Por Wladson Sidney, CEO Sancho Gestão de Carreiras e Presidente da ADVB/CE
Taí um ditado que faz tempo que não escuto… Tem gente que entra numa sala e o ambiente muda.
Você já teve um amigo desses? O tipo de pessoa que chegava e o astral do ambiente mudava. Não pela roupa, não pelo cargo. Pela energia. O sorriso que contagiava antes de começar a conversar, o jeito de cumprimentar como se aquele fosse o momento mais importante do dia, a elegância no gesto de chegar até você. Você se lembrava dessa pessoa sem precisar ver o feed.
Antigamente se dizia que ela “era presença.” E todo mundo sabia o que isso significava.
Hoje quando a gente fala em presença, o primeiro pensamento é sobre consistência de posts, frequência de stories, engajamento de reels, artigo no LinkedIn, cadência de envio de email… A palavra migrou de descrição de energia para métrica de plataforma. E nesse processo, criou-se um problema.
A presença digital versus a presença real.
Jim Collins, no livro Built to Last, descreveu o que ele chamou de Tirania do OU: a crença de que você precisa escolher entre A ou B, que os dois não podem coexistir ao mesmo tempo. Eficiência ou inovação. Lucro ou propósito. Crescimento ou cultura. E ele passou anos estudando empresas visionárias pra provar que as mais resilientes não escolhem. Elas abraçam o que ele chamou de Gênio do E.
Presença digital E presença real. Não uma OU outra.
O que a presença digital faz, ela faz muito bem: te coloca em circulação, mantém você na memória de pessoas que você não encontra todo dia, te dá alcance que nenhum evento presencial substitui. Isso tem valor real. Quem ignora esse jogo está cedendo espaço pra quem não tem a metade da competência que você tem.
E o que a presença real faz, nenhum algoritmo ainda reproduziu: ela comunica intenção no nível que só o corpo consegue. O olho que para quando você está falando. A atenção que não divide a tela. A indicação que vem de alguém que te viu de perto e decidiu colocar o nome dele junto com o seu.
Em 1973, o sociólogo Mark Granovetter publicou um estudo mostrando que a maioria das oportunidades de carreira chega através de pessoas que você conhece pouco, não das que você conhece bem. Ele chamou isso de a força dos laços fracos. O que ativa esses laços é a impressão que você deixa. E impressão, no sentido mais literal, ainda é física. É como você chegou, como você ouviu, se você esteve de verdade.
O ser humano presença do título é aquele que entende isso. Que cuida do digital sem abrir mão do real. Que aparece nos dois mundos sem sacrificar um pelo outro. Que sabe que o conteúdo que posta precisa ter coerência com quem ele é quando o celular não está apontado pra ele.
E o que une os dois mundos é sempre a mesma coisa: caráter. A disposição de ser interessado nas pessoas, não interesseiro pelo que elas podem te dar. De recomendar alguém sem precisar. De dizer a verdade mesmo quando o silêncio seria mais cômodo. De aparecer nas horas inconvenientes, online e offline.
Carrego um propósito que guia muito do que faço: tornar os competentes conhecidos. Pra isso, os dois planos importam. A arquitetura de relevância que me interessa não é só de feed. É a que deixa rastro nos dois ambientes. A que faz alguém lembrar de você tanto quando abre o Instagram quanto quando está pensando em quem recomendar pra uma oportunidade real.
Num tempo de “pode tudo”, de conteúdo fabricado e de relacionamentos que se medem em cliques, a coisa que ficou rara não foi a presença digital. Foi a coerência entre quem você é nos dois mundos.
E coisa rara tem valor.
Pense num ser humano presença. O que você quer que as pessoas lembrem de você quando a tela estiver desligada?
