Todo ano acontece a mesma coisa. Chega o Dia Internacional da Mulher e, de repente, as empresas descobrem as mulheres. Aparecem os posts emocionados, os vídeos institucionais, o café da manhã simbólico, as flores e os chocolates na mesa acompanhados das mensagens de “vocês são incríveis”.
No dia seguinte, tudo volta ao normal. E o normal ainda é desigual.
A verdade é simples: muitas empresas transformaram o Dia da Mulher em marketing corporativo. Um ritual elegante para parecer moderno enquanto as estruturas internas continuam antigas. Celebram mulheres um dia por ano. Subestimam nos outros 364.
Os números não mentem. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, mulheres brasileiras recebem, em média, cerca de 20% menos que homens em funções equivalentes. O World Economic Forum estima que a igualdade econômica global entre homens e mulheres ainda pode levar mais de um século para acontecer. Mais de cem anos.
Agora olhe para dentro das empresas. Quantas mulheres estão nas cadeiras onde as decisões realmente são tomadas? Segundo o relatório Women in Business, da Grant Thornton (2025), apenas cerca de um terço das posições de liderança no mundo são ocupadas por mulheres. Em muitas empresas brasileiras — especialmente nas estruturas familiares que dominam boa parte da economia — esse número é ainda menor.
E quando uma mulher chega à liderança, descobre rapidamente que o cargo não elimina o preconceito. Ele apenas muda de forma. Existe um desconforto silencioso que muitas mulheres líderes conhecem bem: a resistência masculina à autoridade feminina. Ela não aparece nos discursos institucionais. Aparece nas reuniões. Na interrupção constante. Na ironia disfarçada. Na tentativa de ridicularizar uma opinião. Na desconfiança automática.
Quando um homem fala firme, é liderança. Quando uma mulher fala firme, ainda há quem chame de temperamento.
Muitas mulheres líderes convivem diariamente com homens menos preparados que elas, mas que se sentem absolutamente confortáveis em desafiar sua autoridade simplesmente porque cresceram acreditando que liderança é território masculino. E existe algo ainda mais incômodo: o abuso silencioso dentro das reuniões.
Nem sempre é explícito. Muitas vezes é sutil. Uma piada constrangedora. Um comentário atravessado. Uma tentativa de diminuir uma mulher diante da equipe. E quase sempre existe alguém que vê — e escolhe não fazer nada. Gestores fingem que não perceberam. O RH prefere não tornar o episódio visível. A reunião continua. O ambiente segue como se nada tivesse acontecido. O silêncio institucional ainda protege muita gente.
Pesquisa do Datafolha mostra que quatro em cada dez mulheres brasileiras já sofreram algum tipo de assédio no ambiente de trabalho. Muitas não denunciam. Não por falta de consciência, mas por excesso de experiência. Elas sabem que, em muitas empresas, denunciar significa apenas se expor. Mas existe outra verdade que também precisa ser dita: nem sempre as próprias mulheres se apoiam.
Falta união. Falta rede. Falta mentoria. Muitas vezes existe competição silenciosa, distanciamento e até críticas veladas entre mulheres dentro das organizações. Em vez de construir alianças, acabam reproduzindo o mesmo modelo competitivo que historicamente as excluiu. Sem união, o avanço fica ainda mais lento.
Enquanto isso, os departamentos de recursos humanos seguem organizando campanhas bonitas no Dia da Mulher. Palestras inspiradoras. Murais com frases de empoderamento. Vídeos emocionantes. Mas empoderamento feminino não nasce em arte de Instagram. Nasce quando empresas enfrentam perguntas desconfortáveis.
Quantas mulheres estão na liderança? Existe diferença salarial dentro da empresa? Existe canal seguro de denúncia? Existe tolerância real zero para assédio? Sem essas respostas, qualquer campanha do dia 8 de março é apenas decoração corporativa.
E talvez seja hora de fazer perguntas mais diretas. Até quando vamos receber flores e não remuneração justa? Até quando vamos ouvir “parabéns pelo seu dia” e continuar fora das decisões? Até quando mulheres líderes terão que tolerar desrespeito de profissionais menos preparados apenas porque eles são amigos do dono? Até quando gestores e RH continuarão fingindo que certos abusos não acontecem dentro das reuniões? E por que ainda existe tão pouco envolvimento real do RH em temas ligados à qualidade do trabalho feminino dentro das empresas?
Não consigo entender como alguém que sofre assédio, perseguição, preconceito, invisibilidade e falta de respeito pode trabalhar bem? Empresas que realmente querem evoluir precisam parar de romantizar o Dia da Mulher. Igualdade não nasce de homenagem. Nasce de poder, estrutura e decisão.
Talvez o verdadeiro Dia da Mulher comece quando as empresas pararem de celebrar mulheres por um dia e começarem a respeitá-las o ano inteiro. Porque respeito não se posta. Respeito se pratica.
Cuidem-se e até breve,
Simone Moura


