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Mulheres na liderança cearense: gestão e desafios invisíveis

Por Redação

08/03/2026 09h00

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Por Fabiana Fernandes Moura, Diretora de Gente, Marketing e CRM do Grupo Lagoa

A liderança corporativa exige decisões rápidas. Mas, para muitas mulheres, antes da primeira decisão do dia, já houve uma longa lista invisível a cumprir.

O varejo é um dos setores que mais dialogam com o cotidiano das pessoas. No Ceará, essa conexão se traduz em proximidade, geração de emprego e impacto direto na economia local. Nesse cenário, a presença feminina na liderança tem contribuído para ampliar perspectivas, fortalecer equipes e impulsionar resultados.

Estudo da FIA Business School aponta que as mulheres representam cerca de 38% dos cargos de liderança no Brasil, enquanto a proporção de mulheres na diretoria e C-Level é de apenas 28%, um número ainda distante da equidade, evidenciando que o acesso aos espaços estratégicos continua sendo um desafio estrutural. Parte desse desafio é visível. Parte é invisível.

Em uma atividade com funcionárias da empresa, propusemos um exercício simples: listar as tarefas relacionadas à gestão do lar, orçamento doméstico e vida familiar, marcando quem era responsável por cada item. O resultado foi revelador. Muitas se surpreenderam ao perceber que, embora trabalhem fora e contribuam financeiramente tanto quanto seus companheiros, a maior parte dos cuidados com a casa, com os filhos e com a organização da rotina familiar permanecia sob sua responsabilidade.

Essa é a chamada carga mental, o conjunto de responsabilidades invisíveis que consomem energia, atenção e tempo. Não se trata apenas de executar tarefas, mas de lembrar, planejar, organizar e antecipar necessidades. É um trabalho silencioso que acompanha muitas mulheres mesmo após o expediente formal.

Essa sobrecarga impacta diretamente a trajetória profissional. Não por falta de competência, mas pela ausência de equilíbrio na divisão de responsabilidades. Quando discutimos a ampliação da presença feminina em posições estratégicas, é fundamental considerar esse contexto.

No varejo alimentar, liderar significa equilibrar eficiência operacional, relacionamento com fornecedores, experiência do cliente e estratégia. Exige disciplina financeira e visão sistêmica. No varejo cearense, vemos cada vez mais mulheres assumindo posições de liderança e contribuindo para a modernização da gestão. Ainda assim, muitas carregam uma sobrecarga que não aparece nas planilhas nem nas métricas de desempenho.

Equidade no trabalho exige corresponsabilidade na vida familiar. Trata-se de uma transformação cultural dentro das empresas e dentro das casas. Dividir tarefas não é apenas uma questão doméstica, mas sim um fator que impacta produtividade, saúde mental e disponibilidade para assumir novos desafios profissionais.

O varejo cearense já conta com a força feminina em sua base e também em muitas lideranças. Para ampliar ainda mais essa presença nas posições de decisão, é necessário reconhecer os obstáculos visíveis e invisíveis que ainda persistem.

Para liderar na empresa, é preciso dividir o jogo em casa.