Vocês se recordam de “De Repente 30”?
Se não, deixem eu refrescar a história para vocês. Jenna é uma adolescente de 13 anos que, após um aniversário desastroso, faz o desejo de ter 30 anos. No dia seguinte, ela acorda com o seu desejo realizado, em uma realidade onde atua como uma editora de moda bem-sucedida que mora em um apartamento de luxo na Quinta Avenida de Nova York.
O filme é uma comédia romântica típica, com um leve toque de fantasia. Mas talvez tenha feito mais do que isso. Para uma geração inteira, ajudou a transformar os 30 em uma espécie de marco: a idade em que a vida deveria estar encaminhada, a carreira deveria ter dado certo, as escolhas deveriam fazer sentido. Os 30 eram quase uma promessa.
Bom, para a Thais Requito, por um instante, parecia que a promessa havia sido cumprida. Aos 30 anos, ela trabalhava na sede nacional da Microsoft como head de projetos customizados de publicidade, uma posição que, considerando a história de sua família e a de sua própria vida, parecia improvável. A menina humilde, que estudou em escola pública, começou a trabalhar cedo e pagou a própria faculdade enquanto trabalhava havia chegado lá. Ela era a “Thais da Microsoft”.
Mas ela não estava lá, ela estava indo bem. Apaixonada pelo trabalho, Thais gostava também de gente, de projetos e de desafios. Se aparecia uma oportunidade, ela queria estar dentro. Se havia um problema, se empenhava para resolver. Se precisava de alguém, ela se oferecia como Katniss Everdeen se ofereceu na 74ª edição dos Jogos Vorazes.
Pouco a pouco, na rotina, os dias foram ficando maiores. Os almoços aconteciam diante do computador. As horas se acumulavam. Um projeto era emendado no outro. Fora do escritório, nos intervalos e fins de expediente, ela encaixava também a academia, a meditação, a yoga, os retiros e as viagens em busca de autoconhecimento.
Estava tudo bem, tudo certo. Para tudo, havia um método. A rotina era sempre a mesma: acorda cedo, faz café, trabalha muito, cuida do corpo, cuida da mente, é produtiva, é saudável, é reconhecida, ganha troféu, faz tudo direito, cresce na carreira. Parecia uma matemática somatória perfeita. Só havia uma coisa que não cabia naquela equação: a sensação estranha de estar morrendo.
Os sintomas surgiram aos poucos, como pequenos ruídos no meio de uma rotina tão organizada. O coração acelerava, as mãos suavam e tremiam, a boca secava, a cabeça corria mais rápido do que deveria… Até que, numa segunda-feira qualquer, seu corpo estagnou.
“Naquela época, o trabalho ocupava um lugar muito grande na construção da minha identidade e até do valor que eu atribuía a mim mesma. Eu me enxergava muito como uma extensão daquele lugar. Tinha muito orgulho de me apresentar como ‘a Thais da Microsoft’”, ela me relata. “O trabalho foi preenchendo certas vulnerabilidades minhas e eu não percebi que ele estava ocupando cada vez mais espaço na minha vida. Fui abrindo espaço para o trabalho e negligenciando outras áreas que hoje sei que são importantes para o bem-estar. Em função disso, acabei vivendo esse grande colapso”.
Depois do colapso, Thais foi ao hospital acreditando estar com algum problema no coração. O cardiologista que a atendeu, entretanto, foi categórico: o problema não estava dentro da caixa torácica, mas um pouco mais acima. Mais precisamente, no cérebro, acometido pela síndrome do pânico.
Na mesma época, também veio o reconhecimento público da empresa pelos oito anos de dedicação. Além da salva de palmas da equipe, Thais recebeu um bônus generoso na conta bancária e uma viagem para o Havaí com direito a acompanhante. Tudo aquilo seria bom, se o contexto não fosse tão sufocante.
Nem Alanis Morissette pensaria em uma ironia tão ardilosa quanto essa para colocar nos versos de “Ironic”. Depois que tudo ficou mais quieto, veio o afastamento. Dez dias em casa, longe de tudo.
“Foi muito difícil também porque eu não estava acostumada a parar. Eu tinha muito medo do que as pessoas iam pensar, de como seria voltar, se eu ia conseguir ser a mesma Thais, se iam achar que eu não era mais capaz, se eu seria demitida. Eu estava muito preocupada com o julgamento das pessoas. E, ao mesmo tempo, eu só queria uma pílula mágica. Queria que alguém me desse alguma coisa e dissesse: ‘Toma isso aqui que amanhã você vai estar boa’”, Thais relata.
Nos momentos de crise, ela ficava deitada na cama, olhando para o teto, incapaz de fazer qualquer coisa. Tinha medo de dirigir, de ficar sozinha, de lugares cheios. Até coisas dentro de casa, como janelas e facas, podiam despertar medo. Como não conseguia ficar sozinha, voltou para a casa da mãe. Era uma realidade difícil de reconhecer para alguém que, pouco tempo antes, havia construído uma rotina em que parecia dar conta de tudo.
Nos retornos médicos, os conselhos eram quase sempre os mesmos: diminuir a urgência, abandonar a lógica de viver permanentemente olhando para o próximo compromisso e aprender a viver um dia de cada vez. Talvez essa tenha sido a primeira grande tarefa que a vida impôs à Thais sem que ela pudesse transformar aquilo em mais um projeto: aprender a parar.
Mas não foi fácil. Para Thais, sair daquele estado mental sufocante tinha se tornado uma espécie de missão. Tentou de tudo: acupuntura, atividade física, visualizações, suplementos, mais yoga, mais comida natureba, detox, terapias… E foi nesse processo que conheceu algo que mudou suas perspectivas: o mindfulness. E aqui vou abrir uma pequena seção de exposição de conceito, mas que é importante para que vocês, caros leitores, entendam todos os detalhes cruciais de uma jornada de transformação.
Mindfulness é um estado mental de consciência plena; em outras palavras, é o que acontece quando você presta atenção, de forma intencional, na sua experiência de forma curiosa, interessada e gentil. É comer, caminhar, conversar, trabalhar, consciente de tudo o que aquela atividade envolve, dentro e fora do seu corpo. A habilidade é natural para os seres humanos, mas com o passar dos anos e o excesso de estímulos, ela acaba sendo deteriorada pela distração constante e pela atenção fragmentada. Para manter essa habilidade ativa, existem treinamentos sérios e baseados em evidências científicas. Uma espécie de academia para o cérebro.
“Lá fui eu, curiosa e desesperada, participar de um curso de mindfulness. No começo, fazia as práticas com os olhos abertos e muita dificuldade, porque as crises de ansiedade eram tão potentes e os sintomas tão desagradáveis, que prestar atenção naquilo tudo quase parecia tortura. Mas com o passar das semanas, fui compreendendo profundamente a relação dos pensamentos catastróficos que eu tinha com o medo e a ansiedade avassaladores que eu sentia e com os sintomas físicos que surgiam em seguida. Aos poucos comecei a observar esses fenômenos como passageiros, como representações do meu “clima” interno. Enquanto a minha capacidade de concentração aumentava, meus sintomas físicos perdiam intensidade, meu sono melhorou e passei a me sentir mais confiante e segura”, narra Thais.
Ao final da licença, Thais retornou ao escritório da Microsoft retraída. Em pleno 2014, quando tudo ocorreu, saúde mental era um tabu ainda mais forte do que é hoje. Thais se recorda do assunto ser tratado a portas fechadas e vozes baixas. Ninguém se sentia à vontade para ter conversas do tipo (se duvidar, as pessoas continuam a não ter). E, num ponto desta história, eu admiro a coragem de Thais pela escolha de não ter escondido sua vulnerabilidade.
“Por mais que eu tenha sentido vergonha e medo no começo, inclusive medo de ser demitida e de como as pessoas me receberiam de volta, quando retornei, para minha surpresa, falei com naturalidade sobre o que tinha acontecido. Eu disse: ‘Gente, foi isso que aconteceu. O ritmo não estava sustentável’. A partir daí, veio toda uma reconstrução: repensar aquele estilo de vida, como eu iria me relacionar com o trabalho e como recuperaria a autoria da minha vida. Eu não queria simplesmente continuar fazendo os projetos que a empresa achava que faziam sentido para mim. E, justamente por eu ter aberto essa conversa, as pessoas começaram a vir falar comigo”, ela relata.
E os comentários foram muitos. Um colega lhe disse: “Eu já fui internada não sei quantas vezes por estresse”; outro: “Eu tomo remédio para depressão há não sei quantos anos”. Alguns relataram sobre insônia, ansiedade e outros sintomas. E uma dúvida surgiu na mente de Thais: “Gente, o que está acontecendo aqui? Como é que a gente não está falando sobre esse assunto?”.
No ano seguinte, ela tomou uma decisão, pediu demissão da Microsoft, pegou um avião para a Inglaterra e foi estudar no Centro de Mindfulness da Universidade de Oxford. Seu objetivo era aprender com os profissionais mais renomados do mundo e se equipar para apoiar pessoas que estivessem sofrendo o que ela havia sofrido. E ali ela encontrou não só uma carreira, como também um novo propósito.
“Hoje, minha atuação e minha lente estão muito voltadas para o sistema de trabalho como um todo. Não é separar e olhar só para a pessoa, só para o líder ou só para a cultura. É entender como todas essas coisas interagem, porque é nessa interação que está o bem-estar ou o adoecimento. Por isso, falo muito sobre o modelo do trabalho sustentável. A gente tende a olhar para sustentabilidade pensando no planeta, mas sustentabilidade humana também é uma questão importante”, destaca.
Essa mudança de perspectiva também transformou a maneira como Thais passou a pensar o cuidado dentro das organizações. Para ela, não existe uma única peça responsável pelo bem-estar de quem trabalha. É preciso olhar para a pessoa, mas também para as relações que ela estabelece, para a cultura que orienta aquele ambiente e para a própria forma como o trabalho foi desenhado. É dessa combinação que surgiram os quatro pilares que hoje orientam sua visão sobre o trabalho sustentável.
“O primeiro são os indivíduos: como cuidamos das pessoas e as ajudamos a desenvolver ferramentas para cuidar melhor de si mesmas, se autorregular e fazer uma gestão melhor dos próprios recursos.
O segundo são as relações: como são essas relações? São relações nutridoras, em que as pessoas se apoiam, colaboram e se ajudam? Ou é um ambiente em que uma pessoa passa por cima da outra, em que vale resultado a qualquer custo e as pessoas vão ficando pelo caminho?
O terceiro é a cultura: quais são os combinados que fazemos? Quais são os rituais que perpetuamos? Será que estamos premiando quem veste tanto a camisa que trabalha todos os dias até meia-noite, ou estamos recompensando quem procura apoio, busca equilibrar melhor seus recursos, pede ajuda e desenvolve pessoas que possam apoiar o processo?
E o quarto é a arquitetura do trabalho: Será que temos recursos suficientes para compensar a demanda ou temos uma demanda muito alta sem recursos suficientes, deixando as pessoas completamente vulneráveis?
Eu acredito muito na interação entre esses quatro pilares. Precisamos olhar para o sistema como um todo, entender como as coisas estão interagindo e quais são as alavancas que podemos movimentar”, ela me explica.
Hoje, aqueles quatro pilares deixaram de ser apenas uma forma de Thais compreender a própria história. Eles atravessam o trabalho que ela desenvolve com empresas, líderes e profissionais que tentam construir relações mais saudáveis com o trabalho. A experiência que um dia a levou a procurar ajuda se transformou em ferramenta para ajudar outras pessoas a não precisarem chegar ao mesmo limite.
Atualmente, Thais continua estudando. Ela cursa Psicologia, aprofundando uma investigação que começou muito antes da universidade, quando seu próprio corpo interrompeu a rotina que parecia tão bem organizada. Talvez exista uma certa beleza nisso: depois de passar anos aprendendo sobre produtividade, liderança e performance, ela decidiu estudar ainda mais profundamente aquilo que existe antes de qualquer cargo ou resultado, o ser humano.
Mas existe uma diferença importante entre a Thais de 30 anos e a mulher que hoje fala comigo sobre sustentabilidade humana. Ela já não constrói a vida ao redor do trabalho. Há um marido por quem é apaixonada e uma menina de três anos por quem nutre o maior amor do mundo. Nessas relações, encontra refúgio, força e o lembrete diário de que sua identidade não se resume apenas ao seu trabalho. Afinal, como ela mesma me disse: “os vínculos também são importantes”.
A conversa com Thais termina como todas as outras conversas terminam: com um agradecimento pelo tempo, pela disponibilidade e pela história, e um até logo. Sozinho, na sala de reuniões, em plena sexta-feira, eu massageio as têmporas, tentando recobrar o foco. Faço isso quando o cansaço bate e ainda falta um tempo considerável para o fim do expediente. Geralmente, eu pulo direto de uma pauta para outra, mas depois dessa conversa com Thais, resolvo fazer algo diferente.
Pego uma xícara na copa, encho de café. Não coloco açúcar, nem adoçante, gosto do amargor. Sento ao computador novamente, plugando em mim os fones de ouvido. Abro o Spotify e escuto uma das minhas canções preferidas, que sempre me lembra de fazer a coisa mais essencial que todo ser humano precisa fazer para continuar vivo: respirar.
Enquanto Nina Rosário (e um coro de vozes afiadíssimas) canta em meu ouvido, lembro de um conselho que Thais, que escolhi especialmente para fechar esse texto:
“A gente aprendeu na escola português, matemática, geografia, história do mundo inteiro. Mas não necessariamente aprendeu muito sobre como é ser humano. Como a gente faz a melhor gestão possível das nossas habilidades e competências? Como desenvolve aquilo que ainda não sabe fazer? Como sinaliza quando não tem capacidade para lidar com determinada situação? Como se autorregula? Como desenvolve autorresponsabilidade, inclusive para estabelecer limites e dizer: ‘Olha, até aqui eu consigo ir. A partir daqui, não’? Tenho batido muito nessa tecla. A gente está muito preocupado com a inteligência artificial, e precisa estar. Mas também precisamos nos preocupar com a inteligência atencional, com as capacidades humanas, com a nossa humanidade. Porque são essas capacidades que vão nos ajudar a tomar as melhores decisões nos vários contextos que ainda vão se apresentar.”
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