À frente da Scanntech Brasil, empresa de inteligência de mercado que conecta dados de milhares de pontos de venda e indústrias, Thomaz Machado acompanha as mudanças provocadas pela tecnologia na forma de entender o varejo e tomar decisões. Com mais de 20 anos de carreira na Anheuser-Busch InBev, onde foi vice-presidente de Operações Digitais Globais e participou da criação do BEES, plataforma B2B que conecta indústria e varejo, o executivo defende que dados, automação e inteligência artificial ampliam a capacidade de análise, mas não substituem a decisão humana nem as relações que constroem confiança. Nesta entrevista, Thomaz fala sobre tecnologia, liderança, dados e o papel das pessoas em um mercado cada vez mais orientado por informação.
NOSSO MEIO | Você passou mais de uma década na Ambev antes de assumir a Scanntech no Brasil. O que dessa cultura de gigante industrial você manteve e o que precisou desaprender para liderar uma empresa de dados que vende, acima de tudo, confiança?
Thomaz Machado: Com certeza, carrego muitos dos aprendizados de mais de uma década na Ambev no meu dia a dia. Mas, se tivesse que escolher uma característica principal, seria a disciplina na execução. Construir projetos transformacionais requer tempo, e isso vale principalmente para construir confiança, que demanda tempo, disciplina e determinação.
O que precisei desaprender, ou aprender novamente, foi como construir reputação em uma empresa que, apesar de já ter mais de 30 anos, ainda era pequena no Brasil e precisava ser conhecida e reconhecida. É uma dinâmica totalmente diferente da Ambev, que já nasceu conhecida nacionalmente.
NOSSO MEIO | A Scanntech mira dobrar a operação no Brasil nos próximos anos, com uma base que já lê mais de R$1,1 trilhão em vendas por ano. Com tantos dados disponíveis, o que faz um cliente confiar mais em um número da Scanntech do que em qualquer outro relatório de mercado que recebe?
Thomaz Machado: Sem dúvida, a confiança vem da tecnologia que aplicamos na obtenção desses dados. 100% dos dados e informações obtidos pela Scanntech vêm da conexão proprietária feita diretamente com o caixa do varejo, sem depender de nenhum tipo de pesquisa ou manipulação humana.
Isso garante uma velocidade e uma precisão dos dados que são muito difíceis de encontrar em qualquer outro lugar.
NOSSO MEIO | Vocês leem, ticket a ticket, mais de 60 mil lojas no país. Mesmo com tanta automação e tecnologia, o que só se percebe estando fisicamente dentro do ponto de venda — e nenhum dado consegue capturar?
Thomaz Machado: Em termos de dados, acredito que praticamente tudo pode ser capturado através da tecnologia. E vou mais longe: dada a quantidade de dados disponíveis, só é possível capturar e consolidar tudo isso com tecnologia.
Porém, a parte relevante do sucesso de um negócio não está nos números, mas na visão do dono, nos valores da organização e na estratégia do negócio. E essas variáveis você só consegue entender no ponto de venda; elas não aparecem nos números.
Por isso, apesar de ser uma empresa de tecnologia, temos mais de 600 colaboradores trabalhando no campo, junto com nossos parceiros e clientes, para entender como os dados podem ajudar a atingir os objetivos do negócio.
Sem essa visão clara, os dados, de maneira isolada, não nos levam ao sucesso.
NOSSO MEIO | A Scanntech publica estudos que revelam como eventos ou mudanças de comportamento impactam o consumo quase da noite para o dia. Como transformar esse tipo de sinal em decisão de negócio antes que o concorrente perceba a virada?
Thomaz Machado: Minha visão sobre concorrência é um pouco diferente da descrita acima. Eu acredito que o mercado brasileiro é muito grande, diverso e complexo, o que gera muita ineficiência, seja no atendimento do ponto de venda, seja nas necessidades do consumidor.
Então, se um negócio utilizar as informações que geramos diariamente para mapear e resolver uma ou algumas dessas ineficiências, ele terá sucesso. E isso é independente das outras empresas do seu setor.
Os problemas são muitos e diversos, e existe espaço para todo mundo que queira genuinamente resolver um problema.
NOSSO MEIO | Você ajudou a criar o BEES, plataforma que “desintermediou” a relação entre indústria e varejo. Hoje, à frente da Scanntech, como equilibra a automação da decisão com o julgamento humano do time comercial?
Thomaz Machado: Eu acredito que a tomada de decisão continua sendo um atributo humano. Ninguém faz isso melhor do que a gente.
Agora, quem atualmente toma decisões por impulso, sem o suporte de dados, informação e Inteligência Artificial, com certeza irá perder o jogo e se tornará obsoleto. É humanamente impossível analisar e processar a quantidade de informação que temos hoje sem a ajuda da tecnologia.
NOSSO MEIO | Esta edição do Nosso Meio discute como a confiança tem se construído cada vez mais pela experiência do real, em meio ao excesso de informação e às relações digitais. Na sua visão, o que a presença (de loja, de time, de relação com o cliente) ainda entrega, e nenhum dado ou automação consegue substituir?
Thomaz Machado: Para mim, a resposta está exatamente no que foi citado acima. Todo negócio é baseado em relações humanas. A confiança, a cumplicidade, a expectativa, dentre muitos outros sentimentos, são construídas e mantidas através das pessoas. E isso é fundamental para o sucesso de qualquer empresa.
Eu vejo a tecnologia muito mais como um suporte — e um suporte muito importante atualmente —, mas jamais como um substituto.
Acredito que a Inteligência Artificial vem cada vez mais reforçando esse conceito, ela suporta, mas nunca substitui. E isso não vai mudar.
