“Eu sentia um incômodo na mama esquerda”, ela relata. “Eu passava a mão no meu seio e eu sentia as ondulações. Mas a minha ginecologista me dizia: ‘olha, Joyce, aparentemente não é nada, mas a gente vai ficar acompanhando’. Um dia, eu pedi a ela que me indicasse uma mastologista, que foi uma luz na minha vida. O nome dela é Josmara Furtado.
Quando eu cheguei no consultório dela, eu relatei que eu fazia exame a cada seis meses, o diagnóstico era sempre microcalcificação, mas o incômodo na mama existia. Ela pediu para eu fazer uma ressonância, que também apontou a mesma coisa. Mas havia algo ali que tinha intrigado a Dra. Josmara, um pequeno pontinho que ela não tinha gostado. Ela pediu uma biópsia e ali constataram que eu tinha um carcinoma na mama direita”.
Acho que eu comecei esta história no olho do furacão, e pelo mês em que estamos, vocês já devem ter imaginado do que ela vai se tratar. Mas a minha fonte é uma mulher extraordinária demais para ser reduzida a um diagnóstico de câncer de mama, do qual ela superou. Posso afirmar que Joyce de Castro, de fato, é uma mulher extraordinária com quem tive oportunidade de ter uma boa conversa.
Vamos do começo…
A diretora bailarina
Estou na sala de reuniões do espaço Nosso Meio. É um lugar agradável. Às vezes, quando faço uma atividade que me exige muita concentração, venho para cá e me refugio no silêncio, debaixo das luzes amarelas de led acopladas no teto. Em breves momentos, faço uma pausa, como dois ou três biscoitos que ficam na enorme biscoiteira de vidro no centro da mesa, e olho para a paisagem tranquila do Jardins Open Mall, onde muitos noivos costumam fazer seus álbuns de casamento.
Hoje, entretanto, eu vou utilizar a sala para um encontro. Minha fonte se chama Joyce de Castro Lemos Paula. Ela é diretora de controladoria, gestão de riscos e CSC da Solar Coca-Cola. Foi o Lucílio Bessa quem me disse que ela era uma ótima pessoa para se conversar (lembranças ao amigo).
Marquei com Joyce às 11h, em uma conferência online. Quinze minutos se passam e ela ainda não entrou na sala. “Será que ela não vem?”, me pergunto. Mando mensagem, mas ela não responde. Apelo, então, para a última instância e faço uma ligação. Do outro lado da linha, uma voz feminina me atende:
“Alô?”
“Oi Joyce, é o Lucas. Está tudo bem? Eu estou te aguardando aqui na nossa reunião.”
“Ai, Lucas, me desculpa!”, ela responde encabulada e eu posso imaginar a expressão sem jeito dela do outro lado da linha. “Eu acabei confundindo as datas, mas eu vou entrar sim, me dê um minuto!”.
Meio minuto depois e Joyce está na sala, me cumprimentando com um sorriso encabulado e um pedido de desculpas. Digo a ela que está tudo bem e explico rapidamente o que é o “Conversas”. Joyce assente e diz que está pronta para ser entrevistada, mas antes que eu possa formular a primeira pergunta, ela me faz um pedido:
“Lucas, rapidinho, posso só ir ao banheiro primeiro? Eu estou desde 8h30 nessa cadeira e só agora eu lembrei de ir ao banheiro.”
“Claro, eu te espero”, respondo.
Joyce sai da zona de visão da câmera. Cinco minutos depois e ela está de volta.
“Pronto, agora estou pronta”, diz.
Um detalhe que vocês já devem ter notado em toda entrevista que faço. Nunca vou conversar com uma fonte já sabendo tudo sobre ela. Por isso, evito ver podcasts, ler entrevistas ou qualquer outro tipo de material em que a fonte tenha contribuído. O que eu sei é sempre o básico: o nome e o sobrenome; o cargo; e por fim, o motivo pelo qual aquela entrevista nasceu. No caso da Joyce, foi o câncer de mama.
Por conta disso, a primeira pergunta que eu faço é a mesma para todas as fontes, e com a Joyce não seria diferente: “quem é você?”
“A Joyce é uma mineira de Juiz de Fora, que passou uma temporada de oito anos no Rio de Janeiro e logo depois veio para o Ceará, onde vive há 20 anos. Aqui, junto do Luiz Antônio, ela construiu os seus alicerces. Nós temos dois filhos, a Marina de 19 anos, que é estudante de Direito, e o Luiz de 16, que já está querendo voar e ir estudar no Insper, em São Paulo.
A Joyce também é uma pessoa simples. Além de mãe de família, é mãe de pet e mãe de planta. Uma pessoa emocional, chorona, mas também muito risonha e alegre. Ela é intensa em casa e no trabalho. Em qualquer um desses lugares a essência dela é a mesma”, ela me responde.
Entendi o porquê de Lucílio ter me dito que Joyce era uma pessoa maravilhosa para se conversar. Ela é mineira. Não que eu acredite em estereótipos ou coisa do tipo, mas eu tive contatos o suficiente com mineiros para saber que eles adoram uma prosa, principalmente se tiver um lanchinho pra acompanhar. Se Joyce estivesse aqui presente na sala de reuniões, eu teria pedido à Dona Fátima (nossa auxiliar) para fazer uns pães de queijo e um bule de café quente.
“E como era lá em Juiz de Fora? Do que você se lembra de lá e hoje tem saudade?”, pergunto.
“Juiz de Fora é uma cidade muito pequena, quase como um interior. Então, todo mundo se conhece e é muito amistoso. Eu tenho amigos de juventude que até hoje tenho contato, mesmo elas estando em partes diferentes do Brasil. E do que eu sinto saudade? Acho que do cheiro da minha infância, do pão de queijo, do feijãozinho vermelho que a minha costuma fazer. Sempre quando eu chego por lá, ela faz esse feijão. E a gente faz sempre um intercâmbio, sabe? Eu levo pra lá a castanha e as rendas do Ceará e trago de volta a goiabada e o queijo mineiro, que é inigualável”, Joyce responde.
Vou pedir licença a vocês para citar novamente “In The Heights”, também conhecido como meu musical favorito. Em uma cena específica, a protagonista Nina diz a Abuela Claudia (que não é realmente a sua abuela) que as suas receitas foram sua salvação enquanto ela estava longe, na faculdade. Abuela lhe responde que aquelas receitas eram para ela se lembrar do “gosto de casa”. Sempre entendi que a comida era um lembrete das nossas origens, mas com Joyce aquilo ganhou um significado diferente: comida de casa também é nostalgia.
“E no Rio de Janeiro, como foi?”, dou segmento.
“O Rio foi o período mais solitário da minha vida. Assim, eu adoro a cidade, a experiência foi muito boa, porque eu também morava na Zona Sul. E aquela foi a fase que mais alavancou a minha carreira, porque Juiz de Fora era uma cidade muito pequena e eu sabia que pra realizar meus sonhos eu tinha que sair de lá. Eu fui morar com uma amiga e comecei a trabalhar na Parmalat, fiquei lá quase dois anos, depois entrei no mercado de energias renováveis, trabalhando na EDF, uma estatal francesa. Nessa jornada, eu fui entendendo meu propósito profissional, que não era só construir uma carreira, mas pensar que eu poderia impactar a vida de outras pessoas.
Eu sabia que eu queria liderar pessoas, mas eu queria trazer uma liderança diferente, com coração e com humanidade. Eu queria gerar impacto positivo na vida das pessoas. O Rio me deu essa possibilidade, essa alavanca, e não tinham muitas mulheres naquela época que estavam nessas posições. Naquela época, Lucas, as mulheres tinham que ter comportamentos mais masculinos para sentar numa mesa de liderança que era dominada praticamente por homens. Hoje, já é um pouco diferente, a gente não precisa mais falar como um homem pra ser reconhecida como uma líder. A gente é plenamente capaz de fazer o que os homens fazem. Ainda existem desafios, Lucas, ainda há uma percepção diferente nos perfis executivos quando o gênero é posto na conversa, mas a gente está no caminho para mudar isso e eu acho que quando nós inspiramos outras mulheres, a gente abre muitas portas também”.
Uma pequena nota antes de prosseguir: acho que a Joyce ia adorar escutar a faixa nº 4 do álbum Lover.
“Joyce, o que te motivou a seguir uma carreira no universo das finanças?”, questiono.
“Eu acho que essa é a história mais interessante da minha vida, Lucas. Eu sou uma típica mineira do interior, como eu já te falei, e na minha juventude eu entrei para o conservatório da minha cidade, onde eu fiz balé durante toda minha juventude. E depois, eu comecei a dar aulas de balé também. Mas aquilo nunca foi uma coisa de carreira, eu via o balé como um hobby, mas eu gostava de dar aula. Então, eu cheguei para o meu e disse que queria fazer pedagogia e ele me disse assim: ‘de jeito nenhum! As minhas filhas vão ser as minhas sucessoras, você não vai fazer pedagogia, você tem que pensar em algo que te sustente aqui no negócio da família!’
Meu pai tinha uma indústria e ele encaminhou todas as filhas. Minha irmã mais velha prestou Direito e eu estava perdida, sem saber o que eu ia fazer. E quando eu fui fazer a inscrição para o vestibular da Universidade Federal de Juiz de Fora, eu tomei a decisão assim em cinco minutos e eu decidi por fazer Economia. Eu fiquei muito mexida no começo, não sabia se era realmente aquilo que eu queria, mas eu sempre fui muito adaptável e eu comecei a tomar gosto por aquela área também. Então, talvez a minha decisão tenha sido menos por vocação e muito mais por ter escutado meu pai. E se você me perguntar se é por ter escutado ou por não querer desagradar a ele, eu não vou saber te responder. Mas isso me fez chegar até aqui e eu sou muito grata a ele por isso.”
“E quando você se apaixonou de fato pelas finanças? Ao meu ver, Joyce, você não é uma pessoa que apresenta insatisfação com a sua carreira. Pelo seu semblante, dá pra ver que você gosta muito de fazer o que você faz. E eu acho que a gente só faz coisas quando a gente tem paixão por eles. Então, quando você se apaixonou por esse universo em que você trabalha hoje?”, devolvo a ela.
“Acho que foi quando eu comecei a imaginar como seria o meu futuro. Eu já tinha entendido que o balé era um hobby. Eu me perguntei: ‘o que a Joyce quer ser daqui a 20 anos?’. E eu percebi que eu queria ser uma executiva. Foi uma virada de chave que me fez pegar gosto também pela Economia. Eu queria estar em um ambiente corporativo, então eu me dediquei, eu fui pro Rio, eu construí minha carreira e eu sou feliz com ela”.
“Mas você ainda mantém a bailarina em você?”, pergunto.
“Eu continuo apaixonada pela dança, mas eu a uso muito mais como uma atividade. Mas a bailarina, como você perguntou, está aqui sim comigo, na minha postura, na maneira como eu posiciono e até nas lições. O balé também me ensinou a ser disciplinada e resiliente, porque muita gente pensa que um artista numa apresentação só chega lá e faz, mas não, não é assim. Para um pianista, por exemplo, fazer um recital foram horas e horas de treinamento. O balé também tem um enorme processo até o momento do espetáculo. Os bastidores são uma coisa que passa despercebido por muita gente, mas eles são necessários para fazer qualquer pessoa crescer, seja nas artes ou num ambiente corporativo”, finaliza Joyce.
Aquele discurso ressoa em mim, não só por ser um jornalista dedicado a escrever, mas por ser um ator dedicado a cada papel que me proponho a fazer. Com certa frequência, penso que quem lê meus textos ou me ver em cena pouco sabe do que é necessário para fazer acontecer. É difícil, um pouco estressante; é cheio de dúvidas e mudanças de rota; penso até que eles só são um grito no vazio que ninguém vai escutar. Mas aí recordo, alguém pode ser impactado, e se uma pessoa é transformada, já me é suficiente.
Uma segunda nota: Joyce e eu somos muito parecidos em um mesmo desejo de impactar a vida das pessoas antes das cortinas da vida fecharem. E um conselho tanto meu quanto o dela: é muito importante ter repertório para fazer isso acontecer, não só dos livros de autoajuda, mas também dos de ficção.
A paciente-agente
“Joyce, chegamos na parte da entrevista onde a gente vai falar da doença”, anuncio com um certo peso. A conversa tinha sido tão leve e gostosa que falar sobre isso parecia um planeta fora do eixo de translação. Mas há a necessidade, e acho que Joyce concorda comigo. “Você pode relatar como foi pra você essa jornada com o câncer de mama?”
Joyce suspira fundo e olha para cima, como quem organiza a narrativa inteira que ela sabe de cor e salteado. Ela sorri pra mim com os lábios fechados e pintados de um tom de vermelho que combina com as suas unhas. Vejo-a pensar mais um pouco e o relato começa:
“Você sabia que a palavra “paciente” tem uma origem interessante? Ela vem do latim e está associada a sofrer, suportar e aguentar. Mas também remete à paciência. Quando recebi o diagnóstico, não vou mentir para você, Lucas: o chão se abre. Eu sempre fui muito acelerada. Tinha um ex-chefe costarriquenho que não falava muito bem português e me chamava de ‘Senhora Rápida’, porque eu fazia mil coisas ao mesmo tempo.
Naquele momento, percebi que precisava ser paciente, mas não no sentido da passividade, de alguém que fica esperando alguma coisa cair do céu. Eu queria ser uma paciente que também tivesse um papel de agente, que participasse ativamente do próprio processo de tratamento. O tratamento do câncer de mama é longo e tem um impacto significativo na qualidade de vida, nas expectativas de futuro e na percepção da finitude. Por isso, decidi ser uma paciente agente: fiz a minha parte e confiei na medicina. Fui paciente para respeitar o tempo da medicação e do tratamento, mas também fui agente da minha própria caminhada.
Na época, eu estava havia quatro meses na Solar Coca-Cola. Quando recebi o diagnóstico, procurei a diretora de Recursos Humanos, Emiliana, e meu diretor, Aderson, para contar o que estava acontecendo.
Eu disse a eles que estava com câncer de mama. Eu expliquei que eles haviam contratado uma profissional saudável, com uma carreira, que tinha chegado à empresa para contribuir com o sucesso do negócio. Quatro meses depois, aquela profissional estava vivendo outra realidade: havia se tornado uma paciente oncológica. A resposta da Emiliana foi algo que me marcou muito. Ela disse: “Jamais repita isso. Você veio para cá porque tinha que passar pelo seu processo aqui, sendo feliz na sua…”. Essa reação mexeu muito comigo e ainda mexe quando conto essa história.
Os médicos me deixaram livre para decidir se queria tirar um período de licença. Eu já tinha feito a primeira cirurgia e perguntei à Emiliana se poderia continuar trabalhando. Ela me disse que a decisão era minha, de acordo com o que me faria bem.
Eu não queria me limitar a um diagnóstico nem deixar de ser quem sempre fui. Queria continuar trabalhando porque isso também me ajudaria a atravessar o tratamento, mantendo minha identidade. Eu queria ser cuidada, mas continuar sendo a Joyce que sempre trabalhou”.
“Como foi que você descobriu esse câncer?”, pergunto.
“Eu sentia um incômodo na mama esquerda”, ela relata. “Eu passava a mão no meu seio e eu sentia as ondulações. Mas a minha ginecologista me dizia: ‘olha, Joyce, aparentemente não é nada, mas a gente vai ficar acompanhando’. Um dia, eu pedi a ela que me indicasse uma mastologista, que foi uma luz na minha vida. O nome dela é Josmara Furtado.
Quando eu cheguei no consultório dela, eu relatei que eu fazia exame a cada seis meses, o diagnóstico era sempre microcalcificação, mas o incômodo na mama existia. Ela pediu para eu fazer uma ressonância, que também apontou a mesma coisa. Mas havia algo ali que tinha intrigado a Dra. Josmara, um pequeno pontinho que ela não tinha gostado. Ela pediu uma biópsia e ali constataram que eu tinha um carcinoma na mama direita.
Inicialmente, a lesão parecia muito pequena, e a perspectiva era de uma cirurgia para retirá-la, sem necessidade de quimioterapia.
Mas, durante a primeira cirurgia, a equipe percebeu que a mama esquerda apresentava uma alteração importante. O procedimento demorou mais do que o esperado, houve bastante sangramento e os médicos precisaram trabalhar para retirar o tecido. O material foi encaminhado para biópsia.
O resultado revelou outro carcinoma, dessa vez na mama esquerda, com cerca de 9,8 centímetros. Esse tipo de carcinoma não forma necessariamente um nódulo arredondado. Ele pode se espalhar pelo tecido, produzindo sinais nos exames sem apresentar um formato definido. Por isso, costuma ser detectado em um estágio mais avançado.
Com a descoberta, precisei considerar uma segunda cirurgia. A possibilidade era retirar toda a mama esquerda, incluindo mamilo e aréola, e depois realizar uma reconstrução. Como eu precisava fazer um PET scan, eu fui a São Paulo com meu marido. Ele organizou a viagem e aproveitamos para buscar uma segunda opinião no A.C. Camargo, centro de referência em oncologia.
Fui atendida por uma equipe de mastologia e cirurgia plástica. A avaliação confirmou a recomendação de retirar toda a mama esquerda. Voltei arrasada. Pensava em como alguém que fazia exames a cada seis meses, que nunca havia negligenciado o próprio cuidado, poderia chegar àquela situação e correr o risco de perder uma mama.
Procurei novamente a Dra. Josmara e contei que a equipe de São Paulo havia recomendado a retirada completa da mama. Comecei a chorar e disse que não entendia como, mesmo tendo me cuidado tanto, precisava passar por aquilo. Ela me pediu uma semana para estudar melhor o caso.
Quando voltei, ela apresentou duas possibilidades: a primeira era realizar a cirurgia retirando toda a mama, conforme o protocolo recomendado. A segunda era fazer uma nova cirurgia com a presença de um patologista no centro cirúrgico, para avaliar se as margens do tecido retirado estavam livres de células cancerígenas. Se a avaliação apontasse margens livres, a cirurgia era encerrada na hora e eu não precisaria de uma terceira cirurgia para retirar a mama.
Na hora, eu escolhi a segunda alternativa. Meu marido perguntou se eu tinha certeza, porque, se não desse certo, precisaria passar por uma terceira cirurgia. Eu respondi que tinha certeza de que daria certo. E deu. Não precisei retirar a mama inteira.
Considero aquela médica um anjo porque ela assumiu uma responsabilidade que poderia não ter assumido. A cirurgia era mais delicada, pois exigia retirar cuidadosamente o tecido restante e avaliar as margens. Ela poderia simplesmente ter seguido o caminho mais radical, retirando tudo. Mas estudou meu caso e propôs uma alternativa que considerava adequada e que não colocava minha saúde em risco.”
“Depois dessa cirurgia, você precisou fazer algum tipo de quimioterapia ou radioterapia?”, pergunto.
“Depois disso, eu fiz seis sessões de quimioterapia e 15 sessões de radioterapia. Aí entrei em outro momento, que era o momento do danado do cabelo. Para muitas mulheres, essa é uma das partes mais difíceis do tratamento. No meu caso, era o que mais me emocionava.
Eu usei uma touca de crioterapia, que ajuda a diminuir a queda dos fios. Ela é como uma touca de gelo, que resfria bastante e ela pode ser bem dolorosa e desconfortável. O frio se espalha pelo corpo, tanto que, na maioria das fotos, você vê a pessoa usando um cobertor. Mesmo com a touca, o cabelo continua caindo, mas a queda pode ser menos intensa e o crescimento posterior pode ser mais rápido.
Antes da segunda sessão de quimioterapia, quando percebi que estava perdendo muito cabelo, procurei minha oncologista, a Dra. Virgínia Moreira, que também considero um anjo na minha vida. Eu disse a ela que estava pensando em não usar mais a touca. Como sou da área de finanças, eu fiz minhas contas: se aquele tanto de cabelo havia caído na primeira sessão, imaginei que, ao longo das seis sessões, acabaria ficando careca. Então pensei: para que continuar sentindo aquela dor toda?
Ela me explicou que a queda mais intensa costuma acontecer por volta de 40 dias após o início do tratamento e que, depois, diminuiria. Saí do consultório pensando que precisava fazer a minha parte. Eu não tinha dito que seria uma paciente agente? Então, eu continuaria fazendo a minha parte e veria o que aconteceria.
Foi a melhor decisão que tomei, porque, de fato, não fiquei careca. Meu cabelo ficou cheio de falhas, e precisei cortá-lo bem curtinho depois que terminei a quimioterapia. Quando os fios começaram a crescer de novo, eu precisei cortar eles bem curtinhos para uniformizar o comprimento, porque estavam muito irregulares.
Depois da quimioterapia, fiz as 15 sessões de radioterapia. No meu caso, foi um processo relativamente tranquilo, com bem menos efeitos colaterais do que eu havia sentido durante a quimioterapia.
Muita gente pensa, Lucas, que a vida do paciente oncológico volta ao normal quando terminam a quimioterapia e a radioterapia. Mas não é bem assim. Ainda existe o risco de a doença recidivar e há toda a ansiedade que acompanha essa possibilidade.
Hoje, estou completando dois anos desde o início dessa caminhada e continuo em tratamento. Como o meu câncer era hormônio-positivo, preciso tomar uma medicação oral durante cinco anos e uma combinação de medicamentos por três anos, que tem seus efeitos colaterais na menopausa, por exemplo, mas eu estou aqui, levando bem como a paciente-agente que eu me propus a ser”.
Bate-bola
LUCAS: Vamos lá! Um livro, Joyce?
JOYCE: “O Fio Condutor” de Francisco de Azevedo.
LUCAS: Uma cor?
JOYCE: Antigamente, eu te diria preto, mas vamos lá… Branco.
LUCAS: Achei que você ia dizer vermelho, sabia?
JOYCE: Eu ia dizer vermelho! Estava na ponta da língua, mas comecei a pensar: por que branco? Branco de paz, né? Vermelho de amor e de alegria. Talvez eu fique entre os dois.
LUCAS: Um filme de que você gosta?
JOYCE: Eu sou super eclética. Esse bate-bola está muito difícil, porque eu sempre lembro dos últimos filmes que assisti. Não tenho um que eu diga: “É esse!”. Assim como acontece com as essências e as inspirações, tiro um pouquinho de cada filme. Então, não tenho um que eleja como favorito.
LUCAS: Tem alguma música especial?
JOYCE: Sou péssima nesse bate-bola, hein? Vêm várias músicas à cabeça e, ao mesmo tempo, nenhuma. Essa entrevistada está péssima no bate-bola!
LUCAS: Nada? Às vezes, é mais sobre o que vem à cabeça na hora. Diga a primeira coisa em que pensar.
JOYCE: Estou pensando em uma de que gosto demais… Pera aí. Não, não tenho uma música específica.
LUCAS: Um lugar?
JOYCE: Minha casa.
LUCAS: Um sonho que você ainda não realizou?
JOYCE: Eu tinha um sonho que realizei, Lucas. Sou a louca da história! Adoro histórias da Primeira e da Segunda Guerra Mundial, tudo relacionado à história e ao contexto político. Meu sonho era ir a Auschwitz, e eu realizei.
Mas eu também adoro visitar lugares com culturas muito diferentes da nossa. Então, meu sonho é continuar conhecendo países e culturas diferentes. Quero visitar Marrocos e Índia. Daqui a cinco anos, se você me perguntar novamente, provavelmente meu sonho será conhecer outra cultura, porque adoro isso.
LUCAS: Um momento bom?
JOYCE: O acolhimento do meu marido, não só durante esse processo que vivi, mas até hoje. Esse é o meu melhor momento.
LUCAS: Qual é a sua maior qualidade?
JOYCE: Acho que é a resiliência, a perseverança, talvez.
LUCAS: E um defeito?
JOYCE: Eu sou chata pra caramba, menino! Sou exigente, chatinha, detalhista. Sou muito rígida, talvez até com meus filhos. Gosto de fazer tudo muito certinho. Talvez seja uma exigência exagerada comigo mesma, principalmente. Aliás, muito mais comigo do que com os outros.
LUCAS: Um passo de balé?
JOYCE: Un pas de danse, um passinho de dança! Um relevé também, de relevar.
LUCAS: Uma palavra que te define?
JOYCE: Emoção.
LUCAS: E a última pergunta: o que você espera para o futuro?
JOYCE: Continuar impactando positivamente a vida das pessoas. Acho que esse é o meu propósito: seguir contribuindo para a vida de quem está ao meu redor, tanto no trabalho quanto em casa, e aprender a escutar cada vez mais.
Quero olhar para trás, no futuro, e perceber quantas pessoas consegui ajudar a evoluir. Quero saber que contribuí emocionalmente com algumas, alavanquei a carreira de outras e impactei positivamente a vida de tantas pessoas.
Também quero olhar para os meus filhos e reconhecer neles valores como honestidade, caráter e resiliência. Quero ver as pessoas que estão ao meu redor hoje prosperando no futuro. Acho que meu desejo está muito mais relacionado ao impacto que deixo nos outros do que a estar em um lugar diferente daqui a cinco ou dez anos.
LUCAS: Obrigado, Joyce…
Uma última nota
Prometo aqui ser bem breve para não me alongar mais. Só gostaria de pontuar a coincidência que foi conversar com duas pessoas extraordinárias, nos finais de certos períodos do dia.
(E é por isso que essa crônica tem esse nome).
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