Entrando nas casas de mestres nordestinos, descobri que o maior patrimônio do Brasil não é o que se guarda, mas quem ainda ensina
Por Pablo Guterres, curador e CEO do Grupo DNX
O que acontece quando você entra na casa de alguém que não está tentando lhe vender nada?
Essa pergunta me acompanha porque passei boa parte da vida fazendo o movimento contrário: procurando ideias, identificando oportunidades e transformando repertório em projetos. Entro em uma casa, vejo um ateliê, uma técnica, uma matéria, uma história — e meu lado empreendedor, coitado, começa a montar uma planilha mental.
Nas andanças pelos sertões e litorais do Nordeste, fui aprendendo a segurar um pouco a ansiedade da oportunidade. A conversa vem primeiro. A ideia, se merecer, aparece depois. Às vezes, ela até fica esperando do lado de fora — e ninguém perde por isso.
Nessas casas, ninguém me recebe calculando o que pode vender. A porta se abre e, pouco a pouco, aparece uma vida inteira: conhecimento acumulado, trabalho repetido, matéria transformada pelas mãos e histórias quase nunca escutadas. O que aquelas pessoas valorizam é perceber que alguém ofereceu alguns minutos generosos de atenção.
Isso me emociona. Há gente com muito a ensinar, mas que durante décadas ficou fora das conversas que definem cultura, sofisticação, inovação e futuro. O mercado desenvolveu uma certa pressa para reconhecer valor — de preferência, antes mesmo de escutar a história.
Penso em Mestra Fanca, no Cariri. Diante de um dos seus panôs, uma imagem me veio: “Essa casa não tem sofá. Tem décadas de história penduradas em um varal.” Aquilo era a própria vida transformada em matéria — uma riqueza do Nordeste, um patrimônio vivo da cultura brasileira. Difícil olhar para uma cena dessas e sair pensando apenas em produto.
Penso em Mestre Graciano, que me recebeu em sua linda casa-ateliê, em Brejo Santo, Ceará, em uma das muitas visitas que fiz a ele. Conversávamos sobre a cama patente como uma evolução da rede quando ele, com os olhos marejados, lembrou que a rede havia sido a solução que o tirou de dormir no chão de terra batida e mijada. Naquele instante, a cama patente deixou de ser apenas um móvel. Era a inteligência de um povo melhorando concretamente a própria vida.
Olha a potência disso. Uma invenção que nasce de uma necessidade concreta, atravessa gerações e termina ensinando ao mundo que inovação também pode ser uma maneira mais digna de dormir. A gente chama de design muitas coisas. Às vezes, design é exatamente isso: uma resposta inteligente para uma vida que precisava melhorar.
Penso em Dona Bia, Mestra da Cultura do Labirinto, em Majorlândia. Por mais de quinze anos, ela cozinhou nas maiores embaixadas de Brasília para chefes de Estado, príncipes e gente acostumada a circular por salas importantes. Aos 87 anos, sonha ter um ateliê diante do mar para fazer labirinto. Há uma grandeza silenciosa nessa imagem: uma mulher que continua projetando futuro com as próprias mãos.
Foi nesse percurso que minha pesquisa sobre a identidade brasileira deixou de buscar apenas referências. Passou a buscar pessoas. O maior patrimônio do Brasil é o brasileiro. O maior patrimônio do Nordeste é o nordestino.
A Engenharia Civil me deu método. A Publicidade me deu linguagem. A Música me deu escuta. O mundo me deu repertório. O Brasil me deu propósito. Hoje, percebo que a palavra decisiva talvez seja escuta. Ela organiza todas as outras.
A inteligência artificial já nos deu velocidade de sobra. Produz texto, imagem, resposta, campanha — e, se a gente deixar, produz até a sensação de que está tudo resolvido. O problema começa quando essa velocidade entra numa casa antes da escuta e transforma gente em conteúdo, fornecedor, dado ou oportunidade.
A ferramenta ajuda muito. Mas aquele minuto em que alguém percebe que foi realmente ouvido ainda depende de presença. É uma responsabilidade humana. E costuma valer mais do que uma mensagem disparada em escala.
Isso muda a maneira de construir marcas e negócios. Quem chega a um território pensando apenas em extrair uma estética costuma voltar com a parte mais superficial da história — justamente a que cabia na apresentação. Relação pede tempo, crédito, respeito e alguma disposição para sair diferente do que entrou.
Talvez por isso eu tenha escrito que “o palco nunca saiu de mim, só mudou de propósito”. Hoje, o palco também é o lugar onde negócios e destinos encontram a própria identidade — quando têm coragem de olhar além da superfície.
Presença é permanecer tempo suficiente para que o outro deixe de ser cenário. É sair de um encontro com menos certezas prontas e mais responsabilidade pelo que se ouviu.
Talvez o futuro fique com as marcas que aprenderem a escutar antes de abrir o microfone.
