Análise

Dia da Visibilidade Trans: a importância de tornar visível quem já trabalha

Por Redação

29/01/2026 13h46

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Profissionais trans constroem trajetórias na publicidade, mas ainda enfrentam barreiras de visibilidade

No Dia da Visibilidade Trans, 29 de janeiro, o convite é para ampliar o olhar. Não apenas para quem ocupa os espaços de forma evidente, mas também para quem constrói trajetórias de maneira silenciosa, cotidiana e constante. No mercado da publicidade e do marketing, essa ampliação é necessária para reconhecer profissionais que já estão atuando, criando e contribuindo, mesmo quando suas presenças não são imediatamente percebidas.

A inserção de pessoas trans no mercado de trabalho acontece dentro de um contexto histórico marcado por exclusões e disputas por reconhecimento. Por muito tempo, o acesso ao trabalho formal foi negado a essas existências, o que impacta diretamente as oportunidades que se apresentam hoje. Ainda assim, pessoas trans seguem buscando espaços de atuação, inclusive na comunicação.

Dados de 2024 ajudam a dimensionar esse cenário. O Datafolha estima que cerca de 15,5 milhões de brasileiros pertencem à comunidade LGBTQIA+, o equivalente a 7% da população. No entanto, de acordo com um levantamento realizado em quase 300 empresas, que juntas somam 1,5 milhão de trabalhadores, essa parcela ocupa apenas 4,5% dos postos de trabalho formais. O estudo foi divulgado no segundo episódio da série “De toda a cor”, exibida pelo J10, da GloboNews.

Quando o recorte se volta especificamente para pessoas trans, os números revelam um desafio ainda maior. Segundo o mesmo levantamento, pessoas trans não chegam a ocupar nem 0,5% das vagas formais, representando apenas 0,38% dos postos de trabalho. O dado reforça como a presença trans no mercado segue sendo minoritária, mesmo dentro de políticas mais amplas de diversidade.

Para quem tenta se inserir nesse mercado, a falta de visibilidade não é apenas estatística, é experiência cotidiana. O estudante de publicidade Isaac Bessa, homem trans, aponta que a presença de pessoas trans na área ainda é bastante restrita e, muitas vezes, condicionada a espaços específicos. Segundo ele, hoje é mais comum ver pessoas trans atuando em grandes equipamentos de cultura, geralmente ligados a iniciativas governamentais, onde há algum incentivo à contratação de pessoas LGBTQIA+. “Hoje a gente consegue ver pessoas trans com alguma visibilidade, principalmente trabalhando em grandes equipamentos de cultura. Nesses espaços, existe um incentivo à contratação de pessoas LGBTQIA+, o que é muito importante. Mas, quando a pessoa trans tenta trabalhar em uma agência comum, muitas vezes ela não é contratada”, relata.

Mesmo quando conseguem uma vaga, a visibilidade ainda é limitada. Isaac destaca que pessoas trans raramente ocupam posições de linha de frente na publicidade, como atendimento ou cargos que exigem maior exposição. “Pessoas trans quase nunca são colocadas na linha de frente. Geralmente ficam nos bastidores. Isso não quer dizer que não existam pessoas trans no mercado publicitário, porque elas existem, estão trabalhando, estudando e atuando também dentro da academia. O problema é que ninguém sabe que elas existem”, afirma.

A visibilidade, nesse contexto, passa por criar ambientes onde pessoas trans possam não apenas entrar, mas permanecer e crescer. Envolve reconhecer talentos, abrir caminhos de desenvolvimento e compreender que diversidade também se constrói a partir da escuta e do reconhecimento de quem já está ali.

No Dia da Visibilidade Trans, falar sobre o mercado de trabalho é, sobretudo, um exercício de atenção. Atenção às presenças que existem, às trajetórias que estão sendo construídas e à importância de tornar visível quem já contribui, diariamente, para o setor.