhão de informações. 

Erudição jamais foi sinônimo de inteligência. Alguém pode ter consumido bibliotecas inteiras e ainda assim carecer de inteligência prática; por outro lado, um indivíduo sem acesso à educação formal pode revelar-se profundamente inteligente e sábio. Vale lembrar, foram os sábios — mesmo desprovidos de vastos bancos de dados ou capacidades tecnológicas — que trouxeram a humanidade até aqui.