4ª edição - Brasília

Entrevista | Decidir rápido, pensar profundo: a visão de André Rocha sobre liderança, indústria e futuro

Por Redação

24/02/2026 13h00

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Ao longo da sua trajetória, André Rocha aprendeu que liderança não é um título, é influência real na vida das pessoas, principalmente nos setores que movem o país. Vindo da construção civil e chegando à bioenergia, entendeu que desenvolvimento sustentável só faz sentido quando alcança toda a sociedade. Como presidente da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (FIEG), ele compartilha reflexões sobre como equilibrar urgência e consciência, construir consensos e liderar transformações que conectam pessoas, empresas e futuro.

NOSSO MEIO | Vivemos um tempo de decisões cada vez mais rápidas. Como um líder de uma federação estratégica consegue manter clareza, propósito e consciência sem ser engolido pela urgência do dia a dia?

André Rocha: Acho que temos que nos cercar de pessoas que nos ajudem a pensar, não necessariamente que pensem da mesma forma, mas que tenham um pensamento crítico para que possamos errar menos na tomada de decisões. Hoje estamos em um período com o maior número de informações, mas infelizmente grande parte delas não são verdadeiras. Então, além de receber informação, você acaba tendo um trabalho de filtro.

A questão de ter senso crítico, paciência, colocar-se no lugar do outro e cercar-se de bons conselhos ajuda a tomar as melhores decisões naquele momento. Porque muitas vezes, com o passar do tempo, refletimos que algumas decisões não foram as melhores, mas nem sempre temos todas as informações disponíveis. Como diz a famosa frase: engenheiro de obra pronta é mais fácil.

Você tem que analisar as informações que tem, o time que tem, a velocidade necessária e as consequências de uma demora na resposta. O ditado diz que a pressa é inimiga da perfeição, mas muitas vezes precisamos de agilidade. Precisamos saber separar o que é urgente do que é estrutural. Na Federação da Indústria, representamos várias indústrias de diversos segmentos. Temos que ter parcimônia e equilíbrio, porque muitas vezes há divergências dentro do mesmo segmento ou entre segmentos diferentes.

NOSSO MEIO | Na sua trajetória, em que momentos desacelerar foi mais estratégico do que acelerar, e o que isso ensinou sobre liderança madura?

André Rocha: Já tive oportunidade de participar de várias entidades. Quando você lidera uma entidade, precisa ter capacidade de construir consenso, ter mais equilíbrio na decisão. Liderar uma federação é diferente de liderar uma empresa. Numa empresa você tem mais autonomia, a discussão interna é mais fácil do que dentro de uma associação, onde há diversidade de associados por tamanho, localização geográfica, produção ou setores diferentes.

Na FIEG, tenho 35 sindicatos representando setores diversos. Uma das questões é sempre buscar clareza, transparência, honestidade no debate e coerência para ouvir os dois lados. O exercício contraditório é sempre importante: ouvir, refletir sobre o que é falado, buscar opiniões, conselhos.

Muitas vezes, desacelerar é uma questão estratégica para acalmar os ânimos. Existem situações em que dormir sobre o assunto ajuda na reflexão e na tomada de decisão. É fundamental buscar mais a razão do que a emoção.

NOSSO MEIO | A pressão por resultados imediatos muitas vezes entra em conflito com decisões de longo prazo. Como equilibrar performance, impacto e responsabilidade?

André Rocha: Isso faz parte da gestão. Precisamos pensar primeiro na realidade da empresa ou do setor. Às vezes é preciso tomar decisões no curto prazo, principalmente para estancar problemas ou aproveitar oportunidades que requerem agilidade. Mas é sempre importante refletir, pensar a médio e longo prazo, fazer planejamentos estratégicos.

Hoje as empresas precisam ser cada vez mais competitivas, evitar desperdícios e ser eficientes. Essa questão da competitividade é de médio e longo prazo para que possamos nos posicionar melhor no mercado. Quando nos cercamos de informações, bons conselhos e temos oportunidade de refletir, acabamos errando menos, seja em decisões de curto ou longo prazo.

NOSSO MEIO | Como evitar que a velocidade do mercado leve a decisões automáticas, pouco humanas ou desconectadas das pessoas que fazem a organização acontecer?

André Rocha: Na FIEG temos 35 sindicatos representando cerca de 26, 27 setores da economia goiana. Quando estamos à frente da diretoria, é importante conhecer cada vez mais os setores. E a melhor maneira é conhecer o chão de fábrica, fazer visitas, conversar com gestores e trabalhadores, sentir suas dores, ouvir experiências de presidentes de sindicatos que vivem aquilo diariamente.

Quando você está dentro da empresa, o ideal é conversar com as pessoas desde o início da operação, estar mais próximo, trocar ideias com a equipe. Por outro lado, é importante ouvir não só da sua empresa, mas de outras empresas do setor, de sindicatos, de outros setores, discutir nacionalmente os problemas. Por exemplo, se você ouve qual é a percepção do Rio Grande do Sul, da Bahia, de Goiás, de Santa Catarina sobre o mesmo tema, isso ajuda a tomar decisões mais corretas.

Ouvir as pessoas é sempre fundamental. Toda empresa, toda indústria é feita por pessoas e para pessoas, que são os clientes. Esse diálogo, essa interação é sempre importante.

NOSSO MEIO | Na prática, como um líder pode criar espaços de reflexão e escuta dentro de ambientes altamente competitivos e orientados a metas?

André Rocha: O sistema de federação tem vários pilares. Temos institutos que podem ajudar muito, por exemplo, através de parcerias entre empresas e escolas, entre academias e empresas. Podemos ajudar com planejamento estratégico, podemos ajudar os municípios a melhorar saúde e educação.

Temos o Sesi, que tem um lado social voltado para saúde e segurança do trabalhador, campanhas de vacinação, perícias médicas. Temos o Senai, que ajuda muito na qualificação profissional técnica. Lembrando que quando falamos de qualificação técnica, ela tem que começar lá na base. Por isso estamos cada vez mais estimulando a criação de novas escolas do Sesi, para elevar a qualidade da educação básica.

Quanto melhor a alfabetização, melhor o profissional vai se qualificar. Temos toda essa coordenação feita através da FIEG, que trabalha junto com os poderes públicos estadual, municipal e federal, trabalhando com políticas públicas para dar competitividade às empresas.

NOSSO MEIO | Em um contexto em que Goiás tem crescido acima da média nacional, como a FIEG pretende fortalecer a competitividade das indústrias locais para ampliar a presença no mercado nacional e internacional?

André Rocha: Precisamos nos conectar com os nossos associados, dar instrumentos a eles através do Senai, dos institutos, ajudá-los a ter processos cada vez mais inovadores. Estamos levando cursos de inteligência artificial para todos os segmentos.

Precisamos investir de forma cada vez mais consciente e eficiente em educação para melhorar a produtividade. Precisamos investir cada vez mais em inovação e fortalecer o diálogo entre setor público e setor privado. Isso é muito importante para que as empresas sejam mais competitivas.

Além da competitividade, é preciso ter crescimento sustentável, do ponto de vista econômico, social e ambiental. Se não tivermos sustentabilidade econômica, vamos perder. Precisamos modernizar o capitalismo, que é uma forma eficiente de organização. Uma das questões é melhorar o poder de compra da sociedade.

A distribuição de renda é importante, mas na minha opinião deve ser feita com o instrumento mais eficiente: o emprego. Para isso, temos que discutir redução de encargos sociais para ter empregos de mais qualidade. O diálogo é uma ferramenta importante, a parceria é uma ferramenta importante. Temos bons exemplos em Goiás, como o Fórum de Empresariado. O diálogo claro, transparente, com a sociedade e sobretudo com o poder público é essencial.

NOSSO MEIO | O que você acredita que o Brasil — especialmente seus líderes empresariais e institucionais — precisa aprender agora para liderar com mais consciência no futuro?

André Rocha: O Brasil precisa ter um projeto de médio e longo prazo, não de solução imediata. Precisamos parar de ter aqueles crescimentos chamados de voo de galinha. O Brasil precisa ter um projeto de desenvolvimento e isso passa muito pela educação.

Temos uma carga tributária cara, somos um país caro sem ser rico. Quando você pega a carga tributária dos países nórdicos, escandinavos, a carga é alta, mas você tem serviço de qualidade que a população recebe. Não é o caso do Brasil.

O Brasil tem que estimular investimentos, seja reduzindo impostos, carga tributária, encargos sociais. Os estados que cresceram acima da média nacional nos últimos anos foram os que reduziram impostos via incentivos fiscais. No Brasil, o setor que mais se destacou foi justamente o agro, que tem carga tributária menor. Mas ainda tem muita coisa para melhorar mesmo no agro. Se pegarmos qual é a produtividade — quantos litros de leite uma vaca produz no Brasil comparado à Nova Zelândia, à Argentina — você vê que há espaço para crescimento. Precisamos investir mais em pesquisa, ter mais investimentos em patente.

A questão nossa, primeiro, é saber trabalhar em conjunto. Precisamos ter mais tolerância, mais respeito, mais empatia. Se conseguirmos avançar aumentando o emprego pelo aumento da produção, e não pelo aumento de gastos públicos, vamos progredir como sociedade. Fé, trabalho e responsabilidade sempre foram os pilares que orientaram minhas escolhas, e seguem sendo o caminho para transformar desafios em oportunidades reais de crescimento para Goiás e para o Brasil.