Hamine Frota, mestranda em Ciências da Comunicação pela ECA-USP
O lançamento da série Os Donos do Jogo pela Netflix representa mais que um sucesso de audiência: trata-se de um fenômeno sintomático da cultura pop contemporânea e de um novo marco na produção audiovisual do Sul Global. Tornando-se a série brasileira mais assistida da plataforma e liderando o ranking global de séries em língua não inglesa em sua semana de estreia, a produção consolidou a aposta da plataforma em narrativas locais com potencial global e na estética da “máfia tropical” dentro da ecologia midiática do streaming, combinando violência urbana com o fascínio do carnaval e do luxo carioca.
Esse desempenho reforça uma tese central da economia midiática contemporânea: o produto mais valioso não é o conteúdo, mas a atenção que ele é capaz de capturar. O impacto de Os Donos do Jogo ultrapassou a própria Netflix, impulsionando o documentário Vale o Escrito (2023) de volta aos mais vistos da Globoplay e fazendo as buscas por “jogo do bicho” aumentarem 142%. Esse fenômeno evidencia que a ficção opera hoje como vetor de reorganização da curiosidade pública e como dispositivo de orientação do consumo do real dentro da ecologia comunicacional atual.
O diferencial da série está na escolha narrativa que desloca o foco da mecânica criminal para as dinâmicas de poder familiar, sucessão, disputas territoriais e estratégias de ascensão social. Embora não seja uma obra de true crime, a série opera em uma zona cinzenta entre ficção e reconhecimento. O público, munido do repertório trazido pela série documental da Globoplay, tende a realizar um exercício constante de identificação, associando os clãs da ficção às famílias reais da contravenção carioca. É uma história de violência recebida menos como tragédia e mais como um melodrama luxuoso de alianças, disputas e traições.
Sob a lógica da modernidade líquida, marcada por instabilidade e excesso de estímulos, o público encontra nessas narrativas uma tentativa de organizar o caos social. A curiosidade pelo submundo do crime organizado vira motor de consumo, e o mercado transforma ansiedades coletivas em produtos midiáticos rentáveis que se ajustam às dinâmicas contemporâneas de consumo cultural.
Ao construir um universo ficcional inspirado em eventos reais, a plataforma se liberta das amarras éticas e legais que restringem o documentário. A notoriedade histórica do jogo do bicho funciona como atrativo inicial, mas o conteúdo entregue gira em torno da complexidade dos personagens e da disputa por poder. Esse enquadramento aproxima a produção tanto da tradição melodramática das telenovelas quanto de épicos de disputa dinástica como Succession e Game of Thrones, facilitando a conexão emocional com personagens cujas moralidades são ambíguas.
Essa estratégia narrativa é sustentada por uma estética cinematográfica pop. A direção de arte, com cenários luxuosos e iluminação dramática, suaviza a gravidade dos atos ilícitos e transforma o Rio de Janeiro em um agente narrativo. A localização não é apenas um pano de fundo, mas um personagem central que confere identidade à obra. A presença de locais que são signos cariocas como os barracões das escolas de samba, o calor das praias e o luxo de Angra dos Reis, ajuda a compor a estética da “máfia tropical”. O resultado é um simulacro hiperrealista do submundo carioca, onde a violência é estetizada e o crime se torna um espetáculo visual alinhado às lógicas de consumo do streaming.
A escalação de atores carismáticos e de grande apelo popular, como Juliana Paes, Mel Maia e André Lamoglia, é estratégica. A beleza e a química do elenco geram uma identificação dramática e o carisma da performance se sobrepõe, muitas vezes, à natureza criminosa das ações representadas. A ficção permite ao público torcer por anti-heróis jovens e atraentes sem o desconforto moral imediato do fato real. Nesse processo, a linha entre representação e romantização se torna tênue, pois a complexidade atribuída aos personagens pode suavizar a percepção pública sobre o impacto social do crime organizado.
Paradoxalmente, essa leveza narrativa também explica seu êxito comercial. Uma abordagem mais densa e moralmente explícita dificultaria o engajamento do espectador, enquanto o formato pop entrega o frisson do tema sem o peso emocional correspondente. Essa estratégia pode ativar uma empatia seletiva: o público se vê torcendo pelo sucesso do contraventor carismático e pela herdeira esperta, atraído pela química e beleza do elenco, deixando em segundo plano a origem ilícita de seus impérios.
Embora a obra estimule debates sobre o universo da contravenção, seu ponto mais sensível reside na forma como o crime é embalado e consumido. Inspirada em figuras reais, a série opera com liberdade criativa capaz de reorganizar e, por vezes, distorcer a memória social. A complexidade dramática dos personagens enriquece a trama, mas demanda do público discernimento constante quanto a gravidade do crime organizado. Recuperar essa distinção é fundamental. A construção dramática não deve ser confundida com uma defesa moral. Sem essa clareza, a obra corre o risco de transformar a violência urbana e a ilegalidade em mero recurso estilístico.
Os Donos do Jogo demonstra que o desafio contemporâneo não é apenas contar histórias inspiradas no real, mas ter plena consciência das implicações éticas de como escolhemos contálas e, principalmente, de como escolhemos consumi-las. A produção confirma o vigor comercial das narrativas brasileiras no mercado global, evidenciando que histórias locais, quando bem articuladas, alcançam ressonância universal. O streaming, por sua vez, mostra-se capaz de monetizar o fascínio pelo proibido, oferecendo não exatamente a história do crime em si, mas a hiper-realidade melodramática construída ao redor dele.


