Por Ana Bia Medeiros, líder em educação na Kindle Pass
A recente repercussão envolvendo a influenciadora Yasmin Castilho colocou um tema importante no centro das discussões: a necessidade de alvará judicial para a participação de crianças em conteúdos com finalidade comercial. Na prática, a autorização busca garantir que atividades que envolvam exploração econômica da imagem de menores sejam acompanhadas pela Justiça, assim como já acontece em outras atividades artísticas. Mais do que analisar um caso específico, o episódio convida a refletir sobre uma questão que impacta todas as famílias: como proteger os direitos da infância na era digital?
O debate vai além da legislação. Pela primeira vez, vivemos uma geração cuja identidade digital começa a ser construída antes mesmo que a criança compreenda o que significa estar na internet. Fotos, vídeos e momentos da rotina passam a compor um histórico permanente, definido pelos adultos.
Isso não significa que compartilhar registros da infância seja um problema. Publicar uma foto de um aniversário ou de uma conquista escolar é diferente de transformar a rotina da criança em conteúdo recorrente, especialmente quando há objetivos comerciais ou busca constante por engajamento.
O debate não é sobre proibir. É sobre responsabilidade.
Sempre que esse assunto surge, costuma aparecer uma falsa divisão. De um lado, quem acredita que pais não deveriam publicar absolutamente nada, do outro, quem entende que qualquer publicação é apenas uma demonstração de carinho. Na prática, a realidade é muito mais complexa.
O problema não está na existência dessas ferramentas. O problema surge quando deixamos de considerar que existe uma pessoa em desenvolvimento por trás de cada imagem publicada. Nesse contexto, a pergunta deixa de ser apenas “é permitido postar?” e passa a ser: essa publicação respeita os direitos, a dignidade e a privacidade da criança, hoje e no futuro?
O caso Yasmin Castilho trouxe visibilidade para um debate que já vinha ganhando força entre especialistas, juristas e educadores: a necessidade de garantir que crianças tenham seus direitos preservados também no ambiente digital. O alvará judicial representa um avanço importante quando há exploração comercial da imagem, mas não substitui a responsabilidade das famílias na forma como constroem a presença digital de seus filhos.
A tecnologia faz parte da infância contemporânea e pode ser uma importante aliada do desenvolvimento, da criatividade e das conexões familiares. Mas isso exige que cada publicação seja acompanhada da mesma pergunta: ela respeita a privacidade, a dignidade e o melhor interesse da criança? Afinal, a infância acontece uma única vez — e a forma como escolhemos registrá-la hoje pode acompanhar essa criança por toda a vida.
