Toda fronteira é também uma política da imagem

Por Redação

19/08/2026 14h25

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Por Vitoria Paschoal Baldin, pesquisadora de arte e ativismo digital, doutoranda e mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP)

Quando milhares de pessoas tentaram chegar ao enclave espanhol de Ceuta, uma nova crise migratória implicou na massiva produção e circulação de imagens nos mais diversos meios. Homens e jovens nadando em direção à costa, multidões diante das cercas, agentes de segurança em prontidão, corpos exaustos na praia. Em poucas horas, essas cenas passaram a organizar o debate público sobre o episódio.

As explicações também surgiram rapidamente. Autoridades espanholas atribuíram parte do aumento do fluxo migratório à circulação de boatos nas redes sociais. Lideranças da extrema direita recorreram às imagens para sustentar discursos anti-imigração. Outros analistas levantaram a hipótese de que a migração estaria sendo utilizada como instrumento de pressão geopolítica. Embora distintas, essas narrativas compartilham uma mesma premissa, isto é, a de que a comunicação apenas repercute acontecimentos que ocorrem fora dela. Mas elas também deixam escapar uma questão anterior: como uma fronteira se torna um acontecimento público?

Estamos acostumados a imaginar a fronteira como um limite geográfico, marcado por cercas, postos de controle e dispositivos de vigilância. Ceuta mostra que essa definição é insuficiente. A fronteira também é produzida por imagens, plataformas, discursos políticos, cobertura jornalística e fluxos de informação que definem como determinado deslocamento será percebido. Ela começa também nos ecossistemas comunicacionais que organizam expectativas, medos e pertencimentos. Antes de cruzar um limite territorial, milhões de pessoas atravessam fluxos de imagens, vídeos, rumores, grupos de mensagens, influenciadores, discursos políticos e cobertura jornalística. As plataformas digitais não explicam, por si só, por que as pessoas migram, mas transformam profundamente a maneira como a mobilidade é imaginada, organizada e governada.

É nesse ponto que a reflexão de Vilém Flusser permanece atual. Para o filósofo, as imagens técnicas não apenas representam o mundo, elas reorganizam a forma como passamos a percebê-lo. Em Ceuta, as fotografias e vídeos parecem documentar uma realidade objetiva. No entanto, quando circulam incessantemente, deixam de ser apenas registros e passam a produzir sentidos. Não vemos apenas pessoas tentando atravessar uma fronteira. Vemos imagens que podem consolidar ideias de invasão, ameaça, emergência ou crise permanente.

Os enquadramentos, das imagens em si e dos sentidos que na circulação oferecemos a elas, orienta também quais respostas políticas passam a parecer razoáveis. Rebecca Stein, ao analisar conflitos contemporâneos, chama atenção para o fato de que plataformas e imagens integram a própria infraestrutura dos conflitos. Elas não funcionam apenas como canais de circulação da informação. Participam da produção pública dos acontecimentos ao distribuir visibilidade, estabelecer enquadramentos e definir quais narrativas alcançam maior circulação.As imagens tornam-se parte das disputas pelo significado do acontecimento, definindo quais vidas serão percebidas como vulneráveis, quais corpos serão associados ao perigo e quais ações parecerão legítimas.

Esse fenômeno não se restringe a Ceuta. Guardadas as enormes diferenças históricas, sociais e políticas entre os casos, também é possível observar como brasileiros que migram para o Paraguai constroem suas expectativas por meio de vídeos nas redes sociais, relatos de influenciadores, grupos de WhatsApp e conteúdos que apresentam oportunidades econômicas, qualidade de vida ou vantagens tributárias. Em vez de imagens de cercas e patrulhamento, predominam imagens de prosperidade e recomeço. Em ambos os casos, contudo, as imagens não apenas acompanham a mobilidade, elas participam da construção dos imaginários que a tornam desejável, possível, necessária ou ameaçadora.

Isso ajuda a compreender por que a discussão sobre Ceuta não pode ser reduzida à desinformação. Rumores podem acelerar deslocamentos, mas não explicam, isoladamente, por que pessoas decidem migrar. Pessoas migram por razões econômicas, políticas, familiares, ambientais e humanitárias. O que mudou é que essas decisões são cada vez mais mediadas por ambientes informacionais complexos, nos quais imagens, algoritmos, rumores, experiências compartilhadas e discursos institucionais interagem continuamente. Da mesma forma, fotografias não produzem ações ou discursos sozinhas. É importante, assim, observar como imagens, plataformas, discursos institucionais, decisões governamentais e condições materiais passam a operar conjuntamente, produzindo determinadas leituras da mobilidade.

Não se trata de afirmar que imagens fazem pessoas migrarem. Tampouco de atribuir às plataformas um protagonismo que pertence a processos econômicos, políticos e sociais muito mais amplos. Na verdade, as migrações contemporâneas acontecem em ambientes profundamente mediados pela comunicação. As pessoas cruzam fronteiras levando consigo repertórios produzidos por vídeos, fotografias, relatos e algoritmos que moldam expectativas sobre risco, oportunidade e pertencimento.  As fronteiras do século XXI são infraestruturas materiais, mas também infraestruturas simbólicas. Compreender as migrações contemporâneas exige olhar para ambas. Porque, antes que alguém atravesse um território, há quase sempre uma imagem que torna essa travessia imaginável — seja como promessa, seja como ameaça.

Clotilde Perez
Professora universitária, pesquisadora e consultora
Clotilde Perez é professora universitária, pesquisadora, consultora e colunista brasileira, titular de semiótica e publicidade da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo, concentrando seus estudos nas áreas da semiótica, comunicação, consumo e sociedade contemporânea. Fundadora da Casa Semio, primeiro e único instituto de pesquisa de mercado voltado à semiótica no Brasil, já tendo prestado consultoria nessa área para grandes empresas nacionais e internacionais, conjugando o pensamento científico às práticas de mercado. Apresenta palestras e seminários no Brasil e no mundo sobre semiótica, suas aplicações no mercado e diversos recortes temáticos em uma perspectiva latino-americana e brasileira em diálogo com os grandes movimentos globais.