Estudo da NielsenIQ mostra que marcas já não competem apenas entre si: inflação, bets e medicamentos à base de GLP-1 reorganizam as prioridades de consumo das famílias
A disputa pela preferência do consumidor ganhou um novo concorrente. Se antes uma marca de café brigava apenas com outra marca de café, hoje ela também disputa espaço no orçamento com apostas esportivas, medicamentos à base de GLP-1 e outras despesas que passaram a ocupar uma parcela cada vez maior da renda das famílias brasileiras. A mudança faz parte de um novo cenário de consumo identificado pelo estudo Full View 2026: As 5 forças por trás da queda de volume, divulgado pela NielsenIQ.
Segundo o levantamento, a retração no consumo vem acelerando rapidamente. Em 2024, 20% das categorias analisadas registraram queda de volume. Em 2025, esse percentual subiu para 50%. Já no primeiro trimestre de 2026, sete em cada dez categorias passaram a vender menos em volume, indicando uma reorganização profunda das decisões de compra dos consumidores.
Entre os fatores que ajudam a explicar esse movimento está o aumento expressivo no custo dos alimentos nos últimos anos. Dados da NielsenIQ mostram que, entre 2019 e 2025, o café acumulou alta de 248%, enquanto óleo e azeite subiram 118% e o arroz avançou 78%. Ao mesmo tempo, embora a renda média mensal do brasileiro esteja em R$ 3.613, a parcela destinada aos bens de consumo rápido vem diminuindo gradualmente, passando de 23,2% das despesas familiares, em 2023, para 21,9% em 2025. Em contrapartida, gastos com saúde e pagamento de dívidas ganharam participação no orçamento.
O cenário também reflete um sentimento generalizado de insegurança financeira. De acordo com o estudo, 74,6% dos lares brasileiros afirmam não se sentir confortáveis com sua situação econômica, enquanto apenas um quarto dos entrevistados demonstra tranquilidade em relação às próprias finanças.
Para Domenico Filho, diretor de Atendimento ao Varejo da NielsenIQ Brasil, a desaceleração do consumo não pode ser explicada por um único fator. O estudo identifica cinco forças que, atuando em conjunto, vêm redesenhando o comportamento de compra dos brasileiros: o endividamento aliado ao alto custo de vida, a redução dos gastos fora de casa, o avanço do comércio eletrônico, a consolidação de estratégias permanentes de economia e o surgimento de novas despesas que passaram a disputar espaço no orçamento das famílias.
É justamente essa última transformação que chama mais atenção. Segundo a NielsenIQ, apostas esportivas e medicamentos à base de GLP-1 passaram a representar uma nova pressão sobre o consumo. A penetração das plataformas de apostas já alcança 26,2% dos lares brasileiros, praticamente o dobro do registrado um ano antes. Ao mesmo tempo, a crescente adoção dos medicamentos utilizados para tratamento da obesidade e do diabetes adiciona uma nova categoria de gastos recorrentes ao orçamento doméstico.
Esse cenário faz com que o consumidor adote uma postura mais seletiva na hora de comprar. O levantamento aponta que economizar deixou de ser uma reação temporária e passou a fazer parte da rotina. Cresce a procura por embalagens menores, marcas mais acessíveis, promoções, canais com melhor custo-benefício e alternativas capazes de oferecer maior valor percebido.
Na avaliação da NielsenIQ, esse movimento também muda a lógica da competição entre as empresas. O desafio das marcas já não é apenas conquistar participação dentro de uma categoria específica, mas convencer o consumidor de que seu produto merece uma parcela do orçamento familiar diante de prioridades cada vez mais diversas. Nesse contexto, relevância, percepção de benefício e conexão com as necessidades reais do público tornam-se fatores decisivos para manter vendas e fidelização.
