A busca por agilidade nos processos seletivos colocou o RH diante de um dilema recorrente: atender à urgência do negócio sem comprometer a qualidade das contratações. Para Ana Cristina Barroso, mestre em Administração e coordenadora do curso de Administração da Universidade Católica de Brasília (UCB), a velocidade, por si só, não pode ser o critério que orienta as decisões.
“A urgência não deve ser tratada como justificativa para decisões apressadas, mas como um convite à melhoria de processos. Quando a organização investe em processos estruturados, indicadores claros, metodologias padronizadas e apoio tecnológico, ela ganha velocidade com qualidade. Assim, a urgência, nesse contexto, passa a ser resultado de preparo”, afirma.
Segundo a especialista, responder à pressão por contratações rápidas exige uma mudança clara de posicionamento da área de recrutamento. Para ela, o RH precisa deixar de atuar apenas de forma reativa, “apagando incêndios”, e assumir uma postura preditiva. “Isso envolve a construção e manutenção de bancos de talentos, o uso de dados para mapear perfis e o alinhamento prévio com as lideranças sobre as competências técnicas e comportamentais indispensáveis aos candidatos”, explica.
Ana Cristina alerta que priorizar exclusivamente a rapidez nos processos seletivos pode custar caro. “Priorizar apenas a velocidade pode gerar contratações desalinhadas, que aumentam o turnover, impactam negativamente o clima organizacional, sobrecarregam equipes e ampliam os custos com desligamentos e retrabalho”, diz. Para ela, os impactos não se limitam ao aspecto financeiro, mas atingem diretamente a cultura e a estabilidade das equipes.
Nesse cenário, a constância aparece como um diferencial competitivo. “A constância, aliada à manutenção de uma base de talentos atualizada, garante coerência nas decisões, fortalece a cultura organizacional, aumenta a credibilidade interna e contribui para a construção de equipes mais estáveis e engajadas”, afirma. “A empresa que contrata bem de forma recorrente reduz riscos e fortalece sua identidade ao longo do tempo”.
Para a especialista, equilibrar demandas imediatas com a construção de equipes alinhadas à cultura organizacional é um dos maiores desafios da liderança em RH. Esse equilíbrio, segundo ela, só é possível quando a área assume, de fato, seu papel estratégico, pedagógico e relacional. “É papel do RH esclarecer as lideranças sobre os impactos das decisões de curto prazo em indicadores concretos, como turnover, custos de contratação, retrabalho que sobrecarrega as equipes, além dos efeitos sobre o clima organizacional e o desempenho”, explica.
Outro ponto destacado por Ana Cristina é a integração dos processos de gestão de pessoas. Para ela, recrutamento, desenvolvimento, onboarding e gestão de desempenho precisam operar de forma articulada. “Quando esses processos estão conectados, as decisões de curto prazo deixam de ser meramente operacionais e passam a fazer parte de um mesmo sistema de valor, alinhado às estratégias de longo prazo da organização”, avalia.
Além dos aspectos técnicos, Ana Cristina destaca que liderar o recrutamento hoje exige competências comportamentais cada vez mais sofisticadas. “São essenciais a inteligência emocional, a visão sistêmica, a leitura de contexto, a tomada de decisão orientada por dados, além da escuta ativa e da comunicação empática”, afirma. Ela também chama atenção para o desafio de liderar equipes formadas por diferentes gerações, com valores, ritmos e expectativas distintas convivendo no mesmo espaço organizacional.
Nesse contexto, o recrutamento passa a buscar profissionais capazes de sustentar desempenho sob pressão sem abrir mão de profundidade, ética e coerência. “Liderar o recrutamento hoje é liderar experiências humanas com responsabilidade e visão de futuro, em um ambiente em que a mudança deixou de ser exceção e passou a ser regra”, diz.
Para a especialista, o perfil mais valorizado não é necessariamente o de quem reage mais rápido a qualquer estímulo, mas o de quem interpreta cenários, define prioridades com critério e age com responsabilidade. Em um contexto de aceleração constante, o discernimento se torna tão estratégico quanto a agilidade.


