4ª edição - Brasília

Matéria | A ciência do descanso: pausas estratégicas podem aumentar a produtividade

Por Redação

24/02/2026 12h45

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Entre a exaustão e a performance, psicólogo e empresário mostram como o ritmo de trabalho impacta foco, criatividade e tomada de decisão

A rotina corporativa contemporânea tem mostrado que a ausência de pausas compromete não apenas o bem-estar, mas também a qualidade do foco, da memória e da tomada de decisão. Interromper brevemente uma tarefa passou a ser entendido como parte do próprio processo produtivo.

Para o psicólogo Yan Siqueira, a lógica é simples e biológica. “Em resumo: parar um pouco faz você render mais e se manter psiquicamente saudável. E isso não é apenas um discurso motivacional, é a forma como o cérebro funciona. Estudos mostram que ele não foi feito para operar em rendimento máximo por horas seguidas. Pelo contrário, precisa de pausas, inclusive como forma de recompensa”, explica.

Ainda segundo o psicólogo, há uma comparação imprecisa entre o mundo corporativo e o esporte de alto rendimento. Enquanto atletas possuem rotinas de recuperação rigorosamente estruturadas, o ambiente de escritório frequentemente “romantiza” a exaustão, o que, segundo ele, é contraproducente para o desempenho a longo prazo.

“Quando tentamos forçar longos períodos de atenção e foco contínuos, o cérebro começa a falhar. A memória é um bom exemplo disso. Ao estudar ou trabalhar sem parar, o cérebro até recebe as informações, mas não consegue organizá-las adequadamente”, complementa.

Essa cultura de esforço contínuo se conecta diretamente à pressão por respostas imediatas, agendas sobrecarregadas e decisões tomadas sob constante urgência. Para Bob Wei, fundador e presidente da Chinarte Cultura e Comunicação, esse modelo é comum em mercados altamente competitivos, mas exige adaptações quando aplicado a outros contextos.

“A chamada ‘cultura da urgência’ faz parte do DNA da maioria das empresas chinesas, especialmente em mercados altamente competitivos como o da própria China. Trata-se de um ambiente em que velocidade, pressão por resultados e disponibilidade quase total são vistos como fatores naturais de produtividade e sobrevivência.”

Segundo Bob Wei, quando essa lógica é aplicada sem ajustes à realidade brasileira, surgem desgastes, desalinhamentos internos e perdas na qualidade das decisões. O desafio, especialmente para lideranças, é encontrar um ponto de equilíbrio entre agilidade e reflexão.

Pausa x perda de ritmo

Na psicologia da criatividade, a pausa sempre ocupou um papel central. Yan retoma a teoria clássica de Graham Wallas, que propõe um modelo do pensamento criativo dividido em quatro etapas: preparação, incubação, iluminação e verificação. É justamente na fase de incubação que o afastamento momentâneo da tarefa se torna essencial. Trata-se de um processo inconsciente, no qual o cérebro continua operando, estabelecendo conexões entre informações e experiências prévias, até que a solução emerge como um insight.

“Muita gente ainda associa a pausa à perda de ritmo. Pausa e descanso não são a mesma coisa. O descanso, de fato, marca uma mudança de ritmo e cria o espaço necessário para voltarmos nossa atenção a outras demandas que compõem a vida. As pausas breves durante o horário de trabalho, por sua vez, podem trazer benefícios importantes: ajudam na retenção de informações, fortalecem os vínculos com os colegas e recarregam nossa ‘bateria’ de foco, permitindo a realização das tarefas com mais qualidade e menor risco de retrabalho. Do ponto de vista da psicologia da criatividade, mais especificamente a partir das contribuições do psicólogo e educador Graham Wallas, pausa ocupa um papel central no processo criativo”, elucida.

Do ponto de vista da liderança, a falta de pausas também impacta diretamente o processo decisório. Bob Wei destaca que decidir rápido não significa agir sem critério, mas sim contar com repertório e experiência para lidar com ambientes de alta pressão: “agilidade é fundamental, mas ela só é sustentável quando vem acompanhada de repertório, conhecimento do mercado e clareza sobre os objetivos. Decidir rápido não pode significar decidir sem método; significa decidir com base em critérios já consolidados ao longo do tempo”, diz.

Já Yan reforça que a ausência de intervalos gera a chamada fadiga de decisão. Sob pressão contínua, a tendência é a adoção de escolhas impulsivas ou excessivamente conservadoras. Atividades simples, como caminhadas curtas ou alongamentos, ajudam a reduzir a tensão acumulada e restaurar a capacidade de foco.

Para o psicólogo, a cultura do “sempre ocupado” ainda domina muitos escritórios, mas a experiência prática aponta para outro caminho. Pausas estratégicas passaram a ser entendidas como ferramentas de performance. Interromper o trabalho por alguns minutos, levantar, respirar ou simplesmente olhar para longe significa permitir que o cérebro faça o que ele sabe fazer melhor quando não está sob pressão constante: organizar, conectar e criar.