20ª edição

Artigo | Na era da inteligência artificial, presença é luxo

Por Redação

27/10/2026 11h55

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Em tempos de inteligência artificial, ganha valor o profissional que escuta, compreende cada realidade e transforma escolhas em caminhos seguros

Por Frota Neto, sócio do Escritório Rodrigues de Albuquerque Advogados

Há uma cena que se repete nos bastidores de todo grande show. Minutos antes de subir ao palco, o artista já foi visto e ouvido por milhões de pessoas pelo celular, computador e televisão, através das plataformas digitais. E, ainda assim, do lado de fora do evento, milhares de pessoas formam filas, dispostas a pagar caro para vê-lo ao vivo. Ninguém foi até ali apenas para ouvir uma playlist.

Advogo no Direito do Entretenimento há mais de quinze anos, ao lado de artistas, empresários e produtoras, e testemunho diariamente essa aceleração. Um exemplo eloquente está na própria música. Em janeiro de 2025, a Deezer recebia cerca de 10 mil faixas por dia inteiramente geradas por inteligência artificial (IA). Em julho de 2026, esse número já chegava a 90 mil; mais da metade dos uploads realizados na plataforma.

No show, porém, não se paga apenas pela música. Paga-se para estar ali. Para assistir ao artista naquele instante, diante de milhares de outras pessoas que também escolheram estar presentes. O conteúdo pode ser reproduzido infinitamente. Já a experiência, não.

O que se compra é presença.

E talvez seja justamente esse o paradoxo do nosso tempo: quanto mais a tecnologia avança e torna o conteúdo acessível e reproduzível, mais evidente se torna o valor daquilo que depende da experiência humana. Sobrevive o que exige presença: o show, o encontro, a reunião que muda a direção de uma carreira artística, a conversa entre pessoas na mesma sala.

A tecnologia veio para ficar, mas pouco adianta sem a experiência de quem sabe utilizá-la. Até para dirigir bem uma IA é preciso ter domínio real do que se está fazendo, saber o que perguntar e reconhecer uma resposta equivocada. A ferramenta amplia a capacidade de quem detém conhecimento; não substitui a experiência de quem percorreu o caminho.

Na advocacia do entretenimento, a diferença muitas vezes está no que não aparece. Está na segurança de quem conhece profundamente as nuances desse ramo, incluindo o direito autoral, o direito de imagem e a construção de contratos, mas também compreende que cada artista vive um momento, uma trajetória e necessidades muito particulares.

É nesse lugar que a presença do advogado ganha valor: quando ele consegue enxergar para além do contrato, compreender as relações entre artista, empresários e contratantes, antecipar riscos e estar verdadeiramente acessível quando as decisões precisam ser tomadas.

A confiança nasce do relacionamento direto que artistas e empresários buscam no dia a dia: em uma sala, em reuniões ou mesmo em rápidas ligações. Ninguém assina um contrato apenas porque um sistema recomendou determinados termos. Assina porque confia em quem está ao seu lado, conhece sua trajetória e compreende o que está em jogo. Isso a IA não substitui: a experiência acumulada e a atenção dedicada à individualidade de cada cliente.

E as decisões que realmente importam continuam sendo humanas. O contato com contratantes, a negociação de grandes contratos ou a autorização para o uso da imagem de um artista são escolhas que a IA pode ajudar a subsidiar, organizar e até simular, mas não pode assumir.

Talvez essa seja a grande provocação da era da inteligência artificial: quanto mais fácil se torna simular, mais valioso se torna aquilo que só pode ser vivido, por isso a presença continua insubstituível.