Em diferentes áreas de atuação, Cinthia Cavalcanti, diretora de TI e Transformação Digital do Grupo Aço Cearense, e Lilian Sousa, diretora de Business Partner do Grupo Pague Menos, acompanham de perto os efeitos da transformação tecnológica sobre empresas, equipes e decisões. Para as executivas, a ampliação do uso de dados, inteligência artificial e automação não reduz a importância da liderança humana, ao contrário, exige mais capacidade de interpretar contextos, ouvir pessoas, construir confiança e assumir a responsabilidade pelas escolhas.
No Executivas em Foco, elas refletem sobre presença, gestão de pessoas e os atributos que ganham relevância à medida que a tecnologia passa a ocupar mais espaço no cotidiano das organizações.
NOSSO MEIO: A tecnologia vem mudando a forma como as empresas trabalham, se relacionam e tomam decisões. O que essa transformação passou a exigir das lideranças — e o que permanece essencial na gestão de pessoas?
Cinthia Cavalcanti: A tecnologia exige de quem lidera comunicar com clareza o propósito junto com a maior velocidade de decisão. Não dá mais para gerir por intuição isolada, é preciso combinar dado com julgamento. Mas o que permanece essencial é o mesmo de sempre: escuta, coerência entre discurso e prática, e a capacidade de dar sentido humano às mudanças que chegam.
Lilian Sousa: A tecnologia passou a exigir das lideranças uma maior capacidade de adaptação, de aprendizado contínuo e de tomada de decisão em ambientes de alta velocidade. Hoje, o líder precisa compreender dados, dialogar com as novas tecnologias e estar disposto a rever modelos que funcionaram no passado.
Mas não podemos esquecer que existe algo que não muda: lideramos pessoas, não processos, sistemas ou algoritmos. Escuta, confiança, empatia, coragem para tomar decisões difíceis e capacidade de mobilizar pessoas em torno de um propósito continuam sendo essenciais. Acredito que a tecnologia não diminui a importância do humano; ela torna ainda mais evidente aquilo que só o humano consegue fazer.
NOSSO MEIO: À medida que ferramentas digitais ampliam as possibilidades de interação e tornam muitas atividades mais ágeis, o que passa a justificar o encontro, a conversa e a presença física entre líderes e equipes?
Cinthia Cavalcanti: O que justifica o encontro presencial é tudo que não cabe em uma tela: o tom de voz, o silêncio de quem discorda, mas não fala, a energia de um time em um dia difícil ou em um momento de celebração. Ferramentas resolvem informação, presença resolve confiança.
Lilian Sousa: Se a tecnologia resolveu boa parte da troca de informação, o encontro presencial precisa entregar algo além dessa informação: conexão.
Estar junto precisa servir para construir confiança, discutir temas complexos, criar, discordar, perceber nuances e fortalecer vínculos. Há coisas que uma tela transmite muito bem; outras acontecem no olhar, no silêncio, na reação que não aparece em uma reunião virtual.
Por isso, não acredito em presença por controle ou simplesmente para cumprir uma agenda. Presença precisa ter propósito. Quando decidimos estar juntos, esse encontro precisa produzir algo que dificilmente produziríamos separados.
NOSSO MEIO: Dados e tecnologia ajudam a entender melhor pessoas, clientes e operações. Onde termina a capacidade dos recursos tecnológicos e começa o papel da liderança na interpretação dessas informações e na tomada de decisões?
Cinthia Cavalcanti: A tecnologia entrega padrão, correlação e velocidade. A liderança entra onde é preciso interpretar o contexto, ponderar valores e assumir a responsabilidade pela decisão, inclusive quando o dado é insuficiente ou aponta em direções conflitantes.
Lilian Sousa: Eu gosto de pensar que dados ampliam nossa visão, mas não substituem nosso julgamento.
A tecnologia consegue identificar padrões, tendências, correlações e até antecipar cenários com uma capacidade extraordinária. Mas alguém ainda precisa compreender o contexto, fazer as perguntas certas e decidir o que fazer com aquela informação.
E principalmente: decisões empresariais têm consequências humanas. O algoritmo pode indicar o caminho mais eficiente; cabe à liderança avaliar se aquele também é o caminho mais coerente com a cultura, os valores e o futuro que queremos construir. Dados apoiam decisões. Responsabilidade não se terceiriza para a tecnologia.
NOSSO MEIO: Toda mudança organizacional envolve pessoas com diferentes níveis de preparo, expectativas e resistência. Como conduzir processos de transformação sem perder de vista aquilo que os indicadores não conseguem mostrar?
Cinthia Cavalcanti: Os indicadores mostram se as iniciativas de transformação avançaram, mas somente com a proximidade das pessoas temos a indicação se elas foram junto. Resistência geralmente é um sinal, que aponta exatamente para o que o plano não considerou.
Lilian Sousa: Indicadores são fundamentais, mas eles contam apenas uma parte da história. Uma transformação pode estar verde no dashboard e vermelha nas conversas de corredor.
Por isso acredito muito em combinar dados com escuta e presença. É preciso acompanhar indicadores, mas também perceber medos, inseguranças, resistências, expectativas e até os silêncios das pessoas.
Resistência, inclusive, nem sempre significa falta de comprometimento. Muitas vezes é falta de entendimento, segurança ou participação. Uma boa liderança não trata a resistência simplesmente como obstáculo; procura compreender o que ela está tentando nos dizer. Transformação sustentável acontece quando estratégia, processo e pessoas caminham juntos.
NOSSO MEIO: Estar próximo da operação permite enxergar aspectos do negócio que nem sempre aparecem nos relatórios. O que uma líder aprende quando mantém contato direto com as pessoas que vivem os processos e lidam diariamente com os desafios da empresa?
Cinthia Cavalcanti: Aprendo o que realmente trava o processo no dia a dia, as coisas que nenhum relatório reporta porque viraram “jeitinho” ou rotina informal. Contato direto também é onde se ganha (ou perde) credibilidade: quem só aparece em apresentação não constrói confiança real com quem executa.
Lilian Sousa: Aprende que a realidade sempre tem mais detalhes que o PowerPoint.
Quando estamos próximos da operação, entendemos como uma decisão tomada na sala de reunião realmente chega à ponta. Descobrimos gargalos, improvisos, dificuldades e soluções que dificilmente apareceriam em um relatório.
E acredito que existe algo ainda mais importante: encontramos pessoas que conhecem profundamente o negócio porque o vivem todos os dias. Para mim, estar na operação é também um exercício de humildade da liderança. É reconhecer que conhecimento não está concentrado no topo da organização.
Muitas vezes, quem está mais próximo do problema também está muito próximo da solução — só precisamos estar dispostos a ouvir.
NOSSO MEIO: Inteligência artificial, automação e novas ferramentas podem assumir cada vez mais tarefas. Nesse cenário, qual competência humana tende a ganhar ainda mais valor para quem ocupa uma posição de liderança?
Cinthia Cavalcanti: Julgamento avaliando o contexto, a capacidade de decidir bem diante de ambiguidade, ponderando trade-offs. Junto com isso, a empatia genuína ganha ainda mais peso: quanto mais tarefa é automatizada, mais a liderança se define pela qualidade da relação humana que sustenta o time.
Lilian Sousa: Eu escolheria discernimento.
Teremos cada vez mais informação, análises, recomendações e possibilidades produzidas por inteligência artificial. O diferencial não será simplesmente ter acesso às respostas, mas saber fazer boas perguntas, interpretar contextos e escolher caminhos.
E esse discernimento precisa vir acompanhado de algo profundamente humano: sensibilidade para compreender o impacto das decisões sobre as pessoas.
A inteligência artificial pode nos tornar mais rápidos e produtivos. Mas liderança continuará exigindo coragem, empatia, consciência e responsabilidade.
Talvez o grande paradoxo do nosso tempo seja exatamente este: quanto mais inteligentes forem as máquinas, mais humanos precisaremos ser como líderes.
