Análise

O desejo pela imperfeição: por que a geração Z está resgatando os estilos fotográficos do passado

Por Lucas Abreu

19/08/2026 12h40

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Neste especial do Dia Mundial da Fotografia, exploramos como as câmeras dos anos 1990 e 2000 ganharam sobrevida nos tempos atuais com a geração Z

Kevin Carlos é designer de moda e tem 25 anos. Ele pertence a uma geração acostumada a fotografar qualquer momento com um celular, conferir o resultado imediatamente e, se quiser, apagar e registrar o mesmo quadro inúmeras vezes. Ainda assim, prefere as câmeras digitais compactas e as analógicas para registrar os momentos da vida adulta.

Nas redes sociais, ele compartilha as fotografias produzidas por esses equipamentos e os registros digitalizados dos filmes que revela. E essa escolha pelo retrô, aparentemente atípica para a realidade contemporânea, acompanha um movimento que começa a aparecer com mais força e evidência no mercado fotográfico.

Segundo dados recentes divulgados pela Camera & Imaging Products Association (CIPA), 2,44 milhões de câmeras digitais compactas de lente fixa foram embarcadas no mundo em 2025. O número representa uma alta de 29,6% em relação ao mesmo período do ano anterior. No mesmo ano, a Circana apontou que o volume de câmeras digitais point-and-shoot cresceu 93%, impulsionado principalmente por modelos de baixo custo, com preços inferiores a US$ 200.

No Brasil, o mercado também demonstra aquecimento. Dados da Octoshop apontam que a comercialização de câmeras digitais portáteis cresceu 1.456% entre novembro de 2024 e maio de 2025, movimentando mais de R$ 89 mil no período. Já em plataformas de revenda como o Enjoei, diversos modelos de Cyber-shot podem ser encontrados com preços que variam de R$ 300 a R$ 1.400.

A alta acontece justamente quando os smartphones atingiram um nível de sofisticação que permite produzir imagens cada vez mais nítidas, iluminadas e tecnicamente precisas. A escolha por equipamentos antigos, portanto, parece estar menos relacionada à capacidade de fotografar e mais à maneira como essas imagens são produzidas.

“Acho que o que atrai nessas câmeras é a sensação diferente que elas imprimem nas fotos, seja nas cores ou nas texturas que ficam aparentes nos filmes que são utilizados. Tudo isso dá uma camada diferente para a foto, que muitas vezes um smartphone, que tem um tipo de sensor diferente, não consegue imprimir”, comenta Kevin. “A diferença também está nas particularidades de cada equipamento. Algumas câmeras funcionam melhor para paisagens distantes, outras têm zoom para registros aproximados, enquanto há modelos com recursos específicos, como a impressão da data na fotografia ou o uso embaixo d’água. Em vez de uma única tecnologia capaz de fazer tudo, cada câmera passa a oferecer uma maneira própria de fotografar”.

O flash estourado, a granulação, o ruído, as cores menos precisas e até os pequenos erros de foco, características que durante anos foram associadas a equipamentos ultrapassados, passaram a ser incorporados intencionalmente às imagens produzidas por uma nova geração de fotógrafos. O que antes era defeito passa a funcionar como linguagem visual.

A diferença não está apenas na fotografia final. Está também na experiência. Uma Cyber-shot tem limitações de armazenamento; uma câmera de filme obriga o fotógrafo a esperar pela revelação; uma Polaroid transforma cada clique em uma fotografia física. Em todos esses casos, existe uma barreira entre o impulso de fotografar e o resultado, obrigando o fotógrafo a selecionar melhor os momentos que deseja registrar.

Para Kevin, essa diferença também está no próprio processo de produção da imagem. Mesmo quando uma fotografia digital consegue reproduzir visualmente características do analógico, o resultado não é exatamente o mesmo.

“A entrega às vezes pode ser até similar ao digital, mas, tecnicamente falando, ambas são bem diferentes. Uma foto digital editada por aplicativos simples para se assemelhar a fotos analógicas não chega a ser a mesma coisa, até porque nada supera o original, mesmo que tente”, explica.

A distinção, segundo ele, vai além da aparência. Está também na maneira como a imagem é registrada e na informação preservada pelo suporte. “Temos, por exemplo, a questão da remasterização de filmes antigos gravados em filme, que conseguem ser expandidos para mais do que 4K, diferente de outros filmes gravados de forma digital”, acrescenta.

A nostalgia de uma época que a Geração Z não viveu

O retorno das câmeras também se conecta a uma onda mais ampla de valorização da estética dos anos 1990 e 2000, presente na moda, na música, na publicidade e no entretenimento. E as redes sociais têm papel importante nessa reconstrução do passado.

No TikTok, vídeos ensinam a editar fotografias para que elas pareçam ter sido feitas com câmeras antigas, reproduzindo granulação, baixa definição, flash estourado e cores características dos equipamentos daquele período. A própria indústria fotográfica já associa a retomada das compactas ao impacto de tendências virais nas redes sociais e ao interesse por equipamentos retrô.

A contradição é interessante: enquanto a indústria desenvolveu tecnologias para deixar as fotografias cada vez mais nítidas, uma geração acostumada às câmeras dos smartphones está aprendendo a fazer uma imagem digital parecer velha.

Para Kevin, porém, a estética não explica sozinha o movimento. “Acredito que exista, sim, uma tentativa de se desconectar das redes sociais e criar memórias longe delas, de uma forma mais privada. A nostalgia também tem sido uma grande ferramenta de venda, e muitos jovens e até adolescentes procuram essas Cyber-shots justamente pela estética nostálgica e pela possibilidade de reviver, de certa forma, imagens associadas à própria infância”, observa.

A busca não fica restrita ao consumo individual. O analógico também começa a ser incorporado como diferencial por profissionais e empresas que trabalham com imagem. Em São Paulo, a produtora independente GAFE utiliza a fotografia analógica em trabalhos audiovisuais e já produziu projetos para artistas como Luísa Sonza. No perfil da produtora, registros digitais e analógicos de um mesmo trabalho aparecem separados em carrosséis distintos, transformando a diferença entre os dois formatos em parte da própria apresentação dos projetos.

O exemplo mostra que o analógico não está apenas sendo recuperado como memória. Ele também é reapropriado como linguagem contemporânea, inclusive por quem trabalha profissionalmente com imagem.

O comportamento não se limita à fotografia. Os fones de ouvido com fio também encontraram um novo espaço entre consumidores mais jovens. Depois de cinco anos consecutivos de queda, a categoria cresceu 3% em receita em 2025, o equivalente a cerca de US$ 15 milhões. Entre julho e dezembro, a alta chegou a 10% e, nas seis primeiras semanas de 2026, a receita avançou 20%. Os fones True Wireless ainda respondiam por 65% do faturamento da categoria de headphones em 2025, segundo a Circana.

A retomada de produtos antigos, portanto, ultrapassa a fotografia. Objetos que perderam espaço para tecnologias mais novas começam a ser recuperados não necessariamente por sua eficiência, mas pela estética e pela experiência que carregam.

O passado também virou oportunidade

O movimento também encontra resposta em empresas que ajudaram a construir a história da fotografia. A Kodak é um dos casos mais simbólicos. Depois de ser uma das companhias mais atingidas pela transição para o digital, a empresa voltou a investir justamente em um produto que parecia condenado ao desaparecimento.

Em seu relatório de 2025, a Kodak afirma ter modernizado e ampliado a capacidade de sua fábrica de filmes para atender ao crescimento da demanda por filmes fotográficos e cinematográficos. A companhia também passou a oferecer novos filmes fotográficos diretamente a distribuidores e continua produzindo filmes para licenciados e outros parceiros.

Os resultados financeiros ajudam a dimensionar o momento da companhia. A Kodak fechou 2025 com US$ 1,069 bilhão em receita, alta de 2% sobre 2024. O Operational EBITDA avançou 138%, de US$ 26 milhões para US$ 62 milhões. No quarto trimestre, a receita cresceu 9%, chegando a US$ 290 milhões.

A empresa também identificou outro efeito dessa onda retrô: a KODAK Charmera Keychain Digital Camera, uma pequena câmera digital em formato de chaveiro, chamou atenção durante a temporada de festas ao transformar a estética vintage em um objeto digital novo.

A Polaroid segue um caminho parecido, mas com uma diferença: em vez de apenas recuperar um produto do passado, a marca tenta reposicionar a fotografia instantânea para uma nova geração.

Em junho de 2026, a empresa lançou a Polaroid Go Generation 3, sua menor câmera instantânea. O produto utiliza filme Polaroid Go, produz fotografias instantâneas em pequeno formato e foi apresentado pela companhia como uma câmera para um “verão analógico”. No anúncio, a marca relacionou o lançamento ao interesse de gerações mais jovens por experiências mais táteis, intencionais e menos digitais.

A estratégia também aparece na comunicação da empresa. Em julho de 2025, a Polaroid lançou a campanha “The Camera for an Analog Life”, apresentada como uma reação ao excesso de telas e à sobrecarga digital. Em 2026, a marca voltou a trabalhar explicitamente a ideia de que jovens adultos estão recorrendo ao analógico para se desconectar.

Cyber-shot, Kodak e Polaroid são produtos de épocas diferentes, com tecnologias e propostas distintas. O ponto de encontro está na experiência que oferecem: mais tempo, mais materialidade e menos controle sobre o resultado.

O interesse da Geração Z pelas câmeras do passado revela menos uma rejeição à tecnologia do que uma nova relação com ela. Em um cotidiano no qual fotografar se tornou automático, escolher uma câmera que exige mais tempo, impõe limites e entrega um resultado menos previsível devolve intenção ao ato de registrar.