É quinta-feira, 25 de junho de 2026. O dia está ensolarado e há um cheiro de otimismo no ar. Na noite anterior, o Brasil venceu a Escócia na Copa do Mundo. Talvez seja por isso. É uma sensação boa, que me faz pensar que a entrevista que realizarei dentro de alguns minutos seguirá o mesmo clima.
Sozinho na sala de reuniões, reviso as perguntas. Assim como aconteceu nas últimas duas vezes, sei muito pouco sobre quem vou entrevistar. Entretanto, prefiro que seja assim. Quanto menos sei, mais posso descobrir e me desprender de leituras prévias que podem tornar a escrita do texto mais complicada.
O nome da minha entrevistada é Melina Menezes. Ela trabalha como gerente de Cultura e Employer Branding nas Farmácias Pague Menos e faz parte da comunidade LGBTQIAPN+. Na terça-feira, ouvi de alguns assessores que ela é “uma mulher extraordinária” e deixei a afirmação anotada em meu caderno.
Uma menina deslocada
Entro na videoconferência alguns minutos atrasado. Melina já me aguarda, acompanhada de Edinaele Sousa, assessora de imprensa. Eu as cumprimento e agradeço pela disponibilidade. Edinaele faz um breve resumo sobre mim e o Nosso Meio, e Melina agradece o convite para a entrevista com um sorriso caloroso.
Quando tudo fica em silêncio, pergunto: “Melina, quando foi que você se compreendeu como uma pessoa LGBTQIAPN+?”
Ela respira fundo e olha para cima. Suas pupilas se dilatam, como se estivesse voltando ao passado em uma fração de segundos. Vejo seu rosto ficar vermelho, como se estivesse prestes a chorar. Mas, em seus olhos, não há lágrimas; em sua voz, não há hesitação. A emoção é contida, mas não menos real.
“Acho que foi em 2011”, ela começa. “Eu não tinha muitas certezas sobre mim, mas tinha algumas suspeitas. As coisas só mudaram depois que vivi uma experiência muito transformadora fora do Brasil. Bom, deixa eu te contextualizar primeiro: eu vim de uma criação muito tradicional, e isso significa que não fui moldada para ser uma mulher profissional, mas uma mulher do lar. Eu convivia com mulheres que tinham essa realidade. Elas não tinham carreiras, sonhos ou buscas, mas estavam confortáveis com aquele sistema. Eu não. Sempre me senti muito diferente e sabia que existia uma diferença até na forma como eu era tratada em relação aos meus irmãos. Sou a única mulher entre três filhos e a filha do meio.
“Naquela época, eu tinha uma dificuldade muito grande de me expressar, porque queria agradar aos outros. Embora minha mãe fosse minha melhor amiga, eu nunca consegui conversar com ela sobre assuntos mais sensíveis, porque as coisas eram veladas e havia essa ideia de não permitir que eu fugisse de um padrão já estabelecido. Eu sempre fui a menina certinha, mas também havia em mim o desejo de mudar aquele contexto, de hackear aquele sistema. Meu maior ato de revolução foi fazer um intercâmbio. Fui morar nos Estados Unidos com uma família formada por um casal de mulheres lésbicas, que tinha um filho. Lá, consegui quebrar muitos dos preconceitos que carregava, inclusive compreender que talvez eu também pudesse viver em uma família com essa estrutura. Algumas coisas começaram a ficar mais claras no momento em que me abri para essa possibilidade.
“Hoje, eu me identifico como uma mulher bissexual, vivo um relacionamento homoafetivo com a Dulcy e, no momento em que descobri quem eu era, pude me empoderar. Entendi que nada valia mais do que a paz de ser eu mesma, porque, até então, vivia apenas para agradar meus pais e a sociedade. Mas eu estava me degradando, me violentando, e decidi que não passaria mais por isso. Então, quando voltei ao Brasil, voltei querendo gritar ao mundo quem eu era. Foi ali que me declarei uma mulher bissexual.”
“E como foi escancarar as portas do armário?”, pergunto logo em seguida. “Pelo que você me relatou sobre a sua criação tradicional, imagino que não tenha sido fácil.”
“Foi bem difícil…”
A resposta pesa por alguns segundos. Vejo Melina respirar fundo outra vez, mas, ainda assim, ela se mantém firme.
“Mas acho que também tive alguns privilégios, sabe, Lucas? Eu sou uma mulher cis, branca, e o meu contexto, embora tradicional, também tinha certa diversidade e um acolhimento que vinha muito da minha mãe e da minha avó.
“A primeira pessoa para quem eu contei foi meu irmão mais novo. Depois de um tempo, contei para o meu irmão mais velho, que foi um pouco resistente no começo, mas sempre me acolheu e passou também a acolher a comunidade como um todo. A melhor amiga dele, desde a infância, inclusive, é uma mulher trans.
Quando contei para a minha mãe, as coisas foram mais complicadas. A minha vida virou, assim… um inferno. De certa forma, acho que ela já sabia, porque acredito que todos os pais sabem quando um filho é LGBTQIAPN+. Mas a minha mãe ficou muito frustrada, porque, naturalmente, tinha as expectativas dela. Então, para ela, era como se eu a tivesse enganado. A gente discutia muito por causa disso, e chegou um ponto em que eu estava tão revoltada com a situação que a minha avó percebeu e me perguntou o que estava acontecendo entre mim e a minha mãe. Eu contei para ela sem preparo nenhum, mas me emociona muito lembrar do que ela fez depois. Ela se levantou, me deu um beijo no rosto e disse que me amava muito.”
A cena descrita por Melina ganha forma na minha mente à medida que ela narra, e eu me pego divagando. Penso na minha própria experiência como um homem bissexual, criado em uma família tradicional. Penso nas conversas semelhantes que tive com a minha mãe e no acolhimento que encontrei na minha irmã e nos meus amigos. Ao olhar para Melina, eu me enxergo, como quem se vê depois de uma sessão de psicanálise. Mas eu não sou o personagem principal desta história, mesmo que a minha vivência seja quase idêntica.
“Como você lidou com isso tudo?”, pergunto.
“Apesar da dificuldade, fui tentando construir aliados. Evitei afrontar a minha família e evitava conversar sobre certos assuntos para que eles não se sentissem provocados. Fui letrando todos aos poucos, com muito diálogo, amor e acolhimento, porque eu sabia que também era difícil para eles. Foi um processo longo, mas deu certo.”
Uma gestão com intenção
Olho para o questionário mais uma vez e percebo que pouco falamos da carreira dela. Sem perder o ritmo, emendo a próxima pergunta: “Melina, você é gerente de Cultura e Employer Branding da Pague Menos. A gente sabe que cultura é algo que influencia o clima, a atração e a retenção de pessoas, e isso se torna ainda mais delicado quando falamos da comunidade LGBTQIAPN+. Nessa posição de gestora, a sua vivência como mulher bissexual ajuda você a pensar em estratégias mais assertivas não só para a comunidade LGBTQIAPN+, mas também para outras minorias sociais que fazem parte da Pague Menos?”
“Quando fui recrutada para a Pague Menos, lembro que, durante a entrevista, contei que vivia um relacionamento homoafetivo. Naquele momento, me senti muito forte por admitir isso e até pensei que, se eles não me quisessem aqui por eu ser uma mulher LGBTQIAPN+, eu consideraria isso um livramento. Mas fui selecionada e, para minha surpresa, encontrei um ambiente de muita diversidade. E diversidade é algo em que acredito profundamente. Faz parte da minha filosofia de vida. Eu sou uma mulher nordestina e bissexual, e são bandeiras das quais não posso abrir mão, porque preciso lutar por ambientes mais igualitários, que representem não apenas a mim, mas também outras pessoas como eu.
“Quando vim para a área de Gente, levei isso comigo. E fico feliz por estar em um ambiente onde a diversidade é um valor inegociável, porque onde há diversidade há espaço para inovação e soluções. Quando a gente fala de cultura, é preciso construir um ambiente em que as pessoas se sintam pertencentes, para que exista a conexão que as motiva a estar aqui todos os dias e a fazer parte do que construímos.
Inclusive, quando falamos de marca empregadora e da nossa proposta de valor ao colaborador, a inclusão no ambiente de trabalho é um dos benefícios que destacamos, porque sabemos que isso tem impacto em dimensões inimagináveis. Por isso, temos programas de acolhimento para promover um espaço de proteção que muitas pessoas não encontram fora daqui, inclusive dentro das próprias casas. Essa é a cultura em que acreditamos: uma cultura que se manifesta não apenas por meio de programas, mas também de vagas afirmativas e do cuidado com a saúde psicológica dos nossos colaboradores. A diversidade é um valor inegociável.”
Uma observação: junho de 2026 tem sido menos colorido. Não me entendam mal. Como bom nordestino, adoro as festividades de São João e, como bom brasileiro, a Copa do Mundo é um evento que sempre me empolga. Mas entristece saber que, em meio a tantas festas que unem povos e celebram a diversidade, a da comunidade LGBTQIAPN+ parece ter sido esquecida por aqueles que, até o ano passado, diziam levantar a nossa bandeira conosco.
Divido essas impressões com Melina e pergunto como podemos fazer com que a agenda da diversidade deixe de ser apenas uma pauta sazonal. Ela sorri e responde:
“A gente precisa entender, Lucas, que toda luta precisa partir de um lugar de intencionalidade. A gente sabe que existem marcas que levantam a bandeira do movimento LGBTQIAPN+ apenas por oportunismo, muitas vezes para surfar na onda das pessoas que fazem parte dele. E isso não acontece só com o movimento LGBTQIAPN+, mas também com outras pautas, como as das pessoas negras, das pessoas com deficiência e das mulheres.
“Por isso eu digo, e acredito de verdade, que tudo precisa partir de um lugar de intencionalidade e do compromisso de ser uma empresa que levanta essas bandeiras não apenas para fora, mas também dentro dos próprios ambientes, promovendo espaços inclusivos, acolhedores e seguros. Não se trata de se apropriar de uma pauta social durante um mês, mas de assumi-la durante o ano inteiro. Porque é aí que mora o pulo do gato: a marca está usando essas bandeiras como parte da sua estratégia de negócio ou apenas como uma estratégia sazonal de marketing?”
Às marcas, deixo o questionamento de Melina.
“Melina, para você, qual é a importância e a responsabilidade de ser uma mulher LGBTQIAPN+ em um cargo de liderança?”, pergunto, dando sequência à entrevista.
“É uma responsabilidade imensa, porque eu sei que estou impactando, de verdade, a vida das pessoas. E nada é mais poderoso, Lucas, do que ter a certeza de que você está ajudando a construir um ambiente onde as pessoas entram sabendo que não vão sofrer preconceito por serem quem são. Hoje, eu ocupo essa posição representando uma parcela das pessoas que trabalham conosco, e isso também tem o poder de empoderar outras pessoas, fazendo com que elas entendam que esse cuidado faz parte do nosso propósito de levar saúde com amor para todos os brasileiros. E ‘todos’ inclui tanto quem está do lado de fora quanto quem está aqui dentro da Pague Menos.”
O futuro e os pretéritos
“Qual é o legado que a Melina quer deixar como líder?”, questiono.
“Eu quero que as pessoas se lembrem de mim como alguém que não esteve aqui apenas para entregar resultados numéricos. Eu sei que isso é importante dentro do mundo corporativo, mas quero ser lembrada como uma pessoa de presença, de impacto, de posicionamento e que honra uma frase que diz: ‘Seja a mudança que você quer ver no mundo’. Longe de mim achar que vou conseguir mudar o mundo ou provocar uma grande transformação. Mas, se eu souber que fui capaz de transformar a vida de uma pessoa, isso já tem um valor muito grande para mim. É esse o legado que eu quero deixar. Quero deixar essa Melina para as pessoas que conviveram comigo.”
“E o que você diria para a Melina que começou tudo isso?”
“Por muito tempo, Lucas, eu me senti presa. E, quando era criança, sonhava em voar. Hoje, entendo que esse desejo de voar não era simplesmente ir para cima, mas ir para onde o vento me levasse. Eu queria conhecer o mundo, e hoje já visitei 25 países. Naquela época, isso parecia impossível. Então, o que eu diria para aquela Melina talvez fosse: ‘Nunca desista de sonhar’, porque a Melina de hoje está conseguindo realizar esses sonhos.”
Uma nota mental: Melina Menezes é uma super-heroína. E tem até um nome que poderia facilmente ter sido criado pelo saudoso Stan Lee.
“E como está a Melina de hoje?”
“Ela está numa fase extremamente feliz. Eu sou uma pessoa feliz. Inclusive, acabei de ficar noiva da Dulcy. Olha aqui a minha aliança”, diz, exibindo o dedo anelar com orgulho. “Eu fiz o pedido para ela no Magic Kingdom, depois de um ano de namoro. E confesso que já estava descrente de que encontraria alguém, porque fazia quatro anos que eu estava solteira. Então essa mulher incrível apareceu na minha vida, e eu nem tenho palavras para dizer o quanto ela é maravilhosa. Ela quebrou todos os medos que eu tinha e me fez sentir muito segura.
“Nessa viagem, em que aconteceu o nosso pedido de casamento, a gente foi durante o Mês do Orgulho. Havia bandeiras do arco-íris por todos os lugares, e eu me sentia tão bem vendo aquilo, tão empoderada. Inclusive, lembro de uma situação engraçada: a gente estava caminhando por um calçadão quando uma senhora lançou um olhar de julgamento para um rapaz que nós presumimos ser gay. Minha noiva olhou para mim, me deu um beijo na frente da mulher e disse, toda confiante: ‘Happy Pride!’ (‘Feliz Orgulho!’).
“Estou muito feliz vivendo esse momento, organizando o meu casamento, e ter a minha família feliz com isso também é incrível. Minha mãe é apaixonada pela minha noiva. Ela me manda mensagem perguntando: ‘Cadê minha norinha?’. Eu nunca vivi isso, e está sendo muito bom viver.”

No meio de tantas tragédias envolvendo a comunidade LGBTQIAPN+, encontrar alguém que encontrou a felicidade é como descobrir um refúgio tranquilo em meio à tempestade. É lembrar que ainda existe esperança em meio à luta e que a trajetória de tantos ícones do passado e do presente — como Marsha P. Johnson, Harvey Milk, Stormé DeLarverie, Luiz Mott e Lena Oxa — teve e continua tendo impacto.
Bate-bola, jogo rápido
“Uma cor?”
“Vermelho.”
“Um livro?”
“Tudo é Rio, da Carla Madeira.”
“Um filme da Disney?”
“A Pequena Sereia, porque foi o primeiro filme que a minha avó me deu quando eu era criança.”
“Então sua princesa preferida é a Ariel?”
“É”, responde, rindo. “Inclusive, eu vi ela na Disney e morri de chorar.”
“Uma música para cantar no karaokê?”
“Eita… ‘Umbrella’, da Rihanna.”
“Uma referência?”
“Eu tenho muitas referências. São pessoas que transformaram a minha vida. Mas, se for para escolher uma única, eu diria o meu falecido avô. Ele foi um grande ser humano.”
“Um super-herói?”
“Batman.”
“Um lugar que você ainda não conhece?”
“Japão.”
“Uma atividade física?”
“Academia. Musculação.”
“Uma comida?”
“Nhoque.”
“Uma simpatia de São João?”
“Simpatia? Acho que ‘pega-sapatão’, para a minha nunca me largar!”
“O Brasil vai ser hexa?”
“Quem acredita sempre alcança. Então, eu digo que vamos ser, sim!”
“Obrigado, Melina.”
“Eu que agradeço.”
