À frente da FKD Influencers, executivo defende a descentralização do marketing de influência e aposta na força do regionalismo
Em um mercado historicamente guiado por números inflados, métricas superficiais e tendências importadas, Francisco Dal Molin construiu sua trajetória seguindo um caminho inverso. CEO e sócio da FKD Influencers, ele se tornou uma das vozes mais atentas à transformação da creator economy no Brasil ao defender que influência não se mede apenas por seguidores, mas por contexto cultural, verdade e capacidade real de conexão com comunidades.
Longe do modelo tradicional de agenciamento de talentos, a empresa atua como uma consultoria estratégica de planejamento de influência, combinando dados, curadoria rigorosa e leitura cultural para gerar impacto concreto para marcas. Para ele, a creator economy não se resume à produção de conteúdo, mas à construção de estratégias de negócio consistentes, com objetivos claros, mensuração contínua e respeito ao processo criativo dos influenciadores.
Essa visão crítica nasce, em parte, da observação dos erros recorrentes que ainda permeiam o mercado. Dal Molin aponta que muitas marcas seguem tratando influenciadores como simples mídia paga, impondo roteiros engessados, excesso de ativos de marca e conteúdos com “cara de publicidade não nativa”. O resultado, segundo ele, costuma ser artificial, pouco orgânico e com menor credibilidade junto à audiência. Outro equívoco frequente é a lógica de campanhas pontuais, sem visão de longo prazo, que dificulta a construção de narrativas consistentes e a relação de confiança.
Esse olhar se conecta diretamente a uma de suas principais bandeiras: o chamado “Brasil com S”. Defensor da regionalização da influência, Dal Molin questiona a concentração do mercado na chamada bolha da Faria Lima e propõe um deslocamento do eixo para o Brasil real, formado por diferentes sotaques, hábitos de consumo e expressões culturais. Na sua visão, um influenciador com 50 mil seguidores no interior do Nordeste ou do Sul pode gerar mais impacto comercial do que uma celebridade nacional, justamente pela proximidade, credibilidade e identificação com sua audiência local.
“Ainda há uma dependência excessiva do tamanho da audiência na escolha dos criadores. Priorizar apenas o número de seguidores ignora fatores essenciais como afinidade temática, qualidade da comunidade e capacidade real de influência”, afirma Dal Molin, que defende um mix equilibrado entre macro, mid e micro creators, combinando alcance com profundidade de conexão.
O tema ganhou visibilidade em palcos como o YouPix Summit, maior evento de influência da América Latina, onde Dal Molin apresentou reflexões sobre regionalismo, descentralização e cultura digital. Sua tese é clara: o conteúdo relevante está sendo produzido em todos os cantos do país, e as marcas que ignoram essa diversidade perdem não apenas alcance, mas relevância cultural.
Na prática, essa filosofia se traduz na operação da FKD. A agência aposta em curadoria de creators com comunidades nichadas, engajadas e alinhadas a territórios culturais específicos, fugindo do óbvio e do hype passageiro.
“Dados são parte central do processo, mas não caminham sozinhos. A FKD trabalha com dashboards integrados, ferramentas analíticas e recursos de inteligência artificial para acompanhar métricas quantitativas e qualitativas, analisar sentimentos nos comentários, identificar percepções de marca e ajustar rotas em tempo real”, elucida.
Para ele, criatividade e performance não são forças opostas. “Ninguém conhece melhor sua audiência, a linguagem da plataforma e o que performa do que o próprio influenciador. Garantimos que criatividade e performance não sejam escolhas excludentes, mas dimensões complementares do mesmo trabalho”, explica. A cocriação, segundo ele, é o ponto de equilíbrio entre estratégia, dados e autenticidade.
Além da publicidade, Dal Molin enxerga o influenciador como um agente cultural, social e comportamental. “Creators participam ativamente da construção simbólica do nosso tempo, ajudando a legitimar narrativas, dar visibilidade a territórios antes periféricos e traduzir temas complexos para uma linguagem acessível. Esse papel ampliado exige responsabilidade, ética e alinhamento de valores, tanto dos influenciadores quanto das marcas”, esclarece.
Em um cenário de amadurecimento e maior profissionalização do setor, Dal Molin acredita que o marketing de influência caminhará para relações mais profundas, modelos always-on e parcerias de longo prazo. Para ele, a influência que realmente funciona é aquela que entende o Brasil em sua pluralidade, respeita o processo criativo, investe em dados sem perder a sensibilidade cultural e reconhece o valor de cada território, comunidade e voz.


