Se você é leitor frequente da Techtônica, já percebeu que inteligência artificial é tema recorrente por aqui. Não por acaso: é tanto barulho em torno de uma tecnologia tão disruptiva que precisamos exercitar a lucidez para separar o que a IA de fato é capaz de fazer do que não passa de exagero disfarçado de futurologia.
No início do mês, tivemos em Fortaleza a presença do grande professor, pesquisador e neurocientista Miguel Nicolelis, em um evento da AJE em parceria com a Unifor. Em sua palestra sobre inteligência artificial e inteligência natural, Nicolelis trouxe provocações que desafiam muito o que temos ouvido sobre IA.
Quero destacar dois pontos trazidos por Nicolelis que ajudam a pensar a IA de outra forma. O primeiro é que o que chamamos hoje de inteligência artificial não é inteligente. Para ele, inteligência é uma propriedade da matéria orgânica, algo que emerge de sistemas vivos em interação com o ambiente e não pode ser reduzida a padrões estatísticos ou sequências de instruções digitais.
Ao aceitarmos essa equivalência entre inteligência humana e modelos computacionais, corremos o sério risco de reduzir a própria ideia de inteligência àquilo que as máquinas conseguem reproduzir. E à medida que a IA avança como ferramenta, nossa definição de inteligência pode acabar ficando mais estreita.
O segundo ponto é que a inteligência artificial também não é artificial. Isso porque ela depende do trabalho de milhões de pessoas espalhadas ao redor do mundo para funcionar. Todos os modelos de LLM foram treinados com grandes volumes de dados que precisaram ser organizados, classificados e rotulados. Por trás desse processo, há milhões de pessoas, muitas vezes mal remuneradas e em condições precárias, realizando o trabalho invisível que sustenta uma tecnologia que, contraditoriamente, se vende como autônoma.
Nicolelis encerrou a palestra com um alerta da neurociência: à medida que passamos a delegar funções cognitivas a sistemas externos, o cérebro começa a se reorganizar, reduzindo o uso de capacidades desenvolvidas ao longo de milhares de anos de evolução. Não podemos olhar para a IA apenas pela ótica da produtividade e do ganho econômico que têm guiado as decisões das empresas ao redor do mundo.
A palestra de Nicolelis me fez pensar em como estamos construindo a narrativa sobre inteligência artificial. Estamos prestes a dar um salto importante como humanidade, dada a escala e a velocidade com que a IA está sendo adotada. A dúvida que fica é se estamos fazendo as escolhas certas ou se estamos apenas correndo e sendo levados pelo deslumbramento, sem questionar as suas consequências.


