William Gomes levou ao congresso uma reflexão sobre presenteísmo, gestão de benefícios e a integração entre RH, saúde ocupacional e operadora como caminho para organizações mais saudáveis e sustentáveis
Por trás de cada colaborador que bate o ponto existe uma pergunta que poucas empresas sabem responder: ele está, de fato, presente? Foi a partir dessa provocação que William Gomes, gerente de relacionamento corporativo da Unimed Fortaleza, conduziu a palestra “A nova arquitetura de benefícios: o RH como agente de transformação na sustentabilidade do negócio”, no CearáRH 2026, congresso promovido pela ABRH-CE no Centro de Eventos do Ceará, em Fortaleza.
Para contextualizar o debate, William apresentou dados do Consumer Pulse 2026, pesquisa da Bain & Company com consumidores brasileiros. O estudo aponta que as duas principais fontes de estresse da população são as questões financeiras, citadas por 57% dos entrevistados, e a saúde e o bem-estar, mencionados por 46%. Duas preocupações que não ficam do lado de fora quando o profissional chega ao trabalho e que, de diferentes maneiras, desembocam na mesa do RH.
Presentes no crachá, ausentes no resultado
Um dos pontos centrais da palestra foi a diferença entre absenteísmo e presenteísmo. Se o primeiro aparece nos relatórios por meio de faltas e afastamentos, o segundo costuma passar despercebido, porque acontece com o colaborador fisicamente no posto de trabalho, mas sem condições plenas de entregar. “É necessário começar a medir quem de fato está presente e trazendo resultados”, afirmou. Segundo William, esse indicador ainda não é acompanhado pelas organizações, o que deixa invisível uma parcela importante da perda de produtividade. “Existem pessoas que estão deixando de produzir por estarem doentes silenciosamente.”
Para o executivo, o caminho para enxergar essa realidade não passa por novas ferramentas, mas pela integração de informações que as empresas já possuem. “A melhor forma de medir isso é unindo o RH, a saúde ocupacional e a operadora”, disse. E completou com a frase que sintetizou boa parte da palestra: “Não falta dado, falta cruzamento. E cruzamento é governança, não tecnologia.” Na visão de William, é justamente a capacidade de mensurar e relacionar esses dados que permite ao RH demonstrar o retorno das ações de saúde e bem-estar.
O plano adequado no lugar do melhor plano
A mesma lógica se aplica à gestão de benefícios, que William tratou menos como uma questão de orçamento e mais como uma questão de direcionamento. “Muitas empresas hoje dão 50% do melhor plano, mas deixam de dar 100% do plano adequado”, afirmou. A proposta, segundo ele, é usar o conhecimento sobre a própria população de colaboradores para investir com mais precisão. “Não é trazer o dinheiro pra mesa, mas pegar o dinheiro que a empresa já tem e ajustar o investimento.”
O raciocínio também se estende à saúde mental. William observou que a maioria das empresas ainda olha apenas para o indivíduo quando o assunto é burnout, deixando de lado outros fatores que influenciam o adoecimento, como o ambiente, a organização do trabalho e as condições em que as pessoas atuam. “É preciso identificar o motivo do adoecimento. Conheça seus colaboradores, faça a intervenção onde o risco está e meça o resultado”, orientou.
Ao longo da apresentação, William reforçou a importância de unir o olhar interno da organização ao da operadora de saúde para transformar a realidade das empresas. A discussão ganha peso em um momento em que a NR-1, em vigor desde maio, passou a exigir a gestão dos riscos psicossociais nas organizações regidas pela CLT, e em que os benefícios de saúde figuram entre as maiores despesas das empresas depois da folha de pagamento. Nesse cenário, a capacidade de cruzar dados, identificar riscos e medir o efeito de cada intervenção tende a se consolidar como uma das competências mais estratégicas do RH.
