Cyro Thomaz, fundador da Tino Pra Coisa
“O Nordeste é uma ficção.” Essa frase de Belchior carrega mais verdade do que parece.
Depois da seca de 1958, o governo criou a Sudene. E antes de combater qualquer falta d’água, teve que fazer uma coisa mais difícil: decidir quem, exatamente, era nordestino.
Desenhou uma linha no mapa: nove estados dentro, o resto, fora. Hoje são 57 milhões de pessoas na banda de cá, e outros 10 milhões, nascidos aqui, espalhados pela banda de lá.
Não foi propriamente o parto do preconceito. Mas ali, o rótulo ganhou nome e crachá.
Não somos o único bloco generalizado nesse mundão de meu Deus.
A África tem 54 países, centenas de línguas, histórias e revoluções distintas, e ainda há quem chame tudo de “África”.
Oriente Médio, América Latina, a mesma conversa. Um papo denso, meio penso, quase sempre tenso.
Cá entre nós, é a gente mesmo que, às vezes, passa mais grude nesse rótulo. Feito passarinho que só voa em bando, peixe que só nada em cardume.
Um mimetismo conveniente, estratégico, e em muitos instantes, vital.
Repare, reparemos.
Todo mundo de fora acha que sertão é tudo igual. Mas eu, você, Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos, José Lins do Rego e Jorge Amado sabemos que não é.
O mar de Caymmi é doce. O de Zé Ramalho, monstruoso. O de Fagner, saudoso. O de Alceu, festivo.
Olhar de longe é miragem. E a distância é danada pra enganar.
É a nossa lente que determina a diferença entre representação e presença; entre lugar e território.
Para ter sotaque, história e identidade, antes de ser nordestino, a gente precisa ser, cada um: alagoano, baiano, cearense, maranhense, paraibano, pernambucano, piauiense, potiguar, sergipano.
Essa é a nossa carta aberta.
