20ª edição

Artigo | Carta fechada aos nordestinos

Por Redação

27/10/2026 12h00

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Cyro Thomaz, fundador da Tino Pra Coisa

“O Nordeste é uma ficção.” Essa frase de Belchior carrega mais verdade do que parece.

Depois da seca de 1958, o governo criou a Sudene. E antes de combater qualquer falta d’água, teve que fazer uma coisa mais difícil: decidir quem, exatamente, era nordestino. 

Desenhou uma linha no mapa: nove estados dentro, o resto, fora. Hoje são 57 milhões de pessoas na banda de cá, e outros 10 milhões, nascidos aqui, espalhados pela banda de lá. 

Não foi propriamente o parto do preconceito. Mas ali, o rótulo ganhou nome e crachá.

Não somos o único bloco generalizado nesse mundão de meu Deus. 

A África tem 54 países, centenas de línguas, histórias e revoluções distintas, e ainda há quem chame tudo de “África”. 

Oriente Médio, América Latina, a mesma conversa. Um papo denso, meio penso, quase sempre tenso. 

Cá entre nós, é a gente mesmo que, às vezes, passa mais grude nesse rótulo. Feito passarinho que só voa em bando, peixe que só nada em cardume.

Um mimetismo conveniente, estratégico, e em muitos instantes, vital.

Repare, reparemos.

Todo mundo de fora acha que sertão é tudo igual. Mas eu, você, Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos, José Lins do Rego e Jorge Amado sabemos que não é. 

O mar de Caymmi é doce. O de Zé Ramalho, monstruoso. O de Fagner, saudoso. O de Alceu, festivo. 

Olhar de longe é miragem. E a distância é danada pra enganar.

É a nossa lente que determina a diferença entre representação e presença; entre lugar e território.

Para ter sotaque, história e identidade, antes de ser nordestino, a gente precisa ser, cada um: alagoano, baiano, cearense, maranhense, paraibano, pernambucano, piauiense, potiguar, sergipano.

Essa é a nossa carta aberta.