Por Bruno Tavares, fundador da EVX Gestão e consultor especialista em gestão para micro e pequenas empresas
Vender não é sinônimo de lucrar. Entenda os erros de gestão invisíveis que “sugam” o caixa das pequenas empresas cearenses.
Na minha jornada visitando as empresas nesses últimos anos como executivo e consultor (interno e externo), é impossível não notar o grande potencial do empreendedorismo cearense. O nosso estado tem, em seu DNA, a vocação para o comércio e para o serviço. No entanto, por trás de vitrines cheias e operações aparentemente movimentadas, existe uma estatística silenciosa e cruel: a alta taxa de mortalidade das empresas nos seus primeiros anos de vida.
Segundo dados do Sebrae, a falta de gestão eficiente continua sendo, ano após ano, a principal causa de morte dos pequenos negócios no Brasil. Mas existe um fenômeno específico que merece atenção e que tenho observado de perto atuando em médias e grandes empresas e agora apoiando o pequeno empresário: o paradoxo da quebra por crescimento.
Muitos empresários locais acreditam que “venda cura tudo”. Acreditam que, se a loja está cheia, o negócio vai bem. Infelizmente, essa é uma meia verdade perigosa. Faturamento é métrica de vaidade; caixa é métrica de sanidade. E é esse desalinhamento entre esses dois pontos que muitas empresas cearenses promissoras afundam.
O primeiro grande vilão desse cenário é o erro na precificação. Na ânsia de ser competitivo em um mercado agressivo como o nosso, o empresário muitas vezes define seu preço olhando apenas para o concorrente (as vezes nem olha, acreditem!), ignorando sua própria estrutura de custos. É comum encontrar operações que, quanto mais vendem, mais prejuízo acumulam. É a chamada “venda negativa”: o produto sai, o custo variável sobe, e a margem de contribuição não é suficiente para pagar a operação. Nesse cenário, o crescimento acelera a falência.
O segundo ponto é cultural e talvez o mais difícil de combater: a confusão dos caixas. No Ceará, muitas empresas nascem em núcleos familiares. O negócio cresce, mas a mentalidade de gestão permanece “infantil”. Quando o dono usa o caixa da empresa para pagar a escola dos filhos, o cartão de crédito pessoal, ou a troca do carro pessoal, ele está sangrando o capital de giro do negócio.
O que muitos não percebem é que uma empresa pode ser rica e o dono “pobre” (reinvestindo tudo), mas uma empresa pobre com um dono rico tem data de validade vencida. A falta de definição de um pró-labore claro transforma o CNPJ em um mero caixa eletrônico da família, impedindo a formação de reservas para crises ou expansão.
Por fim, temos o gargalo da centralização, o empresário está ocupado demais apagando incêndios operacionais. Sem processos definidos e sem delegar, a empresa fica limitada à capacidade física de trabalho do fundador. E ninguém cresce sozinho.
A solução para reverter esse quadro não exige, necessariamente, tecnologias de outro mundo ou burocracias de multinacionais. Exige, sim, o que chamo de “o básico bem feito”. A gestão profissional não é um luxo para grandes corporações; é o oxigênio para a sobrevivência do pequeno.
Precisamos, urgentemente, profissionalizar a gestão das PMEs no nosso estado. Isso significa implantar ritos de acompanhamento de resultados, separar as contas bancárias (físicas e jurídicas), precificar com base em dados e criar processos que independam das pessoas.
O Ceará tem potencial para ser não apenas um celeiro de novos negócios, mas um exemplo de longevidade corporativa. Para isso, precisamos aceitar a verdade dura: esforço sem método gera cansaço, mas não gera legado. O mercado mudou, e o amadorismo não tem mais espaço na prateleira.


