Análise

O poder das raízes: como o Grupo Telles transformou tradição em futuro

Por Lucas Abreu

03/08/2026 17h44

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Há 180 anos, a família Telles constrói uma trajetória marcada por empreendedorismo, inovação e capacidade de se reinventar diante dos desafios

Em um cenário empresarial em que poucas companhias conseguem atravessar décadas mantendo relevância, o Grupo Telles carrega uma característica ainda mais rara: a continuidade de uma história construída por cinco gerações da mesma família. Mais do que preservar uma tradição iniciada no século XIX, a empresa transformou suas raízes em uma base para inovar, diversificar negócios e acompanhar as mudanças do mercado.

A história começa em 1843, quando o português Dario Telles de Menezes chegou ao Ceará aos 17 anos, trazendo consigo um pequeno alambique de cerâmica e o desejo de construir uma nova vida no Brasil. Instalado próximo à Serra de Maranguape, em uma propriedade chamada Ypióca — expressão de origem tupi-guarani associada à ideia de terra-roxa —, ele encontrou as condições para iniciar uma trajetória que se tornaria uma das mais longevas histórias empresariais do país.

Três anos depois, em 1846, Dario produziu o primeiro litro da cachaça Ypióca. Naquele início, o processo era completamente artesanal: a cana-de-açúcar era moída em equipamentos rudimentares, a destilação era feita em um alambique trazido de Portugal e a bebida era armazenada em barris de madeira antes de chegar aos consumidores das comunidades próximas. A distribuição também carregava as características daquele período. A produção era transportada em ancoretas no lombo de jumentos e vendida a granel, acompanhando o desenvolvimento econômico de uma região que ainda construía suas próprias cadeias produtivas.

Durante mais de cinco décadas à frente do negócio, Dario Telles consolidou as bases da empresa, aprimorando processos e fortalecendo a produção. Em 1851, formalizou a compra da propriedade Ypióca e, ao longo dos anos, construiu uma estrutura que permitiria que a empresa atravessasse gerações.

O primeiro grande movimento de transformação veio com a segunda geração da família. Em 1895, Dario Borges Telles assumiu o comando da empresa e iniciou uma fase de modernização. A aquisição de um engenho de ferro fundido aumentou a capacidade produtiva e marcou uma mudança importante: a cachaça, antes comercializada a granel, passou a ser engarrafada manualmente, aproximando a marca dos consumidores.

Após a morte precoce de Dario Borges, sua esposa, Dona Eugênia Menescal Campos, assumiu a administração do negócio durante 13 anos. Sua atuação demonstrou uma característica que se tornaria recorrente na história da família: a capacidade de conduzir a empresa diante de novos desafios, mantendo a continuidade do legado.

Foi com a chegada da terceira geração, liderada por Paulo Campos Telles, que a Ypióca iniciou uma fase ainda mais marcada pela inovação. A empresa ampliou sua produção, modernizou processos e passou a enxergar a construção da marca como parte estratégica do negócio. Em 1931, a produção alcançou um novo patamar, chegando a 120 mil litros de cachaça por ano. Mas o grande diferencial de Paulo Campos Telles foi entender que uma empresa tradicional precisava também encontrar novas formas de se comunicar com seus consumidores.

Sob sua liderança, a Ypióca passou a investir em identidade de marca, rótulos, embalagens e estratégias de divulgação que ajudaram a transformar uma bebida regional em um produto reconhecido nacionalmente. Em 1968, essa visão alcançou um novo marco: a empresa realizou a primeira exportação brasileira de aguardente para a Alemanha, levando a cachaça cearense para o mercado internacional.

A inovação também apareceu em iniciativas que anteciparam movimentos do marketing moderno. Um dos episódios mais simbólicos foi a viagem de um primo de Paulo Campos Telles em uma jangada de Fortaleza rumo ao Sudeste, levando na vela da embarcação o nome da Ypióca. A ação transformou um elemento da cultura cearense em uma poderosa ferramenta de comunicação, associando a marca à identidade regional e criando uma experiência que permaneceu na memória da empresa.

Naquele período, quando conceitos como branding e posicionamento ainda não faziam parte do vocabulário comum das empresas brasileiras, a Ypióca já entendia que uma marca forte precisava construir conexão com as pessoas.

O mesmo espírito apareceu no desenvolvimento dos produtos. A empresa investiu em soluções que aproximavam a bebida do consumidor, como a adoção da tampa de rosca, que trouxe mais praticidade às embalagens, e a criação da garrafa conhecida como Cowboy, um formato menor e mais fácil de transportar, que se tornou uma das apresentações mais reconhecidas da marca.

Essas iniciativas revelam um traço que atravessaria toda a história do Grupo Telles: a inovação nunca esteve limitada apenas à tecnologia ou aos processos industriais. Ela também apareceu na capacidade de compreender o consumidor, criar novas soluções e transformar desafios em oportunidades.

Ao longo das primeiras gerações, a empresa construiu as bases de um princípio que continuaria guiando o negócio no futuro: tradição não significa permanecer parado. Para continuar existindo, uma organização precisa evoluir. E foi justamente essa capacidade de transformação que prepararia o Grupo Telles para o maior ciclo de mudanças de sua história, quando a quarta geração assumiu o desafio de expandir a companhia para além da Ypióca e construir um novo ecossistema empresarial.

Quando um legado centenário encontrou novos caminhos

A chegada de Everardo Ferreira Telles à liderança do negócio marcou uma nova fase na história da família. Se as primeiras gerações construíram a força da Ypióca e consolidaram uma marca reconhecida dentro e fora do Brasil, a quarta geração assumiu o desafio de pensar além de um único produto e preparar a empresa para um novo ciclo de crescimento.

A partir da década de 1970, sob o comando de Everardo, o Grupo iniciou um processo de expansão e diversificação que transformaria completamente sua estrutura empresarial. O objetivo era construir negócios sólidos, capazes de gerar novas oportunidades e reduzir a dependência de uma única operação.

A estratégia levou a companhia a ampliar sua atuação para diferentes áreas da economia, passando a investir em segmentos como água mineral, agronegócio, energia, embalagens, agricultura, pesquisa e turismo. A antiga fabricante de cachaça passou a se consolidar como um grupo empresarial com diferentes negócios conectados por uma mesma cultura de empreendedorismo.

Esse movimento, no entanto, teve um dos seus capítulos mais importantes em 2012, quando a Ypióca foi adquirida pela Diageo, uma das maiores empresas globais do setor de bebidas alcoólicas. A negociação, avaliada em US$ 453 milhões (cerca de R$900 milhões a época), marcou o encerramento de um ciclo iniciado quase dois séculos antes, mas também abriu espaço para uma nova etapa da trajetória da família Telles.

Para muitas empresas, a venda de sua principal marca poderia representar o fim de uma história. Para o Grupo Telles, significou a oportunidade de reconstrução. Com a saída da operação de bebidas alcoólicas, a companhia passou a concentrar esforços na expansão dos demais negócios e no desenvolvimento de novas frentes de atuação. A decisão exigiu visão estratégica e capacidade de reinvenção, características que acompanharam a família desde a fundação da empresa.

“A venda da nossa empresa-mãe nos deu condições de desenvolver os outros negócios. Hoje, nós temos 2.200 funcionários, que possuem participação nos lucros”, afirmou Everardo durante a última edição do NM Fundadores, realizada no Vasto Restaurante.

O resultado dessa estratégia foi a formação de um ecossistema empresarial diversificado, com negócios que atuam em diferentes cadeias produtivas e que, juntos, representam uma nova fase do legado construído pela família.

A Agropaulo Agroindustrial representa a conexão histórica do Grupo com o campo, atuando em soluções para o agronegócio, produção agrícola, pecuária e desenvolvimento de tecnologias voltadas à produtividade e sustentabilidade no setor.

A Ceará Mirim Agroindustrial amplia essa atuação na cadeia da cana-de-açúcar, com produção de etanol e investimentos ligados ao setor energético, mantendo uma relação com uma das atividades que esteve na origem da própria história da família.

A Ypetro atua na distribuição de combustíveis, fortalecendo a presença do Grupo em uma área estratégica para a economia regional e conectando diferentes operações dentro de uma visão integrada de negócios.

No segmento de bebidas e alimentos, a Naturágua consolidou-se como uma das principais marcas de água mineral do Ceará, levando ao mercado um produto associado à qualidade e à origem regional. Já a Natucoco ampliou o portfólio com produtos derivados do coco, acompanhando mudanças no comportamento dos consumidores e a busca por opções mais naturais.

Na indústria, a Yplastic desenvolve embalagens plásticas para diferentes mercados, enquanto a Santelisa Embalagens atua na produção de chapas, caixas e bobinas de papelão, com foco em soluções sustentáveis e uso de materiais reciclados.

O portfólio também inclui o iPark Complexo Turístico, empreendimento que transformou uma área histórica ligada à trajetória da família em um espaço de lazer, turismo e preservação da memória empresarial, aproximando o público da história do Grupo e da cultura cearense.

Mais do que uma expansão de negócios, essa diversificação representa a compreensão de que uma empresa familiar longeva precisa estar preparada para diferentes cenários, criando novas fontes de crescimento sem perder os valores que sustentaram sua origem. Essa visão também se reflete na forma como o Grupo administra seus recursos. Segundo Everardo Telles, a independência financeira sempre foi uma preocupação da companhia, permitindo que os investimentos sejam feitos com planejamento e visão de longo prazo.

“A empresa não depende de banco. Ela possui reservas para novos investimentos. A gente reserva parte dos nossos lucros justamente para desenvolver as nossas empresas”, ressalta.

A estratégia ajudou o Grupo a atravessar diferentes ciclos econômicos e construir uma estrutura baseada em crescimento sustentável. Em 2025, essa trajetória alcançou um novo marco: a companhia ultrapassou a marca de R$ 1 bilhão em faturamento, resultado de uma estratégia iniciada décadas antes e acelerada após a venda da Ypióca.

Pessoas, valores e o futuro de uma empresa centenária

Ao longo de quase dois séculos de história, o Grupo Telles acumulou marcas, negócios, investimentos e conquistas. Mas, para quem acompanhou a trajetória da companhia de perto, existe um elemento que atravessa todas as transformações: a cultura construída pela família ao longo de cinco gerações. Para além dos resultados, o Grupo desenvolveu uma filosofia empresarial que coloca as pessoas como parte central da estratégia.

“Na contratação, é muito importante, acima do conhecimento, gostar de gente. Se a pessoa não gostar de pessoas, para a gente não funciona. Esse é um critério nosso para qualquer um que deseje trabalhar conosco”, afirma Everardo.

A visão traduz uma característica que acompanhou a história da empresa desde sua origem: a construção de relações duradouras. Seja com colaboradores, parceiros, fornecedores ou consumidores, a família Telles sempre associou o crescimento do negócio à capacidade de criar conexões baseadas em confiança. Esse princípio também aparece na forma como a companhia conduz sua gestão de pessoas. Atualmente, o Grupo conta com cerca de 2.200 colaboradores, que participam dos resultados da empresa por meio de programas de participação nos lucros. Para Everardo, compartilhar conquistas faz parte da construção de um ambiente em que todos se sintam parte do desenvolvimento do negócio.

A valorização das pessoas também esteve presente em momentos de desafio. Durante sua participação no NM Fundadores, o empresário relembrou episódios da trajetória do Grupo em que o apoio recebido de parceiros demonstrou a força dos relacionamentos construídos ao longo dos anos. Para Everardo, essas experiências reforçam uma convicção que acompanha sua liderança: empresas são construídas por pessoas antes de serem construídas por ativos ou estruturas.

Essa mesma visão orientou um dos temas mais importantes para qualquer empresa familiar: a sucessão. Ao longo de cinco gerações, a continuidade do Grupo Telles não aconteceu apenas pela passagem de comando entre familiares, mas por um processo de preparação. A família buscou formar novas lideranças, combinando educação, experiência profissional e participação gradual nos negócios.

“A sucessão foi um processo natural. Todos os meus filhos estudaram fora, como eu estudei. Todos estão atuando em suas áreas de formação para contribuir com a empresa”, aponta Everardo.

O objetivo é garantir que as próximas gerações estejam preparadas para tomar decisões, compreender novos mercados e conduzir a companhia diante dos desafios de um ambiente empresarial em constante transformação.

Essa combinação entre tradição e renovação é uma das razões pelas quais o Grupo Telles conseguiu atravessar diferentes períodos econômicos sem perder relevância. A empresa mantém suas raízes familiares, mas busca constantemente novas ferramentas de gestão, tecnologia e inovação para acompanhar as mudanças do mundo.

Nos últimos anos, esse movimento ganhou ainda mais força com investimentos em pesquisa, desenvolvimento tecnológico e sustentabilidade. O Grupo ampliou sua atuação em áreas estratégicas, como soluções voltadas ao agronegócio, economia circular, reaproveitamento de materiais e novas tecnologias aplicadas aos seus negócios.

O compromisso socioambiental passou a integrar a estratégia da companhia não apenas como uma agenda de responsabilidade, mas como uma forma de pensar o crescimento empresarial no longo prazo. A busca por eficiência produtiva, redução de impactos e desenvolvimento sustentável acompanha a evolução dos negócios do Grupo.

Essa visão está presente, por exemplo, na atuação da Santelisa Embalagens, que trabalha com soluções baseadas em materiais reciclados; nas iniciativas ligadas ao agronegócio, com pesquisas e desenvolvimento de tecnologias próprias; e nos investimentos em fontes de energia e processos mais eficientes.

Para uma empresa que nasceu no século XIX, olhar para o futuro sempre foi uma necessidade. Cada geração precisou interpretar seu tempo e encontrar novas respostas para continuar crescendo. Foi assim com Dario Telles ao iniciar a produção da Ypióca; com Paulo Campos Telles ao transformar a marca em referência nacional e internacional; com Everardo ao diversificar os negócios; e com as novas gerações ao incorporar tecnologia, inovação e novos modelos de gestão. Depois de 180 anos, o Grupo Telles demonstra que raízes não significam permanecer parado. Elas representam a base que permite crescer, inovar e enfrentar novos desafios.