O mês de janeiro é marcado pelos recomeços, especialmente os de rotina. Entretanto, simplicidades como o retorno ao ambiente de trabalho têm transformado janeiro em um mês de ansiedade recorrente, estresse e desmotivação silenciosa. Em terras internacionais, esse desconforto recorrente que abala a saúde mental ganhou nome: Fear of Returning to the Office. No Brasil, ele aparece de forma menos declarada, mas a realidade já demonstra sinais de um problema silencioso e perigoso para a retenção de talentos.
O estudo “Saúde Mental em Foco: Desafios e Perspectivas dos Trabalhadores Brasileiros”, realizado pela Vittude em parceria com a Opinion Box, demonstrou que 66% dos colaboradores já tiveram sua saúde mental afetada por conta do estresse no trabalho. Além disso, o Instituto Nacional do Seguro Social apontou que os número de afastamentos no 1º semestre de 2025 superou mais da metade dos casos de 2024, mostrando que a tendência não está desacelerando.
Juliana Arruda, coordenadora geral do curso de Psicologia da Universidade Christus, explica que a recorrência de relações alienantes, ausência de escuta, metas inatingíveis e invisibilização do sujeito podem podem tornar o ambiente de trabalho em um espaço de violência simbólica. E em meses como janeiro, onde os trabalhadores retornam após um período de maior autonomia e regulação emocional com o recesso, a probabilidade da intensificação de quadros de ansiedade ou burnout já existentes é maior:
“O recesso é vivido como uma suspensão temporária da lógica vivida anteriormente, e isso ativa processos de autorregulação emocional, mas não anula os processos já iniciados anteriormente. Dessa forma, se o colaborador já estava enfrentando um processo de adoecimento, ao retornar ao contexto anterior, ele intensifica as emoções já vivenciadas. Além disso, quando a pausa é interrompida bruscamente e sem preparação subjetiva, o sistema psíquico pode ser sobrecarregado. Para sujeitos já em zona de vulnerabilidade (emocional ou física), esse retorno pode funcionar como um gatilho, exacerbando sintomas ansiosos ou sinais de burnout. A ausência de mediações institucionais (como escuta, flexibilização e cuidado) intensifica esse quadro.”
Apesar de não ser uma doença que possa ser diagnosticada, o Fear of Returning to the Office apresenta sintomas comportamentais, físicos, emocionais e cognitivos. Segundo pesquisas internacionais como as Microsoft Work Trend Index, Future Forum/Slack e Gallup, o fenômeno contextual está ligado a:
- Ansiedade e desconforto ao pensar no retorno ao ambiente de trabalho;
- Distanciamento emocional da empresa;
- Fadiga mental, mesmo sem aumento de carga de trabalho;
- Perca de foco e produtividade;
- Dores de cabeça, estômago e musculares;
- Alteração de sono;
- Aumento de pedidos de demissão;
“Esses quadros não podem ser compreendidos apenas como reações fisiológicas isoladas; eles expressam, em profundidade, o sofrimento psíquico de sujeitos imersos em contextos laborais que frequentemente se afastam do sentido e da atividade criadora. Há uma constante sensação de inadequação, de estar ‘em dívida’ com exigências externas desumanizadas, o que evidencia um distanciamento entre o sujeito e a possibilidade de se reconhecer como agente de sua própria experiência no trabalho”, ressalta Juliana Arruda.
O Fear of Returning to the Office também se relaciona diretamente com fatores logísticas e relacionados a flexibilidade. Trânsito pesado, tempo extra de deslocamento e modelos presenciais rígidos de trabalho estão diretamente ligados ao medo ou resistência de voltar ao escritório. E os dados comprovam: já que conforme dados do Ministério do Trabalho mostraram que, em uma pesquisa com 53.262 demissionário voluntários, 15,7% citaram a falta de flexibilidade da jornada e 21,7% mencionaram dificuldade de mobilidade entre casa e trabalho, como motivos para os pedidos de demissão.
“Embora existam particularidades em cada formato, tanto o retorno totalmente presencial quanto o modelo híbrido rígido podem ocasionar os mesmos tipos de adoecimento psíquico, caso o trabalhador não seja reconhecido em sua integralidade. A clínica mostra que o impacto não está apenas no formato em si, mas principalmente na forma como o colaborador é visto, escutado e incluído nas decisões sobre sua rotina de trabalho. Quando há rigidez, metas inalcançáveis e ausência de políticas efetivas de cuidado, o sofrimento tende a se manifestar, independentemente do regime adotado”, aponta Juliana Arruda. “Por outro lado, ambientes que promovem práticas de escuta, respeito ao ritmo individual, segurança emocional e ações concretas voltadas à promoção e prevenção em saúde mental criam condições mais saudáveis, seja no presencial, no híbrido ou no remoto. O que define o impacto clínico é a qualidade da relação entre sujeito e instituição, não apenas a arquitetura do expediente”, finaliza.


