18ª Edição

Artigo de Opinião | Por que a autenticidade virou o verdadeiro luxo em um mundo excessivamente digital

Por Redação

24/03/2026 12h25

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Por Paulo Guterres, CEO do Grupo DNX

Vivemos um tempo curioso. Nunca tivemos tanta tecnologia, tanta eficiência e tanta capacidade de reproduzir imagens, referências e soluções em escala global. E, paradoxalmente, nunca vimos tantos lugares, casas, hotéis e cidades parecerem tão iguais.

A promessa do mundo digital era ampliar repertórios. O efeito colateral foi outro: a padronização silenciosa da experiência humana. Eu chamo isso de “beigeificação”. Não se trata da cor bege em si. Trata-se da neutralização das identidades. Da tentativa constante de agradar todo mundo e, no processo, não representar ninguém.

A “beigeificação” acontece quando algoritmos começam a decidir estética. Quando tendências substituem histórias. Quando projetos nascem prontos para fotografar, mas não para serem vividos. E esse fenômeno não está restrito ao design ou à arquitetura. Ele é cultural.

Num mundo excessivamente digital, onde tudo pode ser replicado em segundos, a diferença real deixou de estar na técnica e voltou a estar naquilo que sempre foi humano: identidade, memória e pertencimento. Ao longo de mais de duas décadas pesquisando hospitalidade, comportamento humano e formas de morar em mais de cem países, percebi um padrão claro. Os lugares que permanecem na memória não são os mais perfeitos. São os mais verdadeiros. São aqueles onde existe intenção antes da estética.

A humanidade que hoje buscamos não nasce da rejeição da tecnologia. Ela nasce do uso consciente dela. A tecnologia acelera processos, mas não substitui significado. Ela amplia alcance, mas não cria alma. O problema começa quando confundimos eficiência com experiência.

Hotéis passam a repetir fórmulas globais que poderiam estar em qualquer cidade do mundo. Empreendimentos imobiliários priorizam plantas eficientes, mas esquecem narrativas. Casas são projetadas para parecer contemporâneas, mas não para contar a história de quem vive ali. O resultado é um paradoxo: ambientes tecnicamente impecáveis que não geram conexão emocional. E conexão emocional é o que sustenta valor no longo prazo.

Hoje, o verdadeiro luxo não é excesso. É identidade clara. Os projetos mais relevantes do mundo entenderam isso cedo. Marcas de hospitalidade que se tornaram referência global não cresceram apenas pela qualidade operacional, mas pela capacidade de traduzir cultura local em experiência contemporânea. Elas não apagam o território. Amplificam-no.

Porque pessoas não se conectam com lugares genéricos. Pessoas se conectam com significado. No Brasil, e especialmente no Nordeste, existe uma oportunidade única. Durante muito tempo, nossa cultura foi reduzida a caricaturas ou folclorizada. Entre o excesso decorativo e a neutralização estética, perdemos espaço para uma terceira via: a autenticidade sofisticada.

O desafio não é “regionalizar” projetos. É torná-los honestos. Uma casa com identidade não é aquela cheia de referências óbvias, mas aquela que traduz memória, clima, comportamento e história em linguagem contemporânea. Humanizar, hoje, é justamente isso: devolver intenção às decisões. Significa começar projetos perguntando “por quê” antes de perguntar “como”. Significa entender que arquitetura, design e hospitalidade não são apenas entregas físicas, mas ferramentas que moldam relações humanas, pertencimento e bem-estar.

A tecnologia continuará evoluindo. A inteligência artificial continuará acelerando processos criativos. A digitalização continuará transformando mercados. Mas quanto mais digital o mundo se torna, mais humano precisa ser o que permanece. Porque, no fim, não lembramos de lugares perfeitos. Lembramos dos lugares que nos fizeram sentir parte de algo.

E talvez seja essa a grande virada do nosso tempo: a autenticidade deixou de ser discurso cultural para se tornar ativo estratégico. Num mundo onde tudo pode ser copiado, ser verdadeiro virou vantagem competitiva.