Análise

Bets chegam ao ambiente de trabalho e acendem alerta para o RH

Por Lucas Abreu

24/08/2026 13h52

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Apostas online alcançam milhões de brasileiros e começam a desafiar empresas diante de impactos sobre saúde mental, vida financeira e rotina profissional

O crescimento das apostas online no Brasil começa a produzir efeitos que ultrapassam a relação entre jogador e plataforma. No primeiro trimestre de 2026, 15,2 milhões de CPFs únicos apostaram em plataformas autorizadas, segundo dados da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda. O mercado regulado movimentou R$ 7,6 bilhões em receita bruta das empresas no período.

A dimensão desse comportamento ajuda a explicar por que as bets passaram a entrar também na agenda de Recursos Humanos. Quando a aposta deixa de ser uma atividade eventual e começa a consumir renda, comprometer relações, afetar a saúde mental ou interferir na rotina profissional, o problema deixa de estar restrito à vida financeira do trabalhador.

Um levantamento da VR identificou 37 casos de afastamento relacionados a transtornos envolvendo jogos e apostas entre 2022 e 2025, que somaram 976 dias longe do trabalho. Em 2025, foram 21 casos e 620 dias de afastamento, contra 202 dias em 2024. Houve registros de até 89 dias consecutivos.

Os dados ainda são insuficientes para medir o impacto das bets sobre a produtividade ou os custos das empresas brasileiras. Mas já apontam para uma questão que começa a ganhar espaço entre profissionais de Gestão de Pessoas: como reconhecer quando um comportamento privado passa a produzir consequências dentro da organização?

Para Kássia Sales, presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos no Ceará (ABRH-CE), as apostas já chegaram à agenda estratégica do RH. A facilidade de acesso pelo celular ampliou a exposição ao comportamento e tornou o tema mais difícil de ser separado da rotina profissional.

“E eu diria que esse é um tema que já chegou à agenda estratégica do RH. Como presidente da ABRH-CE, tenho acompanhado uma transformação importante na área de Gestão de Pessoas: assuntos que antes eram tratados como exclusivamente pessoais passaram a ser observados também pelos impactos que podem gerar dentro das organizações. As apostas online são um exemplo muito claro disso. O celular tornou o acesso extremamente fácil e o comportamento pode acontecer a qualquer hora e em qualquer lugar”, ressalta.

A fronteira é relevante por impedir que o RH transforme o ambiente de trabalho em um espaço de vigilância sobre a vida privada. Mas ao mesmo tempo, ela exige que gestores estejam preparados para reconhecer mudanças de comportamento que podem ter relação com sofrimento financeiro ou emocional.

“O RH precisa se preparar para lidar com esse assunto sem preconceito, sem julgamento e sem transformar o ambiente de trabalho em um espaço de vigilância. Precisamos preparar principalmente as nossas lideranças. Um gestor precisa saber reconhecer uma mudança importante de comportamento sem imediatamente rotular aquela pessoa como “descomprometida” ou “problemática”. Também precisamos fortalecer programas de educação financeira, saúde mental, escuta, acolhimento e orientação.”

É nesse contexto que a ludopatia, também chamada de transtorno do jogo, entra na discussão de saúde corporativa. Para Mirna Tinoco, diretora de Saúde e Bem-Estar da ABRH-CE, o transtorno envolve mecanismos neurobiológicos semelhantes aos observados em outras dependências, com ativação repetida do sistema de recompensa do cérebro. O comportamento pode se tornar compulsivo e dificultar a interrupção das apostas.

“O comportamento se torna preocupante quando começa a provocar prejuízos e disfuncionalidades na vida da pessoa. Entre os principais sinais estão a dificuldade de controlar ou interromper as apostas, a necessidade de apostar com frequência crescente, a preocupação constante com o jogo e o comprometimento das obrigações pessoais, familiares, financeiras e profissionais. Também podem surgir alterações no sono, endividamento, isolamento social, abandono de atividades que antes proporcionavam prazer, tentativas de recuperar o dinheiro perdido por meio de novas apostas e sofrimento emocional intenso. Quando apostar deixa de ser uma escolha eventual e passa a organizar a rotina e as decisões da pessoa, é necessário buscar ajuda especializada”, afirma.

O impacto financeiro é um dos pontos que aproximam o tema da realidade das empresas. Em situações mais graves, trabalhadores podem comprometer parte significativa ou até a totalidade da renda com apostas, acumulando dívidas e reduzindo a capacidade de manter despesas básicas. O problema pode, então, desencadear uma sequência que passa por estresse financeiro, sofrimento emocional e perda de capacidade de concentração.

“Os impactos psicológicos também podem incluir ansiedade, angústia, culpa, vergonha, irritabilidade e perda de interesse por outras fontes de prazer, condição conhecida como anedonia. Em situações mais graves, também pode ocorrer , sensação de desesperança e intenso sofrimento psíquico. No comportamento, podem ser percebidas mudanças no sono e no apetite, dificuldade de concentração, queda de produtividade, atrasos, ausências, isolamento e conflitos nas relações profissionais. A preocupação constante com as apostas e com as perdas financeiras também pode comprometer a capacidade de tomar decisões e de cumprir responsabilidades no trabalho.”

Para Kássia, essa combinação torna o problema especialmente complexo para a gestão. Nem toda queda de produtividade ou mudança de comportamento estará relacionada às apostas, e cabe ao RH evitar diagnósticos ou julgamentos precipitados.

“Existe um cuidado fundamental: o RH não pode diagnosticar nem rotular. O papel do RH é perceber mudanças de comportamento, acolher, orientar e, quando necessário, encaminhar para uma rede de cuidado. Como presidente da ABRH-CE, eu defendo um RH que não seja fiscal da vida privada, mas que seja estratégico na prevenção e humano na forma de acolher.”

A dimensão social do problema ajuda a entender por que essa discussão não pode ser reduzida a uma questão de produtividade. O estudo A Saúde dos brasileiros em jogo, realizado pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), pela Umane e pela Frente Parlamentar Mista para Promoção da Saúde Mental, estima em R$ 38,8 bilhões por ano os custos econômicos e sociais associados aos danos do jogo problemático no Brasil. A estimativa inclui gastos relacionados à saúde, desemprego, perda de moradia, encarceramento e outros impactos. O levantamento calcula ainda R$ 30,6 bilhões em custos associados à saúde e estima 1,4 milhão de brasileiros em situação de jogo problemático.

O número de afastamentos também aparece na Previdência. Em 2025, primeiro ano do mercado regulado de apostas, os afastamentos por transtornos relacionados à perda de controle com jogos passaram de 425 para 679, alta de 59,8% em relação a 2024. O número é pequeno diante dos milhões de afastamentos registrados pelo INSS, mas chama atenção pela velocidade de crescimento justamente no período de expansão das bets reguladas.

Ainda não há, porém, uma base nacional capaz de responder quanto desse fenômeno se transforma em perda de produtividade, aumento do turnover ou custos diretos para as empresas. É justamente essa lacuna que torna a atuação preventiva relevante.

Educação financeira e acolhimento entram no combate ao vício em apostas

No Grupo Aço Cearense, o tema é tratado dentro de uma estrutura mais ampla de assistência aos colaboradores. O programa Conta com a Gente oferece atendimento psicológico, jurídico, social e financeiro para trabalhadores das suas indústrias e da Sinobras, como também seus dependentes, por meio de atendimento telefônico e presencial.

Segundo Kellen Andrade, gerente de Cultura e Desenvolvimento do grupo, a empresa não divulga números específicos sobre atendimentos relacionados às apostas por causa do caráter sigiloso do programa. A companhia afirma, entretanto, ter percebido maior conscientização dos colaboradores e aumento na procura por orientações preventivas relacionadas à saúde financeira e emocional.

“A atuação da empresa é pautada pelo acolhimento, sigilo e direcionamento adequado. Quando uma situação é identificada ou quando o próprio colaborador procura ajuda, ele pode ser encaminhado ao Programa Conta com a Gente, que disponibiliza apoio psicológico, social, jurídico e financeiro para colaboradores e dependentes. Além do atendimento individual, o RH atua como facilitador do acesso aos recursos disponíveis, respeitando a confidencialidade das informações. O foco é apoiar a recuperação e o fortalecimento do colaborador, promovendo condições para que ele encontre suporte especializado e preserve sua qualidade de vida.”

A estratégia também envolve prevenção. O programa oferece suporte psicológico, social, jurídico e financeiro, além de campanhas, rodas de conversa, plantões psicológicos e ações de educação financeira. A lógica é criar uma porta de entrada para que o trabalhador possa buscar ajuda antes que uma dificuldade financeira ou emocional se transforme em um problema profissional.

A Solar Coca-Cola também ampliou iniciativas nessa frente. Por meio do programa Seu Dinheiro Tem Valor, a companhia realizou ações de educação financeira e prevenção aos riscos das apostas online, combinando conteúdos informativos, consultorias financeiras e apoio psicológico.

Segundo dados fornecidos pela empresa, foram mais de 1.550 participações em ações educativas, aproximadamente 8 mil visualizações de conteúdos em vídeo e mais de 840 diagnósticos financeiros individuais. A companhia também passou a orientar os trabalhadores sobre mecanismos de proteção, como a autoexclusão do CPF em sites de apostas.

Para Rennan Freitas, gerente de Recursos Humanos, Saúde e Bem-Estar da Solar Coca-Cola, a iniciativa parte da compreensão de que a situação financeira pode afetar outras dimensões da vida do trabalhador.

“Entendemos que a saúde financeira está diretamente ligada ao bem-estar emocional e à tranquilidade das famílias dos nossos colaboradores. O objetivo da Solar é oferecer ferramentas reais para que cada colaborador tenha autonomia, segurança e suporte especializado para tomar decisões mais conscientes quando o assunto é dinheiro.”

A estratégia reforça uma mudança na abordagem corporativa sobre o tema. Em vez de esperar que o endividamento ou o comportamento compulsivo apareça como um problema de desempenho, as empresas começam a incorporar educação financeira, prevenção e acolhimento às políticas de saúde e bem-estar.

Para Mirna, porém, ações pontuais não são suficientes para enfrentar um fenômeno que pode se desenvolver de maneira silenciosa. O cuidado precisa estar incorporado à estratégia permanente das organizações:

“As empresas podem implementar políticas permanentes de prevenção e cuidado, como plantão psicológico, grupos de escuta qualificada, campanhas educativas, formação de lideranças e divulgação de informações sobre os riscos associados às apostas. Também é importante orientar gestores e profissionais de RH para reconhecer sinais de sofrimento e realizar uma abordagem acolhedora, responsável e sem estigmatização. Essas ações precisam fazer parte de um programa continuado, porque uma palestra isolada dificilmente produz mudanças consistentes. O cuidado deve combinar informação, prevenção, acolhimento e encaminhamento especializado.”

A especialista também chama atenção para uma distinção importante na discussão sobre riscos psicossociais. A NR-1 determina que as organizações identifiquem, avaliem e gerenciem fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho, mas isso não significa que a norma estabeleça ao empregador a responsabilidade de diagnosticar individualmente casos de ludopatia. A questão está em avaliar se aspectos da organização e das condições de trabalho contribuem para o adoecimento ou agravam situações de vulnerabilidade. O desafio, neste caso, não é transformar o RH em uma espécie de fiscal das apostas, mas construir uma estrutura capaz de reconhecer sinais, orientar lideranças e oferecer caminhos de cuidado sem ultrapassar os limites da privacidade.

“Eu acredito que esse equilíbrio passa, прежде de tudo, pelo respeito. A empresa não pode querer controlar a vida do colaborador fora do trabalho. Cada pessoa tem suas escolhas, sua história, suas dificuldades e sua liberdade. Mas nós, enquanto RH, também precisamos entender que as pessoas não deixam seus problemas na porta da empresa quando entram para trabalhar.”

A expansão das bets, nesse sentido, coloca para as empresas um desafio que vai além da existência ou não de funcionários que apostam. A questão passa a ser como a organização responde quando uma prática individual começa a produzir efeitos coletivos. Para Kássia, a resposta está menos no controle e mais na capacidade de acolher:

“Então, o papel do RH não é investigar, julgar ou expor. É criar um ambiente onde a pessoa se sinta segura para pedir ajuda. Eu acredito muito em um RH que consiga olhar para o colaborador e dizer: “Eu percebi que você não está bem. Como podemos ajudar?” Sem julgamento. Sem preconceito. Sem transformar aquela pessoa em um problema. Ao mesmo tempo, precisamos ter clareza de que acolher não significa deixar de estabelecer limites.”

Os dados ainda não mostram toda a dimensão do fenômeno dentro das empresas brasileiras. Mas, à medida que milhões de brasileiros passam a ter contato frequente com plataformas de apostas e os primeiros sinais aparecem em afastamentos, endividamento e sofrimento psíquico, o tema deixa de ser apenas uma discussão sobre entretenimento ou finanças pessoais.