20ª edição

Cena | A era da mesmice: como criar além dos algoritmos

Por Redação

27/10/2026 12h25

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Quando algoritmos e inteligência artificial dominam o previsível, repertório e experiências reais se tornam os ativos mais valiosos da criatividade

Vivemos o que Gülay Özkan chama de The Age of Sameness, a era da mesmice. Quanto mais nossas escolhas, referências e processos criativos são mediados pelos mesmos algoritmos, maior o risco de chegarmos a respostas parecidas. A inteligência artificial potencializa esse movimento porque é incrivelmente boa em reconhecer padrões.

Este ano estive no SXSW, um dos maiores festivais de inovação, tecnologia e entretenimento do mundo. Entre tantas conversas sobre inteligência artificial, uma fala me acompanha enquanto vejo o mercado se movimentar.

Fana Yohannes, estrategista que já trabalhou no Instagram, Apple e Google, subiu ao palco para falar sobre como construir influência em algoritmos saturados por IA. Entre os dados apresentados, dois me chamaram atenção. Segundo o Patreon State of Create Report 2025, 78% dos criadores dizem depender do algoritmo para orientar suas decisões de conteúdo e 56% sentem que isso os desencoraja a explorar suas próprias paixões e interesses. Parei nesses números, porque eles dizem muito mais sobre nós do que sobre tecnologia.

Trabalho com criação de conteúdo há dez anos e acompanho de perto a profissionalização desse mercado. Aprendemos a entender plataformas, interpretar algoritmos, analisar métricas, retenção, alcance, formatos, tendências e ganchos. Tudo isso importa, é um fato. Eu mesma, ensino e aplico muito disso todos os dias.

Mas o sentimento que tenho é que aprendemos tanto a perguntar “o que o algoritmo quer?” que deixamos de lado a busca pelo essencial: “o que eu quero criar?” e “com quem eu quero me conectar?”.

Essa reflexão ficou ainda mais forte quando conheci o conceito de The Age of Sameness, título do livro de Gülay Özkan. A provocação sobre a “era da mesmice” ajuda a entender um paradoxo do nosso tempo: nunca tivemos tantas ferramentas para criar e, ao mesmo tempo, corremos o risco de produzir coisas cada vez mais parecidas.

Não acho que esse fenômeno tenha começado com a inteligência artificial. Antes dela, os algoritmos já nos ensinavam o que provavelmente teria mais alcance, qual formato reteria mais ou despertaria mais interesse. A IA apenas potencializou a lógica da busca pelo mais provável. Máquinas são extraordinariamente boas nisso, porque elas reconhecem padrões, processam uma quantidade de referências impossível para nós e conseguem prever respostas com uma eficiência cada vez maior.

Só que o prompt é uma fórmula previsível, e criar fora do óbvio é fugir da fórmula. Criatividade também precisa do improvável. Quando produzir fica fácil, o diferencial deixa de estar na produção e passa a estar no repertório que existe antes dela. Aqui a presença ganha um valor específico. O que é mais imprevisível do que experiências presenciais? 

Repertório não se constrói apenas consumindo mais conteúdo. Ele nasce de uma conversa que você não esperava ter, de uma viagem que muda uma percepção, de alguém que discorda de você, de um livro que você encontrou sem procurar, de uma palestra escolhida por acaso, de uma rua por onde resolveu caminhar sem saber exatamente o que encontraria. De um trauma, de um romance ou de uma sensação. O imprevisível precisa de espaço para acontecer.

Só que estamos construindo uma vida digital cada vez mais eficiente em eliminar esse espaço. O Spotify prevê o que queremos ouvir. As redes sociais antecipam o que provavelmente queremos assistir. A inteligência artificial consegue sugerir o que criar, como criar e até quais referências usar.

Não se trata de abandonar essas ferramentas, sabemos a importância delas na revolução que estamos vivendo no mercado de trabalho. Eu uso inteligência artificial todos os dias, mas a trato como uma inteligência e não como uma sabedoria. Entendo que existe uma diferença enorme entre usar a tecnologia para ampliar o meu repertório e permitir que ela escolha qual repertório eu terei. Talvez a presença seja também uma decisão criativa.

Estar presente é continuar olhando para o mundo antes de pedir que uma máquina o interprete, cultivar interesses mesmo quando eles não performam e ter conversas que não precisam virar conteúdo. É experimentar coisas que não precisam justificar sua existência através de uma métrica. Se terceirizarmos até aquilo que desperta nossa curiosidade, corremos o risco de terceirizar exatamente o que nos diferencia.

Uma frase de Tristan Harris me faz refletir sobre isso todos os dias: “Estamos entregando autonomia sem perceber, enquanto algo mais inteligente molda silenciosamente nossas escolhas”.

A inteligência artificial pode reconhecer milhões de padrões, mas o imprevisível ainda está na presença e precisa ser vivido.