Um vídeo de 15 segundos está tirando o sono de executivos e estúdios em Hollywood. Brad Pitt e Tom Cruise protagonizam uma luta no topo de um prédio em ruínas ao entardecer. A cena tem ritmo de blockbuster, fotografia cinematográfica e sound design impecável. Só tem um detalhe: foi tudo gerado pelo Seedance 2.0, a nova ferramenta de geração de vídeo por IA da gigante chinesa ByteDance, lançada no início de fevereiro.
Infrações de direitos de imagem e pânico na indústria do cinema à parte, o movimento que me chama a atenção é outro. Estamos entrando em uma fase em que a distância entre ideia e execução está colapsando. Modelos avançados de IA criam campanhas, desenvolvem aplicativos, produzem vídeos e organizam planos estratégicos em segundos. Mas quando a barreira técnica deixa de ser diferencial e todos passam a fazer entregas semelhantes, para onde vai o verdadeiro valor das empresas?
Na era do deixa-que-a-IA-resolve, o que mais importa não é a ferramenta utilizada, mas os ativos construídos ao longo do tempo. Propriedade intelectual, bases de dados proprietárias, tecnologia exclusiva, direitos autorais e marcas registradas são exemplos de ativos que a inteligência artificial consegue imitar na superfície. Mas a legitimidade e a reputação acumulada por trás deles levam anos, às vezes décadas, para serem construídas.
Não é por acaso o interesse da Netflix em adquirir a divisão de streaming e estúdios da Warner Bros. Discovery. Se a operação for aprovada pelas autoridades regulatórias, a Netflix poderá criar conteúdos originais a partir de franquias que moldaram gerações, de O Mágico de Oz e Universo DC a Harry Potter e Game of Thrones, passando por Friends, The Big Bang Theory e personagens históricos da Hanna-Barbera.
Esse movimento não é exclusivo da indústria do entretenimento. A Embraer construiu décadas de propriedade intelectual em engenharia aeronáutica que sustentam sua competitividade mesmo diante de gigantes globais. O Nubank transformou uma base de mais de 100 milhões de clientes e um NPS fora da curva em ativos estratégicos tão valiosos quanto qualquer tecnologia que rode por trás do app. E o iFood acumulou ao longo de anos dados proprietários sobre o comportamento de consumo alimentar de milhões de brasileiros (uma vantagem que será posta à prova com a chegada da Keeta ao mercado brasileiro).
Que lições a gente consegue tirar disso? Em um mundo onde qualquer ferramenta pode ser copiada ou superada, o que protege uma empresa não é o que ela usa, mas o que ela constrói. Quem tem ativos sólidos pode usar a IA como motor para acelerar processos, reduzir custos e ampliar a escala. Quem ainda não tem, já está atrasado. Porque, como já disseram, se você não gosta de mudança, vai gostar menos ainda da irrelevância.


